Capítulo 18
Agora, tínhamos sob os olhos o caso Cavalcante em processo final. O pobre amigo permanecia agarrado ao corpo pela vigorosa vontade de prosseguir jungido à carne. A intervenção no apêndice inflamado, ao mesmo tempo que se buscava remediar a situação do duodeno, fizera-se tardia. Estendera-se a supuração ao peritônio e debalde se combatia a rápida e espantosa infecção. O enfermo perdia forças, e porque não conseguia alimentar-se, como devia, não encontrava recursos para compensar as perdas vultosas. O intestino inspirava repugnância e compaixão. Qual estranho vaso destinado a fermentação, continha o ceco trilhões de bacilos de variadas espécies. Profundo desequilíbrio afetava as funções dos vasos sanguíneos e linfáticos no intestino delgado. O cólon transverso e o descendente semelhavam-se a pequenos túneis, repletos das mais diversas coletividades microbianas. As vilosidades permaneciam cheias de sangue purulento, e, de quando em quando, abriam-se veias mais frágeis, provocando abundante hemorragia. Em todo o aparelho intestinal, verificava-se o gradual desaparecimento do tônus das fibras. O pâncreas não mais tolerava qualquer trabalho, na desintegração dos alimentos, e o estômago deixava perceber avançada incapacidade. As glândulas gástricas jaziam quase inertes. Distúrbios destrutivos campeavam no fígado, onde animálculos vorazes se valiam da progressiva ausência de controle psíquico, manifestando-se ao léu, como microscópicos salteadores em sanha festiva. O doente, por fim, já não suportava nenhuma alimentação. O estômago expulsava até a própria água simples, deixando-o exausto, em vista do tremendo esforço despendido nos reiterados acessos de vômito. O sistema nervoso central e o abdominal, bem como os sistemas autônomos, acusavam desarmonia crescente. Reconhecia, entretanto, ali, naquele agonizante que teimava em viver de qualquer modo no corpo físico, o gigantesco poder da mente, que, em admirável decreto da vontade, estabelecia todo o domínio possível nos órgãos e centros vitais em decadência franca. Decorridos mais de quatro dias, em que atentávamos para o moribundo, cuidadosamente, Jerônimo deliberou fossem desatados os laços que o retinham à Esfera grosseira. Bonifácio, prestimoso e gentil, coadjuvava-nos o trabalho. Informando-se de nossa resolução, de modo vago, através dos canais intuitivos, o doente, pela manhãzinha, chamou o capelão, a fim de ouvi-lo, e, após breve confissão, que o sacerdote reduziu ao mínimo de tempo, em virtude das emanações desagradáveis que se desprenderam da organização fisiológica em declínio, o pobre Cavalcante, mal suspeitando a paz que o aguardaria na morte, procurou reter o eclesiástico, em contristadora conversação: — Padre, — dizia ele, em voz súplice, — sei que morro, sei que estou no fim… — Entregue-se a Deus, meu amigo. Só Ele pode saber em definitivo o que surgirá. Quem sabe se ainda tem longos anos à sua frente? Tudo pode acontecer… O capelão falava apressado, abreviando a palestra e tentando dissimular suas penosas impressões olfativas, mas o moribundo continuou, ingênuo: — Tenho medo, muito medo de morrer… — Bem, — obtemperou o religioso, não ocultando um gesto de enfado que passou despercebido aos olhos do crente, — precisamos preparar o espírito para o que der e vier. — Ouça, padre!… Acredita que me salvarei? — Sem dúvida. Você foi sempre bom católico… — Mas… escute! — E a voz do enfermo fez-se triste, mais chorosa e sufocada, — eu desejaria morrer noutras condições. Segundo lhe confessei, fui abandonado pela mulher, há muitos anos… Sabe que ela me trocou por outro homem e fugiu para nunca mais… Sempre admiti que experimentei semelhante prova por incapacidade de compreensão da parte dela, mas, agora, padre… encarando a morte, frente a frente, reflito melhor… Quem sabe se não fui o culpado direto? Talvez tivesse levado longe demais meu propósito de viver para a religião, faltando-lhe com a assistência necessária… Lembro-me de que, às vezes, chamava-me “padre sem batina”. Possivelmente minha atitude impensada teria dado origem ao desvio da minha companheira… Após fitar o clérigo demoradamente, implorou: — Poderá sua caridade continuar indagando por mim? Necessito vê-la, a fim de apaziguar a consciência… Há onze anos, perdi-a de vista… O sacerdote, no entanto, não parecia intimamente interessado em satisfaze-lo e repetia com impaciência: — Descanse, descanse… Prosseguirei nas diligências. Tenha coragem, Cavalcante! É provável que tudo venha ao encontro de nossos desejos. O moribundo, voz entrecortada pelo cansaço, murmurou: — Obrigado, padre, obrigado!… O religioso intentou sair, mas Cavalcante, amedrontado, perguntou, ainda: — Acha que me demorarei muito tempo no purgatório? — Que ideia! — Resmungou o interlocutor, entediado, — falta-lhe suficiente confiança no poder de Deus? Enunciou as últimas palavras com tamanha irritação que o enfermo lhe percebeu o descontentamento, sorriu humilde e calou-se. O sacerdote, ao se afastar, aliviado, encontrou certo médico e indagou: — Afinal, que acontece ao Cavalcante? Morre ou não morre? Estou cansado de tantos casos compridos. — Tem sido gigante na reação, — informou o clínico, bem humorado. — Considerando-lhe, porém, os males sem cura, venho examinando a possibilidade da eutanásia. — Parece-me caridade, — redarguiu o religioso, — porque o infeliz apodrece em vida… O esculápio abafou o riso franco e despediram-se. A cena chocava-me pelo desrespeito. Ambos os profissionais, o da Religião e o da Ciência, notavam situações meramente superficiais, incapazes de penetração nos sagrados mistérios da alma. Entretanto, para compensar tão descaridosa incompreensão, Cavalcante era objeto de nosso melhor carinho. Por mim, não saberia ministrar-lhe benefícios, dada a insipiência de minha singela colaboração, mas Jerônimo e Bonifácio cercavam-no de singular cuidado, amparando-o como se fora bem-amada criança. Quando o eclesiástico pisava mais longe, o meu Assistente considerou: — O pobre sacerdote ainda não possui “olhos de ver”. Cavalcante foi, antes de tudo, perseverante trabalhador do bem. Enquanto isso, o enfermo buscava enxugar as lágrimas copiosas. A atitude do capelão advertira-o do deplorável estado de seu corpo físico. Passou a sentir o cheiro desagradável das próprias vísceras, agravando-se-lhe o mal-estar. Sob incoercível angústia, pediu o comparecimento de determinada religiosa, dentre as diversas que atendiam a casa. Experimentava funda sede de consolo, necessitava coragem que lhe viesse do exterior. Provavelmente encontraria no coração feminino o reconforto que o confessor não lhe soubera prodigalizar. Porém, a “irmã de caridade” não trazia consigo melhor humor. Fez questão de escutá-lo, alçando desinfetante enérgico ao nariz, a infundir-lhe surpresa ainda mais dolorosa. Cavalcante chorou, queixou-se. Precisava viver mais alguns dias, declarou, humilhado. Não desejava partir sem a reconciliação conjugal. Rogava providências médicas mais eficientes e prometia pagar todas as despesas, logo pudesse tornar ao serviço comum. Pretendia recorrer a parentes endinheirados que residiam a distância. Resgataria o débito até o derradeiro centavo. A “irmã de caridade”, depois de ouvi-lo, com impassível frieza, foi mais sucinta: — Meu amigo, — disse, áspera, — tenha fé. A casa está repleta de enfermos, alguns em piores condições. Como o doente insistisse nas solicitações, concluiu ríspida e secamente: — Não tenho tempo. O agonizante deu curso ao pranto silencioso. Recordou, de alma oprimida por angustiosa saudade, a infância e a juventude. Percorrera as estradas terrenas, de coração aberto à prática do bem. Não compreendia Jesus cerrado nos templos de pedra, a distância dos famintos e sofredores que choravam por fora. A doutrina que abraçara não lhe oferecia ensejo de mais vasta aplicação ao exemplo evangélico. Era compelido a satisfazer obrigações convencionais e a perder grande tempo através de manifestações do culto externo; entretanto, valera-se de toda oportunidade para testemunhar entendimento cristão. Porque amara o exercício do bem, constante e fiel, era aborrecido aos sacerdotes e familiares em geral. A parentela, inclusive a esposa, considerava-o fanático, desequilibrado, imprestável. Perseverava mesmo assim. Embora as condições elevadas em que desenvolvera a fé, ignorava as lições do Além-Túmulo e receava a morte. Estimaria obter a certeza do destino a seguir. A visão mental do inferno, segundo as concepções católicas, punha-lhe arrepios no espírito exausto. A probabilidade dos sofrimentos purgatoriais enchia-o de temor. Desejava algo de melhor, de mais belo que o velho mundo em que vivera até então… Suspirava por ingressar em coletividade diferente, em que pudesse encontrar corações a pulsarem sintonizados com o dele; sentia fome e sede de compreensão, de profunda compreensão, mas, prejudicado pelos princípios dogmáticos da escola religiosa a que se filiara, repelia-nos a ação. O Assistente, pondo em prática recursos magnéticos, tentou propiciar-lhe sono brando, de maneira a subtrair-lhe os temores em socorro direto, fora do corpo físico. Contudo, o moribundo lutou por manter-se vigilante. Temia dormir e não despertar, pensava, ansioso. Queria ver a esposa, antes do fim, dizia de si para consigo. Não era, efetivamente, provável? não seria justo morrer tranquilo? Oh! Se ela surgisse! — Acariciava a possibilidade, — penitenciar-se-ia dos erros passados, pedir-lhe-ia perdão.
TAG Valor
Nome do Capítulo Desprendimento difícil