Visitante: — Uma coisa que eu desejava saber, é o ponto de partida das idéias espíritas modernas, são elas o ato de uma revelação espontânea dos espíritos ou o resultado de uma crença prévia na existência deles? O senhor compreende a importância da minha pergunta, visto que, neste último caso, poder-se-ia acreditar que a imaginação ali se encontra presente.
A.K.: — Essa pergunta, como o senhor disse, é importante nesse ponto de vista, ainda que seja difícil admitir, supondo-se que essas idéias tenham nascido de uma crença antecipada, que a imaginação tenha produzido todos os resultados materiais observados.
Com efeito, se o Espiritismo fosse fundado sobre o pensamento preconcebido da existência dos espíritos, seria possível, com alguma aparência de razão, duvidar da sua realidade, porque, se a causa é uma quimera, as conseqüências também devem ser quiméricas, mas as coisas não se passaram assim.
Observe inicialmente que esse andamento seria totalmente ilógico; os espíritos são uma causa e não um efeito; quando se vê um efeito pode-se procurar a causa, mas não é natural imaginar uma causa antes de haver visto os efeitos. Portanto, não se poderia conceber a idéia dos espíritos se não se fizessem presentes os efeitos que achariam a sua provável explicação na existência de seres invisíveis. Muito bem, não foi mesmo dessa maneira que essa idéia surgiu, quer dizer, isso não foi uma hipótese imaginada com o fim de explicar certos fenômenos; a primeira suposição que se fez deles foi a de uma causa totalmente material.
Assim, longe de pensar que os espíritos fossem uma idéia preconcebida, partiu-se do ponto de vista materialista. Sendo, esse ponto de vista, insuficiente para tudo explicar, só a observação conduziu à causa espiritual. Eu falo das idéias espíritas modernas, pois que nós sabemos que esta crença é tão velha quanto o mundo.
Eis o andamento das coisas:
Fenômenos espontâneos se produziram, tais como ruídos estranhos, pancadas, movimentos de objetos, etc., sem causa aparente conhecida, e esses fenômenos puderam ser reproduzidos sob a influência de certas pessoas. Até aí, nada autorizava a que se lhes procurasse a causa fora da ação de um fluido magnético ou um outro cujas propriedades eram ainda desconhecidas. Porém, não se tardou a reconhecer nesses ruídos e nesses movimentos um caráter intencional e inteligente, de onde se concluiu, como eu já o disse, que “se todo efeito tem uma causa, todo efeito inteligente tem uma causa inteligente.” Essa inteligência não podia estar no próprio objeto, porque a matéria não é inteligente. Seria ela o reflexo da inteligência da pessoa ou das pessoas presentes? Assim se pensou no início, como eu também já falei; só a experiência podia se pronunciar, e a experiência demonstrou por provas irrecusáveis, em muitas circunstâncias, a completa independência dessa inteligência. Ela estava fora do objeto e fora da pessoa. Quem era ela então? Foi a própria inteligência quem respondeu; declarou pertencer à ordem dos seres incorpóreos, designados sob o nome de espíritos. Portanto, a idéia dos espíritos não preexistia, nem mesmo foi consecutiva; em uma palavra, ela não saiu do cérebro, foi dada pelos próprios espíritos, e tudo o que soubemos depois a respeito deles, nos foi ensinado por eles mesmos.
Revelada a existência dos espíritos, e estabelecidos os meios de comunicação com eles, pôde-se ter conversas seguidas e obter ensinamentos sobre a natureza desses seres, as condições de sua existência, seu papel no mundo visível. Se, da mesma forma, pudéssemos interrogar os seres do mundo dos infinitamente peque-nos, quantas coisas curiosas não aprenderíamos sobre eles!
Suponhamos que, antes da descoberta da América, existisse um fio elétrico através do Atlântico, e que na sua extremidade européia se tivesse observado sinais inteligentes, teríamos concluído desse fato que na outra extremidade havia seres inteligentes que procuravam se comunicar, então poderíamos interrogá-los e eles nos responderiam. Assim conseguiríamos a certeza da sua existência, o conhecimento dos seus costumes, de seus hábitos, de sua maneira de ser, sem jamais os termos visto. O mesmo aconteceu nas relações com o mundo invisível; as manifestações materiais foram como sinais, meios de aviso que nos levaram a comunicações mais regulares e mais seguidas. E, coisa notável, à medida que os meios mais fáceis de comunicação estão ao nosso alcance, os espíritos abandonam os meios primitivos, insuficientes e incômodos, como o mudo que recupera a palavra e renuncia à linguagem dos sinais.
Quem eram os habitantes desse mundo? Eram seres à parte, fora da humanidade? Eram bons ou maus? Foi ainda a experiência que se encarregou de resolver essas questões; mas, até que numerosas observações tivessem lançado a luz sobre esse assunto, o campo das conjeturas e dos sistemas esteve aberto, e Deus sabe quantos surgiram! Uns acreditaram que os espíritos eram superiores em tudo, outros, só demônios viam neles; era pelas suas palavras e pelos seus atos que se podia julgá-los.
Suponhamos que entre os habitantes transatlânticos desconhecidos, de que acabamos de falar, uns tinham dito coisas muito boas, enquanto que outros se fizeram notar pelo cinismo de sua linguagem, por certo teríamos concluído que havia bons e maus entre eles. Foi o que aconteceu com os espíritos; foi assim que se reconheceu entre eles todos os graus de bondade e de maldade, de ignorância e de saber.
Uma vez bem esclarecidos sobre os defeitos e as qualidades que se encontram entre eles, a nossa prudência deveria fazer a distinção entre o bom e o mau, o verdadeiro e o falso nas suas relações conosco, exatamente como fazemos em relação aos homens.
A observação não nos esclareceu somente sobre as qualidades morais dos espíritos, mas também sobre sua natureza e sobre o que nós poderíamos chamar seu estado fisiológico. Soube-se por esses próprios espíritos que uns são felizes e outros muito infelizes; que eles não são seres à parte, de uma natureza excepcional, mas sim as almas daqueles que viveram na Terra onde deixaram o seu invólucro corporal; que povoam os espaços, nos cercam e nos acotovelam incessantemente, e, entre eles, cada um pôde reconhecer, por sinais incontestáveis, seus parentes, seus amigos e aqueles que conheceu aqui na Terra. Pôde-se segui-los em todas as fases da sua existência no além-túmulo, desde o instante em que deixaram seu corpo, e observar sua situação segundo seu gênero de morte e a forma pela qual viveram na Terra.
Soube-se, enfim, que não são seres abstratos, imateriais no sentido absoluto do termo; eles têm um invólucro a que damos o nome de perispírito, espécie de corpo fluídico, vaporoso, diáfano, invisível no estado normal, mas que, em certos casos, e por uma espécie de condensação ou de disposição molecular, pode tornar-se momentaneamente visível e mesmo tangível, ficando explicado, em conseqüência, o fenômeno das aparições e o fato de poderem ser tocadas. Esse invólucro existe durante a vida do corpo: é o vínculo entre o espírito e a matéria; na morte do corpo, a alma ou o espírito, o que é ames ma coisa, só se despe do envoltório grosseiro, o corpo, e conserva o segundo, o perispírito, como quando tiramos uma vestimenta exterior e conservamos as interiores, como o germe(29) de um fruto se despoja do invólucro cortical(30) e conserva apenas o pe risperma.(31) É esse invólucro semimaterial do espírito que é o agente dos diferentes fenômenos por meio dos quais ele manifesta a sua presença.
Esta é, em poucas palavras, a história do Espiritismo; o senhor pode ver, e reconhecerá ainda melhor quando o estudar minuciosamente, que nele tudo é o resultado da observação e não de um sistema preconcebido.