O Espiritismo do Ponto de Vista Católico – Extraído do Voyageur du Commerce
A mediunidade, ou faculdade de comunicar-se com os Espíritos, não constitui o fundo do Espiritismo, sem o que, para ser espírita, fora preciso ser médium; não passa de um acessório, um meio de observação, e não a ciência, que está toda inteira na doutrina filosófica. O Espiritismo não está mais subordinado aos médiuns do que a Astronomia a uma luneta; e a prova disto é que se pode fazer Espiritismo sem médiuns, como se fez Astronomia muito tempo antes de haver telescópios. A diferença consiste em que, no primeiro caso, se faz ciência teórica, ao passo que a mediunidade é o instrumento que permite assentar a teoria sobre a experiência. Se o Espiritismo se circunscrevesse à faculdade mediúnica, sua importância seria singularmente diminuída e, para muita gente, se reduziria a fatos mais ou menos curiosos. Lendo esse artigo, pergunta-se se o autor crê ou não no Espiritismo, porque não o expõe, de certo modo, senão como hipótese, mas uma hipótese digna da mais séria atenção. Se for uma verdade, diz ele, é uma coisa sagrada por excelência, que só deve ser tratada com respeito, e cuja exploração não poderia ser perseguida com muita severidade. Não é a primeira vez que esta idéia é expressa, mesmo pelos adversários do Espiritismo, e é de notar que é sempre o lado pelo qual a crítica julgou pegar a Doutrina em falta, atacando o abuso do tráfico quando encontrou ocasião; é que ela sente que este seria o seu lado vulnerável, e pelo qual poderia acusá-lo de charlatanismo. Eis por que a malevolência se obstina em associá-la aos charlatães, ledores da sorte e outros exploradores da mesma laia, esperando por esse meio enganar e lhe tirar o caráter de dignidade e gravidade, que constitui a sua força. A rebelião contra os Davenport, que tinham julgado poder expor impunemente os Espíritos nos palcos, prestou imenso serviço; em sua ignorância quanto ao verdadeiro caráter do Espiritismo, a crítica da época julgou feri-lo de morte, quando não desacreditou senão os abusos, contra os quais todos os espíritas sinceros sempre protestaram. Seja qual for a crença do autor, e a despeito dos erros contidos em seu artigo, devemos felicitar-nos por nele ver a questão tratada com a gravidade que o assunto comporta. A imprensa raramente tem ouvido falar dele num sentido tão sério; mas há começo para tudo.
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Mês Janeiro
Ano 1869