A mediunidade no copo d’água em 1706
Outro assinante nosso de Palermo, na Sicília, esteve ultimamente em Paris; em sua ausência, a filha, que jamais veio a Paris, recebeu o número da Revista, onde se trata do copo d'água; quis experimentar, e seu desejo era ver o pai. Não o viu, mas viu várias ruas que, pela descrição que fez ao lhe escrever, ele reconheceu facilmente como sendo as ruas da Paz, Castiglione e Rivoli. Ora, essas ruas eram precisamente aquelas por onde ele havia passado no mesmo dia em que a experiência foi feita. Assim, aquela jovem senhora não vê o pai, que conhece, que deseja ver, sobre o qual concentra o pensamento, ao passo que vê o caminho que ele percorreu, e que ela não conhecia. Que razão dar a essa bizarrice? Os Espíritos nos disseram que as coisas se haviam passado dessa maneira para dar uma prova irrecusável de que a imaginação nada tinha a ver com o caso. Pelas reflexões que seguem, completaremos o que temos dito sobre o mesmo assunto no número de junho. O copo, com ou sem água, assim como a garrafa, evidentemente representam, neste fenômeno, o papel de agentes hipnóticos; a concentração da vista e do pensamento em um ponto provoca um maior ou menor desprendimento da alma e, em conseqüência, o desenvolvimento da visão psíquica. (Vide a Revista de janeiro de 1860: Detalhes sobre o hipnotismo.) Esse gênero de mediunidade pode levar a modos especiais de manifestações, a percepções novas; é um meio a mais de constatar a existência e a independência da alma e, por isto mesmo, um assunto de estudo muito interessante; mas, como dissemos, seria erro pensar que aí esteja um meio melhor que outro de saber tudo quanto se deseja, porque há coisas que nos devem ficar ocultas, ou que não podem ser reveladas senão na ocasião certa. Quando é chegado o momento de as conhecer, fica-se sabendo por uma das mil maneiras de que dispõem os Espíritos, quer se seja ou não espírita; mas o copo d’água não é mais eficaz que um outro. Pelo fato de os Espíritos se haverem dele servido para dar conselhos salutares para a saúde, não se segue que seja um processo infalível para triunfar de todos os males, mesmo dos que não devem ser curados. Se uma cura for possível pelos Espíritos, estes últimos darão seus conselhos por um meio mediúnico qualquer e por qualquer médium apto para esse gênero de comunicação. A eficácia está na prescrição, e não na maneira por que é dada. O copo d’água também não é uma garantia contra a intromissão dos Espíritos maus; a experiência já provou que os Espíritos mal-intencionados se servem desse meio como de outros para induzir em erro e abusar da credulidade. Em que seria possível opor-lhes um obstáculo mais poderoso? Temo-lo dito muitas vezes, e nunca o repetiremos em demasia: Não há mediunidade ao abrigo dos Espíritos maus, e não existe nenhum processo material para os afastar. O melhor, o único preservativo está em si próprio; é por sua própria depuração que se os afasta, como pela limpeza do corpo se preserva contra os insetos nocivos.
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Mês Agosto
Ano 1868