Senti-me ditoso e emocionado quando Alexandre me convidou a visitar, em companhia dele, o ambiente doméstico de Adelino e Raquel, onde se verificaria a reencarnação de Segismundo. Profundo contentamento extravasava de meu espírito, porquanto era a primeira vez que iria tomar conhecimento direto com o fenômeno reencarnacionista. Desde os primeiros tempos de estudo no campo da Medicina, fascinavam-me as leis biogenéticas. Entretanto, nunca me fora dado intensificar observações e especializar experiências. Na colônia espiritual a que me conduziram a Providência de Deus e a generosa intercessão dos amigos, muita vez recebera lições referentemente ao assunto; todavia, até então, nunca vira, de mais perto, o processo de imersão da entidade desencarnada no campo da matéria densa. Em razão disso, acompanhei o prestimoso orientador com agradável e ansiosa expectativa. Alexandre explicou-me, por excesso de gentileza, que, noutro tempo, recebera muitos favores das personagens envolvidas naquele caso de reencarnação e que se sentia feliz pela oportunidade de lhes ser útil. Comentou as dificuldades do serviço de libertação espiritual e exaltou a lei do bem, que chama todos os filhos da Criação ao concurso fraterno e aos serviços “intercessórios”. Depois de confortadora e instrutiva conversação, alcançamos o lar de Adelino, deliciosamente colocado em pitoresco canto suburbano, qual ninho gracioso, rodeado de tufos de vegetação. Eram dezoito horas, aproximadamente. Com surpresa, verifiquei que Herculano nos esperava no limiar. O instrutor, porém, informou-me que havia notificado o amigo sobre a nossa visita, recomendando-lhe trouxesse Segismundo para o trabalho de aproximação. Cumprimentou-nos o companheiro, afetuosamente, e dirigiu-se ao meu orientador, esclarecendo:
— Segismundo veio em minha companhia e espera-nos, lá dentro.
— Foi excelente medida, — falou Alexandre, bem-humorado, — consagrarei aos nossos amigos a minha noite próxima. Veremos o que é possível fazer. Entramos. O casal Adelino-Raquel tomava a refeição da tarde, junto de um pequenino, no qual adivinhei o primogênito da casa. Não longe, acomodado numa cadeira de descanso, repousava uma entidade que se levantou imediatamente, quando percebeu nossa presença, dirigindo-se particularmente ao encontro do meu orientador, que lhe abriu os braços carinhosos. Herculano, perto de mim, explicou, em tom discreto:
— É Segismundo. Notei que o desencarnado abraçara-se com Alexandre, chorando convulsivamente. O instrutor acolhia-o como pai, e, após ouvi-lo durante alguns minutos, falou-lhe compassivamente:
— Acalme-se, meu amigo! Quem não terá suas lutas, seus problemas, suas dores? E se todos somos devedores uns dos outros não será motivo de júbilo e glorificação receber as sublimes possibilidades de resgate e pagamento? Não chore! Nossos irmãos permanecem ao jantar. Não devemos perturbá-los, emitindo forças magnéticas do desalento. E repondo-o na vasta cadeira de braços, como se Segismundo estivesse enfraquecido e enfermiço, continuou:
— Tenha coragem. O ensejo próximo é divino para o seu futuro espiritual. Organizaremos as coisas, não tenha receio.
— Entretanto, meu amigo, — falou o interlocutor, em lágrimas, — experimento grandes obstáculos. E acentuava em tom humilde:
— Reconheço que fui um grande criminoso, mas pretendo redimir as velhas culpas. Adelino, porém, apesar das promessas da Esfera espiritual, esqueceu, na recapitulação presente, o perdão aos meus antigos erros… Alexandre que ouvia, enternecido, sorriu paternalmente e redarguiu:
— Ora, Segismundo, porque envenenar o coração? Por que não desculpa você, por sua vez?! Não complique a própria situação, abrigando injustificável desânimo. Levante as energias, meu amigo! Coloque-se na situação do ex-adversário, vítima noutro tempo de seu ato impensado! Não encontraria, talvez, as mesmas dificuldades? Tenha calma e prudência, não perca a bendita ocasião de tolerar alguma coisa desagradável ao seu sentimento, a fim de reparar o passado e atender às necessidades do presente. Vamos, equilibre-se! O momento é de gratidão a Deus e de harmonia com os semelhantes!… Segismundo enxugou os olhos, sorriu com esforço e murmurou:
— Tem razão. Herculano, que o contemplava, compadecido, entrou na palestra, acrescentando:
— Ele tem estado muito abatido, desanimado… — É natural, — tornou Alexandre, decidido, porque, em tais circunstâncias, sofre a criatura certos desequilíbrios, em face das necessidades do regresso à carne, mas Segismundo tem levado muito longe o fenômeno, acentuando os próprios sofrimentos, com expectativas e inquietações injustificáveis. Fixando, mais detidamente, a atenção no casal que se mantinha à mesa, falou, afetuoso:
— Observemos Adelino e Raquel. Vejamos a cooperação que podem receber. Acompanhamo-lo, em silêncio. O chefe da casa permanecia taciturno, conversando com a esposa tão somente por monossílabos. Via-se que a companheira se esforçava; no entanto, ele continuava quase sombrio.
— Não se efetuou o negócio que você esperava?
— Interrogou a senhora, tentando a palestra afetiva.
— Não, — respondeu ele secamente.
— Mas você continua interessado?
— Sim.
— E viajará na semana próxima, caso não se realize o empreendimento até domingo?
— Talvez. A esposa fez longa pausa, algo desapontada, arguindo em seguida:
— Que desculpa apresenta a Companhia, em vista de semelhante demora? O marido fitou-a com frieza e respondeu, lacônico:
— Nenhuma. A essa altura, Alexandre fez significativo gesto com a cabeça e falou-nos, preocupado:
— Em verdade, a condição espiritual de Adelino é das piores, porque o sublime amor do altar doméstico anda muito longe, quando os cônjuges perdem o gosto de conversar entre si. Em semelhante estado psíquico, não poderá ser útil, de modo algum, aos nossos propósitos. Alexandre levantou-se, deu alguns passos em torno da reduzida família e dirigiu-se a nós outros, exclamando:
— Procurarei despertar-lhe as fibras sensíveis do coração, de modo a prepará-lo, convenientemente, a fim de ouvir-nos nesta noite. Assim dizendo, o devotado orientador aproximou-se da criança, belo menino de três anos aproximadamente, e colocou-lhe a destra sobre o coração. Vi que o pequeno sorriu, mostrando novo brilho nos olhos azuis e falou, com inflexão de infinito carinho:
— Mamãe, porque papai está triste? O dono da casa ergueu o rosto, com admiração, ao passo que a senhora respondia, comovida:
— Não sei, Joãozinho. Ele deve estar preocupado com os negócios, meu filho.
— E que são “negócios”, mamãe? — Tornou a criança ingênua.
— São as lutas da vida. O menino fitou a mãezinha, com atenção, e perguntou:
— Papai fica alegre nos negócios?
— Fica, sim, — respondeu a senhora, sorrindo.
— E porque fica triste em casa? Enquanto o pai seguia o diálogo, sob forte impressão, a genitora carinhosa esclareceu a criança, com paciência:
— Nas lutas de cada dia, Joãozinho, teu pai deve estar contente com todos e não deve ofender a ninguém. Entretanto, o que te parece tristeza é o cansaço do trabalho. Quando ele volta ao lar traz consigo muitas preocupações. Se na rua deve teu pai mostrar cordialidade e alegria a todos, de modo a não ferir os demais, não acontece o mesmo aqui, onde se encontra à vontade para refletir nos problemas que o interessam de perto. Aqui, é o lar, meu filho, onde está com o direito de não esconder as preocupações mais íntimas… A criança escutou, atenta, dividindo os olhares afetuosos entre pai e mãe, e obtemperou:
— Que pena, hein, mamãe? O chefe da pequena família, tocado nas fibras recônditas da alma pela ternura do filhinho e pela humildade sincera da companheira, sentiu que a nuvem de sombra dos seus próprios pensamentos dava lugar a repousantes sensações de alívio confortador. Sorriu, repentinamente transformado, e dirigiu-se ao pequeno, com nova inflexão de voz:
— Que ideia é essa, Joãozinho? Não me sinto entristecido. Estou, aliás, satisfeitíssimo, como no último dia de nosso passeio à serra! Tua mãe explicou muito bem o que se passa. Quando teu pai estiver silencioso não quer dizer que se encontra desalentado. Por vezes, é preciso calar para pensar melhor. A dona da casa mostrou largo sorriso de satisfação, observando a mudança brusca do companheiro. O menino, por sua vez, não disfarçava o júbilo no semblante infantil, e assim que o pai terminou as explicações afetuosas, sempre envolvido nas irradiações magnéticas do bondoso instrutor, dirigiu-se novamente ao chefe da casa, perguntando:
— Papai, porque você não vem rezar, de noite, comigo? O genitor trocou expressivo olhar com a esposa e falou ao pequenino:
— Tenho tido sempre muito serviço à noite, mas voltarei hoje mais cedo para acompanhar tuas preces. E sorrindo, com paternal alegria, acrescentou:
— Já sabes orar sozinho? O pequeno redarguiu, satisfeito:
— Mamãe ensina-me todas as noites a rezar por você. Quer ver? E, abandonando o talher, instintivamente olhou para o alto, de mãos postas, e recitou:
— “Meu Deus, guarda o papai nos caminhos da vida, dá-lhe saúde, tranquilidade e coragem nas lutas de cada dia! Assim seja!” O genitor, que se apresentara tão impenetrável e rude a princípio, mostrou os olhos rasos d’água, sensibilizado nas fibras mais íntimas, e, fixando ternamente o filho, murmurou:
— Estás muito adiantado. Hoje, Joãozinho, rezarei também. De alma desanuviada agora, Adelino contemplou a companheira, orgulhoso de possuir-lhe o devotamento, e acentuou:
— A palestra do João fez-me enorme bem. Trazia o coração desalentado, opresso.