Insensatos! há muito diziam: “Méry está doente; enfraquece, fica velho.” Como se enganavam!... eu ia para a juventude; crede; a criança que chora ao entrar na vida é que avança para a velhice; o homem maduro que morre reencontra a juventude eterna além da sepultura!
A morte foi para mim uma doçura inefável. Meu pobre corpo, castigado pela doença, sofreu as derradeiras convulsões e tudo foi dito; mas meu Espírito saía pouco a pouco de suas fraldas e planava, ainda prisioneiro e já aspirando ao infinito!... Fui libertado sem perturbação, sem abalo; não tive surpresa, porque o túmulo não mais tinha véu para mim. Abeirei-me de uma margem conhecida; sabia que amigos devotados me esperavam na praia, pois não era a primeira vez que eu fazia essa viagem.
Como eu dizia aos meus ouvintes admirados, conheci a Roma dos Césares; comandei como conquistador subalterno nessa Gália que habitava recentemente como cidadão; ajudei a conquistar a vossa pátria, a subjugar os vossos bravos antepassados, depois parti para retemperar minhas forças na fonte da vida intelectual, para escolher novas provas e novos meios de progresso. Vi as bordas do Ganges e as dos rios da China; assimilei civilizações tão diferentes da vossa e, contudo, tão grandes, tão avançadas em seu gênero. Vivi na zona tórrida e nos climas temperados; estudei os costumes daqui e de lá; sucessivamente guerreio, poeta, escritor, filósofo e sempre sonhador...
Esta última existência foi para mim uma espécie de resumo de todas as que a precederam. Adquiri há pouco; ainda ontem gastava os tesouros acumulados numa série de existências, de observações e de estudos.
Sim, eu era espírita de coração e de espírito, se não de raciocínio. A preexistência para mim era um fato, a reencarnação uma lei, o Espiritismo uma verdade. Quanto às questões de detalhe, confesso de boa-fé não ter ligado a elas grande importância.
Acreditava na sobrevivência da alma, na pluralidade de suas existências, mas jamais tentei aprofundar se ela podia, depois de haver deixado seu corpo mortal, manter, livre, relações com os que ainda estão ligados à cadeia. Ah! Victor Hugo disse com acerto: “A Terra não é senão a penitenciária do céu!...” Por vezes quebra-se a sua corrente, mas para a retomar. Seguramente não se sai daqui senão deixando aos guardas o cuidado de, chegado o momento, desatar os laços que nos prendem à provação.
Estou feliz, muito feliz, porque tenho a consciência de ter bem vivido!
Perdoai-me, senhores, é ainda Méry, o sonhador, que vos fala; e permiti que volte a uma reunião onde me sinto à vontade. Deve haver o que aprender convosco e, se me quiserdes receber no número de vossos ouvintes invisíveis, é com felicidade que ficarei entre vós, escutando, instruindo-me e falando, se se me apresentar ocasião.
J. Méry Questões e Problemas