Vede a marcha que seguiu o Espiritismo. Veio surpreender os homens de improviso? Não, certamente. Sem falar nos fatos que se produziram em todas as épocas, ele está na Natureza, como a eletricidade e, do ponto de vista do princípio, vinha preparando sua chegada há um século. Swedenborg, Saint- Martin, os teósofos, Charles Fourier, Jean Reynaud e tantos outros, sem esquecer Mesmer, que deu a conhecer a força fluídica de Puységur, o primeiro a observar o sonambulismo, todos levantaram uma ponta do véu da vida espiritual; todos giraram em torno da verdadeira luz e dela mais ou menos se aproximaram; todos prepararam os caminhos e predispuseram os Espíritos, de sorte que o Espiritismo não teve, por assim dizer, senão que completar o que havia sido esboçado. Eis por que conquistou, quase instantaneamente, tão numerosas simpatias. Não falamos das outras causas múltiplas que lhe vieram em auxílio, provando que certas idéias já não eram compatíveis com o nível do progresso humano, e fizeram pressentir o advento de uma nova ordem de coisas, porque a Humanidade não pode ficar estacionária. Dá-se o mesmo com todas as grandes idéias que mudaram a face do mundo; nenhuma veio deslumbrar como um relâmpago. Cinco séculos antes do Cristo, Sócrates e Platão já não haviam lançado a semente das idéias cristãs?
Um outro motivo tinha feito adiar a solução relativa aos animais. Essa questão toca em preconceitos há muito enraizados, e que teria sido imprudente chocar de frente, razão por que os Espíritos não o fizeram. A questão é apresentada hoje; agita-se em diversos pontos, mesmo fora do Espiritismo; os desencarnados nela tomam parte, conforme suas idéias pessoais; essas várias teorias são discutidas, examinadas; uma imensidão de fatos, como o que trata este artigo, e que outrora teriam passado despercebidos, hoje chamam a atenção, em razão dos próprios estudos preliminares que têm sido feitos. Sem adotar esta ou aquela opinião, a gente se familiariza com a idéia de um ponto de contato entre a animalidade e a Humanidade; e, quando vier a solução definitiva, seja qual for o sentido em que ocorra, deverá apoiar-se sobre argumentos peremptórios, que não darão margem a qualquer dúvida. Se a idéia for verdadeira, terá sido pressentida; se for falsa, é que se terá encontrado algo mais lógico para pôr em seu lugar.
Tudo se liga, tudo se encadeia, tudo se harmoniza na Natureza. O Espiritismo veio dar uma idéia-mãe e pode ver-se quão fecunda é esta idéia. Antes da luz que ele lança sobre a psicologia, ter-se-ia dificuldade em crer que pudessem surgir tantas considerações a propósito de um cão raivoso.
Depois que o relatório do Sr. Bouley foi lido na Sociedade de Paris, um Espírito deu a respeito a seguinte comunicação.
(Sociedade Espírita de Paris, 30 de junho de 1865 – Médium: Sr. Desliens) Existe a visão no cão e em alguns outros animais, nos quais fenômenos semelhantes aos descritos pelo Sr. Bouley possam produzir-se? Para mim a questão não padece dúvida. Sim; o cão e o cavalo vêem ou sentem os Espíritos. Nunca testemunhastes a repugnância que, por vezes, manifestam esses animais, ao passarem num local onde ignoravam tivesse sido enterrado um corpo humano? Certamente direis que seus sentidos podem ser despertados pelo odor particular dos corpos em putrefação; então, por que passam indiferentes ao lado do cadáver enterrado de um outro animal? Por que se diz que o cão pressente a morte? Nunca vistes cães uivando sob as janelas de uma pessoa agonizante, quando esta lhe era desconhecida? Não vedes, também, fora da excitação da raiva, diversos animais se recusarem a obedecer à voz do dono, recuarem amedrontados ante um obstáculo que lhes parece barrar a passagem, e se enfurecerem? e depois passarem tranqüilamente pelo mesmo sítio que lhes inspirava terror, como se o obstáculo tivesse desaparecido? Tem-se visto animais salvarem seus donos de um perigo iminente, recusando-se a percorrer o caminho onde estes teriam podido sucumbir. Os fatos de visões nos animais se encontram na Antiguidade e na Idade Média, bem como em nossos dias.
Assim, não há dúvida de que os animais vêem os Espíritos. Aliás, dizer que eles têm imaginação não é lhes conceder um ponto de semelhança com o Espírito humano? e o instinto não é neles a inteligência rudimentar, apropriada às suas necessidades, antes que tenha passado pelos cadinhos modificadores, que a devem transformar e dar-lhe novas faculdades? O homem também tem instintos, que o fazem agir de maneira inconsciente, no interesse de sua conservação; porém, à medida que nele se desenvolvem a inteligência e o livre-arbítrio, o instinto se enfraquece, para dar lugar à razão, porque esse guia cego lhe é menos necessário.
O instinto, que está em todo o seu vigor no animal, perpetuando-se no homem, onde se perde pouco a pouco, certamente é um traço de união entre as duas espécies. A sutileza dos sentidos no animal, como no selvagem e no homem primitivo, suprindo nuns e noutros a ausência ou a insuficiência do senso moral, é outro ponto de contato. Enfim, a visão espiritual que, com toda evidência, lhes é comum, embora em graus muito diversos, também vem diminuir a distância que parece erguer entre eles uma barreira intransponível. Contudo, nada concluais de maneira absoluta, mas observai atentamente os fatos, porque somente dessa observação a verdade brotará um dia para vós.
Moki Observação – Este conselho é muito sábio, pois, evidentemente apenas nos fatos é que se pode assentar uma teoria sólida; fora disso só haverá opiniões e sistemas. Quando constatados, os fatos são argumentos sem réplica, cujas conseqüências, mais cedo ou mais tarde, terão de ser aceitas. Foi o princípio que serviu de base à Doutrina Espírita, e é o que nos leva a dizer que o Espiritismo é uma ciência de observação.