Considerações sobre o Espiritismo
Mau grado meu, o positivismo de meus estudos tinha arrefecido as minhas crenças filosóficas; mas eu era céptico e não obstinado; duvidava, para grande pesar meu, e fazia vãos esforços para expulsar o materialismo que, de surpresa, havia invadido minha alma e meu coração. Como são impenetráveis os decretos de Deus! Essa disposição moral serviu precisamente para a minha transformação. Eu tinha sob os olhos a imortalidade da alma, revestindo o aspecto de uma realidade material e, para assentar esta fé tão nova, o que me importava, afinal de contas, se as manifestações viessem de um Espírito superior ou inferior, desde que fosse um Espírito! Eu já não sabia perfeitamente que um corpo inerte, tal qual uma mesa, pode ser instrumento, mas não a causa de uma manifestação inteligente, manifestação que não entrava absolutamente na esfera de minhas idéias, e que todas as teorias fluídicas são impotentes para as explicar? Assim, eu tinha sacudido essas tendências materialistas, contra as quais lutava sem sucesso, com uma energia desesperada, e teria explorado francamente essas regiões intelectuais, que apenas entrevia, não fosse a demoniofobia do Sr. de Mirville e a profunda impressão que ela havia lançado em minha alma. Como contrapartida de seu livro, surgiu esse tratado tão luminoso, tão substancial, tão cheio de verdades consoladoras, ditado por inteligências celestes a um Espírito de escol – posto que encarnado – ao qual, desde aquele dia, foi revelada sua missão na Terra. Hoje, o reconhecimento me obriga a inscrever nesta página o nome de um de meus bons amigos, que me abriu os olhos à luz, o do Sr. Roustaing, advogado distinto e, sobretudo, consciencioso, destinado a representar um papel marcante nos fastos do Espiritismo. Devo esta homenagem passageira ao reconhecimento e à amizade. Se nesta solenidade eu não temesse abusar do tempo, por certo teria citado numerosas comunicações de incontestável interesse; contudo, em meio a esta atividade puramente intelectual, acima de nossas incessantes relações com o mundo dos Espíritos, sobrelevam dois fatos que me parecem, por exceção, protestar contra o mutismo absoluto. O primeiro é caracterizado pelos detalhes íntimos e tocantes que nos comoveram até as lágrimas; o segundo, pela estranheza do fenômeno, diz respeito à mediunidade de vidência e constitui uma prova tão palpável que não nos restaria senão negar a boa-fé dos médiuns, caso quiséssemos negar a realidade do fato. Alguns espíritas fervorosos reúnem-se comigo semanalmente para estudarmos em comum, e com mais proveito, a Doutrina dos Espíritos. Uma fé plena e total, a analogia para a maior parte dos estudos e da educação, fizeram brotar uma recíproca simpatia e uma comunhão de idéias e de pensamentos; disposição intelectual e moral, sem sombra de dúvida a mais favorável às comunicações sérias. Nessa modesta reunião, um de nós, dotado de elevado grau de mediunidade, quis evocar o Espírito de uma garota que havia conhecido, vitimada pelo crupe, ao que suponho, aos seis anos de idade. Ele fazia o papel de médium e eu o de evocador. Mal terminara a evocação, uma percussão muito sensível num dos móveis da sala de espera excitou a nossa atenção e nos levou a averiguar se esse ruído insólito provinha de uma causa natural ou resultava de um fato espírita. São – responderam os guias – as companheiras de Estelle (era o nome da criança durante a sua vida terrena), que vêm à frente de sua amiguinha. E, pelo pensamento, seguimos esse gracioso cortejo a planar no espaço! Entre elas designaram-nos Antônia, jovem que mal passara pela Terra e apenas completara sua quarta primavera quando tombou sob os golpes de uma foice assassina. Prevendo que elas iam concluir suas provas em uma nova existência, roguei ao meu anjo-da-guarda, essa boa mãe, cuja ternura jamais me faltou, que as tomasse sob os seus cuidados e lhes mostrasse claramente a sua celeste protetora. A adesão não se fez esperar; mas Deus só lhe permitiu aparecer a uma delas, e ela escolheu Antônia: “Que vês, minha amiguinha?”, exclamei evocando esta última. – “Oh, a bela senhora! Está resplandecente de luzes! – “E que te diz essa bela senhora?” – Ela me diz: “Vem a mim, minha filha, eu te amo!” Por isso retratei aquela terna mãe com a cabeça coroada de estrelas. Se esta comovente historieta, pertencente ao mundo espírita, só se vos assemelha a um capítulo de novela, então há que renunciar a toda comunicação. O outro fato pode resumir-se em duas palavras: Eu estava com um dos meus colegas espíritas; a noite nos surpreendera em meio a preces a Deus pelos Espíritos sofredores, quando vislumbrei, vagamente, uma sombra saindo de um canto do meu consultório e descrevendo uma linha diagonal, que se prolongou até a minha cama, situada na peça vizinha. Ao terminar seu percurso, ouvimos um estalido muito distinto e a sombra se dirigiu para a biblioteca, formando um ângulo agudo com a primeira direção. Fui tomado pela emoção; mas, numa hora daquelas – onze e meia da noite – bastante propícia às emoções e ao mistério, julguei a princípio que se tratasse de alucinação, de ilusão de óptica, e tomei a íntima resolução de guardar silêncio quanto a essa fantástica aparição; foi quando o meu companheiro de constantes estudos voltou-se para mim e perguntou-me se nada vira. Eu estava perturbado; esperei um pouco para me refazer e limitei-me a indagar os motivos da pergunta. Então ele me descreveu o estranho fenômeno, que igualmente testemunhara, com tamanha exatidão que me foi impossível duvidar ou deixar de confirmar a realidade da aparição. Dois dias depois, nosso médium por excelência estava presente. Consultados, os guias confirmaram a verdade, acrescentando que aquela aparição espontânea era a de um Espírito, conhecido na vida terrena sob o nome de Maria de los Ângeles. Foi-nos permitido evocá-la e o resultado de nossas perguntas foi que havia nascido na Espanha; tinha tomado o hábito; por muito tempo sua vida estivera isenta de censuras, mas uma falta grave, à qual a morte não deixou tempo para a expiação, era a causa de seus sofrimentos no mundo dos Espíritos. Alguns dias depois o acaso, ou antes, a vontade de Deus, nos permitiu um segundo controle desse estranho fenômeno. Um espírita, jovem mecânico, de inteligência extraordinária, tinha passado comigo a última parte da noite. Enquanto me entretinha com ele, notei que seu olhar tomava singular imobilidade. Ele não esperou a pergunta para explicar a circunstância: “No mesmo instante em que me olháveis, vi distintamente a silhueta de uma mulher que, da janela, avançou até a poltrona vizinha, diante da qual ajoelhou-se. Tinha o aspecto de uma pessoa de vinte e cinco anos; estava vestida de negro; uma espécie de xale recobria a parte superior do busto; tinha à cabeça algo parecido com um lenço ou uma touca.” A descrição concordava perfeitamente com a idéia que eu fizera da religiosa espanhola, e o lugar em que ela se prosternou é mais ou menos aquele onde, ajoelhado como ela, faço habitualmente as minhas orações pelos mortos. Para mim era Maria dos Anjos. Certamente, os incrédulos e os falsos espíritas sorrirão de minha certeza, e no fato narrado verão três visionários, em vez de um. Quanto aos espíritas sinceros, estes acreditarão em mim, principalmente quando o afirmo sob palavra de honra. A ninguém reconheço o direito de pôr em dúvida semelhante testemunho. Os trabalhos do Espiritismo em Bordeaux, por maiores sejam a modéstia e a reserva, nem por isso deixam de ser objeto da curiosidade pública, não se passando um dia em que eu não seja interrogado a respeito. Todo profano, toda criatura maravilhada com os fenômenos espíritas reclama com insistência o favor de uma experiência; sua alma flutua entre a própria dúvida e a convicção dos adeptos.
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Mês Novembro
Ano 1861