“Vosso bem dedicado, Roustaing, advogado Como nós, todos apreciarão a exatidão dos pensamentos expressos nesta carta. Vê-se que, embora iniciado recentemente, o Sr. Roustaing passou a mestre em assunto de apreciação. É que estudou séria e profundamente, o que lhe permitiu apanhar, com rapidez, todas as conseqüências dessa grave questão do Espiritismo, não se detendo, em sentido oposto a muita gente, na superfície. Dissera ainda nada ter visto, mas estava convencido, porque havia lido e compreendido. Tem ele isto de comum com muitas criaturas e sempre observamos que estas, longe de serem superficiais, são, ao contrário, as que mais refletem.
Ligando-se mais ao fundo do que à forma, para elas a parte filosófica é a principal, sendo acessórios os fenômenos propriamente ditos; dizem que mesmo que tais fenômenos não existissem, nem por isso deixaria de haver uma filosofia, a única que resolve problemas até hoje insolúveis; a única a dar, do passado e do futuro do homem, a teoria mais racional. Ora, eles preferem uma doutrina que explica a uma que nada explica, ou explica mal.
Quem quer que reflita, compreende perfeitamente que se pode fazer abstração das manifestações sem que, por isso, deixe a doutrina de subsistir. As manifestações vêm corroborá-la, confirmá-la, mas não são a sua base essencial. O discurso de Channing, que acabamos de citar, é prova disso, porque, cerca de vinte anos antes dessa grande exibição de manifestações na América, somente o raciocínio o havia conduzido às mesmas conseqüências.
Há um outro ponto, pelo qual também se reconhece o espírita sério; pelas citações que o autor desta carta faz, dos pensamentos contidos nas comunicações que ele recebeu, prova que não se limitou a admirá-las como belos trechos literários, bons para conservar num álbum, mas que as estuda, medita e tira proveito.
Infelizmente há muitos para quem esse importante ensinamento permanece letra morta; que colecionam essas belas comunicações como certa gente coleciona belos livros, mas sem os ler.
Devemos, além disso, felicitar o Sr. Roustaing pela declaração com que termina sua carta. Infelizmente nem todos têm, como ele, a coragem da própria opinião, o que estimula os adversários. Entretanto, forçoso é reconhecer que as coisas têm mudado muito neste particular, de algum tempo a esta parte. Há dois anos apenas, muitas pessoas só falavam do Espiritismo entre quatro paredes; só compravam livros às escondidas e tinham grande cuidado em não os deixar em evidência. Hoje é bem diferente; já se familiarizaram com os epítetos grosseiros dos gracejadores e deles se riem, em vez de se ofenderem. Não mais têm receio em confessar-se espíritas abertamente, como não temem dizer-se partidários de tal ou qual filosofia, do magnetismo, do sonambulismo, etc.; discutem livremente o assunto com o primeiro que chegar, como discutiriam sobre os clássicos e os românticos, sem se sentirem humilhados por serem a favor destes ou daqueles. É um progresso imenso, que prova duas coisas: o progresso das idéias espíritas em geral, e a pouca consistência dos argumentos dos adversários. Terá como conseqüência impor silêncio a estes últimos, que se julgavam fortes por se crerem mais numerosos; mas quando, de todos os lados, encontram com quem falar, não diremos que serão convertidos, mas guardarão reserva.
Conhecemos uma pequena cidade da província, onde, há um ano, o Espiritismo não contava senão com um adepto, que era apontado a dedo como um bicho estranho e assim considerado; e, quem sabe? talvez até deserdado por sua família ou destituído de seu cargo. Hoje os adeptos ali são numerosos; reúnem-se abertamente, sem se inquietarem com o que dirão; e quando se viram entre eles autoridades municipais, funcionários, oficiais, engenheiros, advogados, tabeliães e outros, que não ocultavam suas simpatias pelo Espiritismo, os trocistas cessaram de zombar e o jornal da localidade, redigido por um espírito muito forte, que já havia lançado alguns dardos e se aprestava para pulverizar a nova doutrina, temendo encontrar pelas costas partido mais forte que o dele, guardou prudente silêncio. É a história de muitas outras localidades, história que se generalizará à medida que os partidários do Espiritismo, cujo número aumenta diariamente, levantam a cabeça e a voz. Bem podem querer abater uma cabeça que se mostre, mas quando há vinte, quarenta, cem pessoas que não receiam falar alto e firme, pensam duas vezes, e isso dá coragem a quem não a possui.