Deixaremos para debater esse aspecto mais adiante, quando cuidarmos das técnicas e recursos sugeridos para o trabalho. Convém, no entanto, insistir e repetir: os Espíritos em estado
24 Mateus, 5:43-45. A BÍBLIA DE JERUSALÉM esclarece, em nota de rodapé, que a expressão odiai vosso inimigo não se encontra no texto da lei, o que é verdadeiro, pois não consta de Levíticos, 19:18, de onde foi extraída a citação. Esclarece, porém, que a expressão era forçada, por causa da pobreza da língua, O vocabulário da época, ao que se depreende, não tinha uma expressão correta para descrever o sentimento que não seria nem amor, nem ódio, nem indiferença e, por isso, todo aquele que não fosse amigo, seria inimigo; tudo o que não pudesse ser considerado amor, era ódio. De certa forma, essa pobreza semântica perdura.
de perturbação avaliam as nossas emoções e não as nossas palavras. Estão, no fundo, ansiosos de que os convençamos de seu erro, porém jamais reconheceriam isso. Se no debate opusermos nossa irritação à deles, nada conseguiremos senão confirmá-los nos erros em que se enquistaram através do tempo, repetindo enganos e desenganos.
Lembro-me de um exemplo, entre muitos, dessa curiosa posição espiritual, O companheiro manifestou-se impetuoso e logo revelou-se indignado porque não conseguiu despertar em mim uma reação idêntica à sua, ou seja, também de irritação, para que se criasse o clima da desavença que pensam convir-lhes. Como me mantinha sereno e imperturbável, ele se esvaziou pouco a pouco do seu ímpeto e partiu, algo desapontado, mas ainda não convencido, talvez pensando em descobrir um método qualquer de me irritar, a fim de arrastar-me para a sua faixa vibratória, onde melhor poderia alcançar seus propósitos. Na semana seguinte deu-se a coisa mais linda. Incorporou-se ao seu médium, ao meu lado, olhou-me e disse, com voz emocionada, em tom e em palavras que nunca mais me esquecerei:
— Não precisa armar-se. Você já me ganhou...
Uma simples frase dessas descreve um mundo de emoções e de decisões que um livro não poderia conter. Que me restava dizer a ele, senão da profunda emoção e gratidão pela sua resposta ao sentimento da fraternidade? O doutrinador tem que estar, pois, muito atento, para não deixar envolver-se pelo rancor que o Espírito traz em si. Um confrade, experimentado nas lides espíritas, e que acumulou, ao longo dos anos, extenso rol de casos curiosos, contou-me que um doutrinador desavisado, profundamente irritado com o desajustado Espírito manifestante, berrou-lhe, no auge da desarmonização: — Materializa-te, que quero te dar uma bofetada!
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A situação é consideravelmente mais difícil quando o doutrinador defronta-se com seu próprio obsessor. Neste caso, a tarefa assume implicações de natureza muito pessoal, para as quais o doutrinador tem que estar preparado. Mais adiante, estudaremos um caso destes. Neste ponto, basta extrair da situação um ensinamento extremamente precioso e que nunca deve ser esquecido: o de que o arrependimento e o remorso também devem ser construtivos. Isto vale, tanto para o que persegue, quanto para o perseguido.
Tentemos explicar este delicadíssimo mecanismo.
Imaginemos um Espírito desencarnado, envolvido num tenebroso processo de obsessão.
Ele persegue e vinga-se de alguém implacavelmente, século após século, num ódio que parece não ter fim e que nunca chega à saciedade, pois é da natureza do ódio jamais satisfazer-se em si mesmo. É certo que ele ignora, consciente ou não, a causa anterior que determinou o efeito da sua dor. Digamos que ele tenha sido assassinado, por alguém, enquanto exercia elevada posição de mando, como um rei, por exemplo, ou déspota medieval. Toda a sua cólera, no mundo das trevas, se concentra naquele que provocou a sua desencarnação. Ele não quer saber que anteriormente, naquela vida ou em outra, remota ou não, ele mesmo praticou falta semelhante e agora recebe a visita inevitável da lei. Ele só sabe que aquele miserável o matou e, portanto, merece todos os castigos e punições. Além do mais, ele sabe também que, ao errarmos, expomo-nos, a nosso turno, à cobrança, o que, na sua maneira de pensar, dá-lhe o “direito” de punir e de vingar-se.
Suponhamos, ainda, que ao cabo de uma feliz doutrinação, aquele severo perseguidor resolva, afinal, encerrar o processo da vingança. Está cansado, chegou à conclusão de que não vale a pena continuar, porque um dos grandes infelizes é ele próprio; ou, mais grave ainda, descobriu que, no passado, ele próprio cometeu faltas muito mais terríveis do que aquela que pretendeu
cobrar, em nome de um Deus em que ele mesmo não acreditava. Pode ele, em tais circunstâncias, descer a abismos de autocomiseração e dor. Temos tido oportunidade de presenciar arrependimentos dramáticos, desesperados. É o momento de ajudá-lo a construir algo com os salvados de sua tragédia, mostrando-lhe que o remorso deve ser construtivo, senão ele, que estava parado na estrada da evolução, vai continuar paralisado pelo remorso.
De outro lado, vejamos o perseguido, ou obsidiado. Nem sempre ele sabe por que sofre os rigores da vingança. O erro vem de muito longe, e deve ser muito grave, para que ele sofra daquela maneira, mas ele desconhece as causas da sua dor e nem sequer tem oportunidade de enfrentar, num diálogo, o seu obsessor. Como Espírito, ele não o ignora; apenas o véu do esquecimento o protege, como a todos nós, de lembranças extremamente dolorosas, que não temos condição de suportar com a nossa consciência de vigília. Se ele tem oportunidade, porém, de conhecer a razão de sua obsessão, e entrega-se ao remorso desenfreado, dificulta a libertação de seu próprio Espírito e do de seu verdugo. Por outro lado, ele não pode ignorar o arrependimento, pois é exatamente este sentimento que lhe dá os primeiros recursos para livrar-se da dor. Sem arrependimento, colocamo- nos em posições nas quais não podemos sequer ser ajudados. A situação é, pois, muito complexa e delicada, porque o mesmo sentimento de remorso que o levou a merecer ajuda, pode retê-lo à mercê do seu perseguidor, se não for canalizado para fins construtivos, O remorso é, pois, uma flor belíssima, de muitos e pontiagudos espinhos. É preciso estudá-lo, tratá-lo com serenidade, equilíbrio e humildade. Sim, estamos arrependidos do erro cometido contra o irmão; mas não podemos permitir que o nosso arrependimento alimente indefinidamente o seu rancor. É nisso, aliás, que ele se esforça: manter a sua vítima sempre lembrada do erro, porque o arrependimento serve dupla-mente, tanto para fazê-la sofrer, como para estimular a cobrança, que se eterniza.
— Paga a tua dívida! — gritou certo companheiro desarvorado.
Mas, pagar como? Que entenderia ele por pagar a dívida? Certamente que com a dor que resgata e com o arrependimento que nos retém preso a ela. É uma situação extremamente critica e delicada.
Ainda voltaremos a este tema, que contém outras implicações e conotações de grande interesse para o trabalho de doutrinação.