Dissestes que podeis ler no nosso pensamento. Seríeis capaz de explicar-nos como se opera essa transmissão de pensamento? – R. Isto não é fácil. Para vos descrever, para vos explicar esse estranho prodígio da nossa visão, seria preciso lançar mão de todo um arsenal de agentes novos que, aliás, teria pouca valia para vós, uma vez que tendes as faculdades limitadas pela matéria. Paciência! tornai-vos bons e tudo conseguireis. Atualmente só podeis ter o que Deus vos concede, mas com a esperança de progredir continuamente; mais tarde sereis como nós. Tratai de morrer bem para saberdes muito. A curiosidade, estímulo do homem que pensa, conduzir-vos-á tranquilamente para a morte, reservando-vos a satisfação de todas as curiosidades passadas, presentes e futuras. Enquanto esperais, direi para responder, ainda que mal, à vossa pergunta: o ar que vos envolve, impalpável como nós, reproduz fielmente o vosso pensamento; o sopro que exalais é, a bem dizer, a página escrita dos vossos pensamentos, páginas lidas e comentadas pelos Espíritos que constantemente se acercam de vós. São eles os mensageiros de uma telegrafia divina à qual nada escapa.
A morte do justo
Em seguida à primeira evocação do Sr. Sanson, feita na Sociedade de Paris, um Espírito transmitiu, sob o título acima, a comunicação seguinte:
“Foi a de um justo a morte desse homem de quem neste momento vos ocupais, isto é, esperançosa e calma. Como o dia sucede naturalmente à aurora, a vida espiritual sucedeu para ele à vida terrena, sem rompimento nem abalo, e o seu último suspiro foi exalado num verdadeiro hino de reconhecimento e de amor. Quão poucos os que atravessam assim a rude transição! E como são poucos os que após a confusão e o desespero da vida concebem o ritmo harmonioso das esferas! Assim como o homem saudável, quando mutilado por uma bala, continua a sentir dor nos membros que foram amputados, também a alma do homem que morre sem fé e sem esperança, separada do corpo, se despedaça e se precipita no Espaço, inconsciente de si mesma.
Orai por essas almas perturbadas; orai por todos os sofredores, pois a caridade não se restringe à humanidade visível: ela também socorre e consola os seres que povoam o Espaço. Tivestes a prova evidente disto na súbita conversão desse Espírito tocado pelas preces espíritas sobre o túmulo do homem de bem que vindes interrogar e que deseja fazer-vos progredir no bom caminho.⁷¹ O amor não tem limites; enche o Espaço e dá e recebe mutuamente as suas divinas consolações. O mar se desdobra numa perspectiva infinita, cujo espetáculo deslumbra o espírito, parecendo confundir-se no seu limite com os céus. São duas grandezas que se extremam. Pois bem: assim é o amor; mais profundo que as ondas, mais infinito que o Espaço, deve reunir todos vós, encarnados e desencarnados, na santa comunhão da caridade, operando a admirável fusão do que é finito e do que é eterno.”
Georges