Em nosso artigo anterior, descrevemos a triste situação dessa moça e as circunstâncias que nela provavam uma verdadeira possessão. Sentimo-nos feliz ao confirmar o que dissemos de sua cura, hoje completa. Depois de liberta de seu Espírito obsessor, os violentos abalos que tinha sofrido durante mais de seis meses haviam provocado grave perturbação em sua saúde. Agora está completamente recuperada, mas não saiu do estado sonambúlico, o que não a impede de consagrar-se aos seus trabalhos habituais.
Vamos expor as circunstâncias dessa cura.
Várias pessoas haviam tentado magnetizá-la, mas sem muito sucesso, salvo uma leve e passageira melhora no seu estado patológico. Quanto ao Espírito, era cada vez mais tenaz, e as crises haviam atingido um grau de violência dos mais inquietadores. Teria sido necessário um magnetizador nas condições que indicamos no artigo precedente para os médiuns curadores, isto é, penetrando a doente com um fluido bastante puro para eliminar o fluido do Espírito mau. Se há um gênero de mediunidade que exige superioridade moral é, seguramente, o caso das obsessões, pois é preciso ter o direito de impor sua autoridade ao Espírito. Os casos de possessão, segundo o que é anunciado, devem multiplicar-se com grande energia daqui a algum tempo, a fim de que fique bem demonstrada a impotência dos meios empregados até agora para os combater. Até uma circunstância, da qual não podemos ainda falar, mas que tem certa analogia com o que se passou ao tempo do Cristo, contribuirá para desenvolver essa espécie de epidemia demoníaca. Não é duvidoso que surjam médiuns especiais com o poder de expulsar os Espíritos maus, como os apóstolos tinham o de expulsar os demônios, seja porque Deus sempre põe o remédio ao lado do mal, seja para dar aos incrédulos uma nova prova da existência dos Espíritos.
Para a senhorita Júlia, o magnetismo simples, como em todos os casos análogos, por mais enérgico que fosse, era insuficiente. Dever-se-ia agir simultaneamente sobre o Espírito obsessor, para o dominar, e sobre o moral da doente, perturbada por todos esses abalos; o mal físico era apenas consecutivo; era efeito, e não causa. Devia-se, pois, tratar a causa antes do efeito.
Destruído o mal moral, o mal físico desapareceria por si mesmo.
Mas para isto é preciso identificar-se com a causa; estudar com o maior cuidado e em todos os seus matizes o curso das idéias, para lhe imprimir tal ou qual direção mais favorável, porque os sintomas variam conforme o grau de inteligência do paciente, o caráter do Espírito e os motivos da obsessão, motivos cuja origem remonta quase sempre a existências anteriores.
O insucesso do magnetismo com a senhorita Júlia levou várias pessoas a tentar; neste número estava um jovem dotado de grande força fluídica, mas que, infelizmente, não tinha qualquer experiência e, sobretudo, os conhecimentos necessários em casos semelhantes. Ele se atribuía um poder absoluto sobre os Espíritos inferiores que, em sua opinião, não podiam resistir à sua vontade. Tal pretensão, levada ao excesso e baseada em sua força pessoal e não na assistência dos Espíritos bons, deveria provocar- -lhe mais uma decepção. Só isto deveria ter bastado para mostrar aos amigos da mocinha que faltava a primeira das qualidades requeridas para que o socorro lhe fosse eficaz. Mas o que, acima de tudo, deveria tê-los esclarecido, é que ele professava, sobre os Espíritos em geral, uma opinião completamente falsa. Segundo ele, os Espíritos superiores são de natureza muito etérea para poderem vir à Terra comunicar-se com os homens e os assistir; isto só é possível aos Espíritos inferiores, em razão de sua natureza mais grosseira. Esta opinião, que não passa da doutrina da comunicação exclusiva dos demônios, cometia ele o grave erro de a sustentar diante da enferma, mesmo nos momentos de crise. Com esta maneira de ver, só devia contar consigo mesmo, e não podia invocar a única assistência capaz de ajudá-lo, assistência que, é verdade, julgava poder dispensar. A conseqüência mais deplorável era para a doente, que ele desencorajava, tirando-lhe a esperança da assistência dos Espíritos bons. No estado de debilidade em que se achava o seu cérebro, tal crença, que dava todo poder ao Espírito obsessor, poderia tornar-se fatal para sua razão, e mesmo matá-la.
Assim, ela repetia sem cessar, nos momentos de crise: “Louca...
louca..., ele me põe louca... completamente louca... eu ainda não o sou, mas ficarei.” Falando de seu magnetizador, ela descrevia perfeitamente sua ação, dizendo: “Ele me dá a força do corpo, mas não a força do espírito.” Tal expressão era profundamente significativa e, no entanto, ninguém lhe dava importância.
Quando vimos a senhorita Júlia, o mal estava no seu apogeu e a crise que testemunhamos foi uma das mais violentas.
Foi no próprio momento em que nos dedicávamos a levantar-lhe o moral e inculcar-lhe o pensamento de que ela podia dominar esse Espírito mau, com a assistência dos bons e de seu anjo-da-guarda, cujo apoio devia invocar. Foi nesse momento, dizíamos, que o jovem magnetizador, que se achava presente, por uma circunstância sem dúvida providencial, veio, sem qualquer provocação, afirmar e desenvolver sua teoria, destruindo por um lado o que fazíamos por outro. Tivemos de lhe expor com energia que praticava uma má ação e assumia a terrível responsabilidade da razão e da vida daquela infeliz mocinha.
Um fato dos mais singulares, que todos tinham observado, mas cujas conseqüências ninguém havia deduzido, produzia-se na magnetização. Quando se dava durante a luta com o Espírito mau, só este último absorvia todo o fluido, que lhe conferia mais força, enquanto a doente enfraquecia e sucumbia à sua ação nefasta. Devemos nos lembrar de que ela estava sempre em estado sonambúlico; conseqüentemente, via o que se passava, e foi ela mesma quem deu a explicação. Não viram no fato senão uma malícia do Espírito e contentavam-se em se absterem de magnetizar em tais momentos e ficarem como espectadores da luta.
Com o conhecimento da natureza dos fluidos, é possível dar-se conta facilmente desse fenômeno. Antes de mais, é evidente que, absorvendo o fluido para aumentar a força em detrimento da doente, o Espírito queria convencer o magnetizador da inutilidade de sua pretensão. Se havia malícia de sua parte, era contra o magnetizador, pois se servia da mesma arma com a qual este último pretendia vencê-lo. Pode dizer-se que lhe tomava o bastão das mãos. Não menos evidente era a sua facilidade de se apropriar do fluido do magnetizador, denotando uma afinidade entre esse fluido e o seu próprio, ao passo que fluidos de natureza contrária se teriam repelido, como água e óleo. Só este fato bastaria para demonstrar que havia outras condições a preencher. É, pois, um erro dos mais graves e, podemos dizer, dos mais funestos, não ver na ação magnética senão uma simples emissão fluídica, sem levar em conta a qualidade íntima dos fluidos. Na maioria dos casos, o sucesso repousa inteiramente nestas qualidades, como o êxito depende, na terapêutica, da qualidade do medicamento. Não seria demais chamar a atenção para este ponto capital, demonstrado, ao mesmo tempo, pela lógica e pela experiência.
Para combater a influência da doutrina do magnetizador, que já havia influenciado as idéias da doente, dissemos a esta: “Minha filha, tende confiança em Deus; olhai em volta. Não vede Espíritos bons? – É verdade, diz ela; vejo luminosos, que Fredegunda não ousa encarar. – Pois bem! são os que vos protegem e não permitirão que o Espírito mau triunfe; implorai sua assistência; orai com fervor; orai sobretudo por Fredegunda. – Oh! Por ela jamais o poderei. – Cuidado! vede como se afastam os Espíritos bons a estas palavras. Se quiserdes a sua proteção, é preciso merecê-la por vossos bons sentimentos, esforçando-vos principalmente para que sejais melhor que a vossa inimiga. Como quereis que eles vos defendam, se não valeis mais que ela? Pensai que em outras existências tereis censura a vos fazer; o que vos acontece é uma expiação; se quiserdes fazê-la cessar, será preciso que melhoreis e proveis vossas boas intenções, começando por vos mostrardes boa e caridosa para com os inimigos. A própria Fredegunda será tocada e talvez fareis o arrependimento entrar no seu coração. Refleti. – Eu o farei. – Fazei-o logo e dizei comigo: ‘Meu Deus, eu perdôo a Fredegunda o mal que ela me fez; aceito-o como uma prova e uma expiação que mereci. Perdoai minhas próprias faltas, como eu perdôo as dela. E vós, Espíritos bons que me cercais, abri o seu coração a melhores sentimento s e me dai a força que me falta.’ Prometeis orar por ela todos os dias? – Prometo. – Está bem. Por meu lado, cuidarei de vós e dela; tende confiança. – Oh! Obrigado! algo me diz que isto logo vai acabar.”
Tendo dado conta dessa cena à Sociedade, foram transmitidas a respeito as seguintes instruções: “O assunto de que vos ocupais comoveu os próprios Espíritos bons que, por sua vez, querem vir em auxílio desta moça com seus conselhos. Com efeito, ela apresenta um caso de obsessão muito grave; entre os que vistes e vereis ainda, pode-se pôr este no número dos mais sérios e, sobretudo, dos mais interessantes, pelas particularidades instrutivas já apresentadas e que ele vos oferecerá novamente.
“Como já vos disse, esses casos de obsessão se repetem freqüentemente e fornecerão dois assuntos distintos de utilidade, primeiro para vós, depois para os que as sofrerem.