Provavelmente não sabeis, também, o que são os Espíritos. Os Espíritos nada mais são que a alma dos que viveram; almas e Espíritos são, pois, uma única e mesma coisa, de modo que negar a existência dos Espíritos é negar a alma. Admitir a alma, sua sobrevivência, sua individualidade, é admitir os Espíritos. Toda a questão, portanto, se resume em saber se, após a morte, a alma pode manifestar-se aos vivos. Os livros sagrados e os pais da Igreja o reconheciam. Se os Espíritos estão errados, essas autoridades também se enganaram. Para o provar, é preciso demonstrar, não por uma simples negativa, mas por razões peremptórias: 1o Que o ser que pensa em nós durante a vida não pode mais pensar após a morte; 2o Que, se pensa, não deve mais pensar naqueles que amou; 3o Que, se pensa nos que amou, não deve mais querer comunicar-se com eles; 4o Que, se pode estar em toda parte, não pode estar ao nosso lado; 5o Que, se está ao nosso lado, não pode comunicar-se conosco.
Se conhecêsseis o estado dos Espíritos, sua natureza e, se assim me posso exprimir, sua constituição fisiológica, tal como eles no-la descrevem e tal qual a observação nos confirma, saberíeis que Espírito e alma, sendo uma única e mesma coisa, só há de menos no Espírito o corpo, de que se despoja ao morrer, restando-lhe, porém, um invólucro etéreo, que para ele constitui um corpo fluídico, com o auxílio do qual pode, em certas circunstâncias, tornar-se visível. É o que ocorre nos casos de aparições, que a própria Igreja admite perfeitamente, tendo em vista que de alguns faz artigos de fé. Dada esta base, às proposições precedentes acrescentarei as seguintes, pedindo-vos provar: 6o Que, por seu envoltório fluídico, o Espírito não pode agir sobre a matéria inerte; 7o Que, se pode agir sobre a matéria inerte, não pode agir sobre um ser animado; 8o Que, se pode agir sobre um ser animado, não pode dirigir sua mão para fazê-lo escrever; 9o Que, podendo fazê-lo escrever, não pode responder às suas perguntas e lhe transmitir seu pensamento.
Quando tiverdes demonstrado que tudo isto é impossível, por meio de raciocínios tão patentes quanto aqueles pelos quais Galileu demonstrou que não é o Sol que gira, então vossa opinião poderá ser levada em consideração.
Objetareis, sem dúvida, que em suas comunicações os Espíritos dizem, algumas vezes, coisas absurdas. Isto é verdade; e fazem mais: por vezes dizem grosserias e impertinências. É que, deixando o corpo, o Espírito não se despoja imediatamente de todas a suas imperfeições. É, pois, provável que aqueles que dizem coisas ridículas como Espíritos, as disseram ainda mais ridículas quando estavam entre nós. Daí por que não aceitamos mais cegamente tudo que vem da parte deles do que o que vem da parte dos homens. Como, porém, não tenho a intenção de dar um curso, vou parar aqui. A mim bastou provar que tínheis falado do Espiritismo sem o conhecer.
Aceitai, senhor, minhas respeitosas saudações.
Allan Kardec