Que dirão agora da criança objeto deste artigo? Seus instintos atuais se explicam por seus antecedentes. Nasceu incendiário, como outros nasceram poetas e artistas, porque, sem a menor dúvida, foi incendiário em outra existência e lhe conservou o instinto.
Mas então, perguntarão, se cada existência é um progresso, na presente o progresso é nulo para ele.
Isto não é uma razão. De seus instintos atuais não se deve concluir que o progresso seja nulo. O homem não se despoja subitamente de todas as suas imperfeições. Essa criança provavelmente teria outras, que a tornavam pior do que é hoje. Ora, ainda que só tivesse avançado um passo, mesmo que tivesse apenas o arrependimento e o desejo de melhorar-se, seria sempre um progresso. Se esse instinto nele se manifesta de maneira tão precoce e para desde cedo chamar a atenção sobre as suas tendências, a fim de que os pais e os que forem encarregados de sua educação se empenhem em reprimi-las antes que se desenvolvam. Talvez ele mesmo tenha pedido que assim fosse, e de nascer numa família honrada, pelo desejo de progredir.
É uma grande tarefa para seus pais, pois é uma alma extraviada que lhes é confiada para ser conduzida ao reto caminho, e grande seria sua responsabilidade se não o fizessem, com esse objetivo, tudo quanto estivesse em seu poder. Se seu filho ficasse doente, cuidariam dele com solicitude. Devem olhá-lo como atacado por uma moléstia moral grave, que requer cuidados não menos assíduos.
De acordo com todas essas considerações, cremos sem vaidade que os Espíritos são os melhores especialistas em tal circunstância, porque se dedicam ao estudo dos fenômenos morais e os apreciam, não segundo idéias pessoais, mas conforme leis naturais.
Tendo sido esse fato apresentado à Sociedade de Paris como tema de estudo, foi feita aos Espíritos a seguinte pergunta: Qual a origem do instinto incendiário precoce nesta criança, e quais seriam os meios de o combater pela educação?
Foram dadas quatro respostas concordantes. Citaremos apenas as duas seguintes.
(Sociedade de Paris, 13 de abril de 1866 – Médium: Sr. Br...)
I Perguntais qual foi a existência dessa criança que mostra uma inclinação tão precoce para a destruição e, particularmente, para o incêndio. Ai! seu passado é horrível e suas tendências atuais vos dizem bastante o que ele pôde fazer. Veio para expiar, e deve lutar contra seus instintos incendiários. É uma grande provação para os pais, que estão constantemente sob os golpes de suas más ações, e não sabem como reprimir essa funesta inclinação. O conhecimento do Espiritismo lhes seria um poderoso auxílio, e Deus, em sua misericórdia, lhes concederá esta graça, porque é só por este conhecimento que se pode esperar melhorar esse Espírito.
Esta criança é uma prova evidente da anterioridade da alma à encarnação presente. Como vedes, esse estranho estado moral desperta a atenção e faz refletir. Deus se serve de todos os meios para vos fazer chegar ao conhecimento da verdade relativamente à vossa origem, vossa progressão e vosso fim.
Um Espírito (Médium: Srta. Lat...)
II O Espiritismo já representou um grande papel no vosso mundo, mas o que vistes é apenas o prelúdio do que estais chamados a ver. Quando a Ciência emudece diante de certos fatos e a religião também não pode resolver, o Espiritismo lhe vem dar a solução. Quando a Ciência falta aos vossos sábios, eles deixam a causa de lado, por falta de explicações suficientes. Em muitas circunstâncias as luzes do Espiritismo lhes poderiam ser de grande valia, notadamente neste caso de monomania incendiária. Para eles é um gênero de loucura, porque encaram todas as monomanias como loucura. Eis um grande erro. Aqui a Medicina nada tem a fazer; é aos espíritas que cabe agir.
É inadmissível para vós que essa inclinação para destruir pelo fogo date da presente existência; é preciso remontar mais alto e ver nas inclinações perversas dessa criança um reflexo de seus atos anteriores.
Além disso, ele é impelido pelos mesmos que foram suas vítimas, porquanto, para satisfazer à sua ambição, não recuou diante do incêndio, nem diante do sacrifício dos que lhe podiam fazer obstáculo. Numa palavra, está sob a influência de Espíritos que ainda não lhe perdoaram os tormentos que os fez sofrer.
Esperam a vingança.
Tem como prova sair vitorioso da luta; mas Deus, em sua soberana justiça, colocou o remédio ao lado do mal. Com efeito, esse remédio está em sua tenra idade e na boa influência do meio onde se acha. Hoje a criança nada pode no momento; cabe aos pais velar. Mais tarde ele próprio deverá vencer, e enquanto não for senhor de sua posição a luta se perpetuará. Seria preciso que fosse educado nos princípios do Espiritismo; aí colheria a força e, compreendendo a sua prova, teria mais vontade para triunfar.
Espíritos bons, encarregados de esclarecer os encarnados, volvei o olhar para esse pobre ser, cujo castigo é justo; ide a ele, ajudai-o, dirigi os seus pensamentos para o Espiritismo, a fim de que triunfe mais depressa e a luta seja vantajosa para ele.
Um Espírito