O Espírito Batedor da Irmã Maria
“Vendo a docilidade desse Espírito e sua presteza em obedecer, julguei poder tentar tudo. Pus 40 moedas sobre a cama da doente e ordenei-lhe que as contasse. Imediatamente ouvimos contá-las num copo de vidro que eu havia colocado perto. Peguei a moeda e coloquei-a sobre a mesa; ordenei a mesma coisa e logo ele obedeceu. Pus um escudo de seis francos e mandei que com ele indicasse o número de missas que lhe são necessárias; bate 33 vezes com o escudo na parede. Faço entrar no quarto os senhores Digoine, Bonfils e d’Entrevaux, afastamos as cortinas do leito, colocamos a vela sobre este e mando o Espírito bater e nos designar o número de missas. Vemos, os quatro, a Irmã Maria sempre no mesmo estado, sem movimento e com os papelotes em forma de cruz, ainda dispostos, e contamos 33 batidas na parede. É de notar que no quarto vizinho, separado por esta parede, não havia vivalma; tínhamos tido o cuidado de afastar tudo quanto fizesse suscitar em nós a menor suspeita. “Por fim, senhor, tentei uma nova via; escrevi estas palavras num papel: Eu te ordeno, alma sofredora, que nos digas quem és, tanto para nossa consolação quanto para a sustentação de nossa fé. Escreve, pois, o teu nome neste papel ou, pelo menos, faz nele uma marca para conhecermos a necessidade que tens de nossas preces. Coloco este escrito debaixo da cama da doente, com um tinteiro e uma pena; um instante depois ouço a pia tilintar; acorremos todos ao ruído e, ao mesmo tempo, achamos o papel e o crucifixo sobre ele. Ordeno-lhe que ponha o crucifixo em seu lugar e marque o papel; então dissemos a ladainha da Virgem e, acabada a prece, encontramos o crucifixo em seu lugar e por baixo do papel duas cruzes feitas com a pena. O padre Chambon, que estava muito perto do leito, ouviu o ruído da pena no papel. Eu poderia contar-vos muitos outros fatos igualmente surpreendentes, mas o detalhe me levaria muito longe. “Sem dúvida perguntareis, caro senhor, o que penso desta aventura. Vou fazer minha profissão de fé. Em primeiro lugar estabeleço que o ruído que vi e ouvi tem uma causa. Os quadros, a cadeira, a pia, etc., são seres inanimados, que não podem mover-se por si mesmos. Qual, então, a causa que lhes deu movimento? Necessariamente, é preciso que seja natural ou sobrenatural; se for natural, não pode ser senão a Irmã Maria, pois havia apenas ela no quarto. Não se pode pretender que o ruído tenha sido produzido por molas; examinamos tudo com a máxima atenção, até desmontando os quadros, e se um simples cabelo tivesse respondido pela pia ou pela cadeira nós o teríamos percebido. “Ora, eu digo que a Irmã Maria não é a causa; ela não quis, ou melhor, ela não nos pôde enganar. Será possível que uma menina em perfeito estado de santidade, uma jovem cuja vida é um milagre contínuo, pois está provado que há três anos não come, não bebe e que de seu corpo não tem saído, senão uma quantidade de pedras; que uma donzela que sofre há seis anos tudo quanto se pode sofrer e sempre com uma paciência admirável; que uma moça que só abre a boca para orar, deixando transparecer, em tudo o que diz, a mais profunda humildade, tenha querido nos enganar, impondo-se assim a todo um público, ao seu bispo, ao seu confessor e a uma multidão de sacerdotes que a interrogaram a respeito? Acho em tudo quanto ela diz uma coerência maravilhosa, jamais a menor contradição, caráter único da verdade, pois a mentira não se sustentaria. Não creio que os mártires tenham sofrido mais do que esta santa; há épocas do ano em que o seu corpo é uma chaga só; vê-se saindo sangue e pus pelos ouvidos e, com muita freqüência, lhe arrancam vermes muito compridos, que saem pelas narinas; ela sofre e pede continuamente a Deus que a faça sofrer. Uma coisa maravilhosa é que todo ano, na quinzena da Páscoa, é tomada por um vômito de sangue; passado o vômito, a garganta fica desobstruída, ela recebe o santo viático e um instante depois se fecha totalmente; foi o que lhe aconteceu quarta-feira última. “Em segundo lugar digo que ela não nos pôde enganar, pois está fora de estado de agir; como já disse, é paralítica e uma senhorita de nossa cidade ficou plenamente convencida quando lhe enterrou uma calibrosa agulha na coxa. Aliás, vedes as precauções que tomamos. Costuramo-la em seu hábito e muitas vezes com guarda à vista. Então não é ela. Quem é, então? Perguntais. A conseqüência é fácil de tirar de tudo quanto tenho a honra de vos dizer neste relato. “Assinado: † Abade de Saint-Ponc, cônego apresentador.” Observação – Há evidente analogia entre estes fatos e os do Espírito batedor de Bergzabern e de Dibbelsdorf, relatados na Revista Espírita de maio, junho, julho e agosto de 1858, salvo, neste, que o Espírito nada tinha de malévolo. São constatados por um homem cujo caráter não pode ser suspeito, e que não observou levianamente. Se, como pretendem certas pessoas, só o diabo se manifesta, como viria junto de uma moça em estado de perfeição espiritual? Ora, é de notar que esta não era apavorada nem atormentada; ela própria sabia e as experiências constataram, que era uma alma sofredora. Se não é o diabo, então outros Espíritos podem comunicar-se? Duas circunstâncias têm analogia particular como a que hoje vemos. Antes de mais, o primeiro pensamento é que haja fraude da parte da pessoa junto à qual se produzem os fenômenos, a despeito das impossibilidades materiais que, por vezes, existem. Na situação física e moral dessa moça, não se compreende que a suspeita de uma encenação tenha podido entrar no espírito das outras religiosas. O segundo fato é mais importante. Se alguns dos fenômenos ocorreram à vista das pessoas presentes, a maior parte deles se produziu quando elas estavam no quarto vizinho, de costas e na ausência de luz direta, como muitas vezes se tem observado em nossos dias. A que se deve isto? É o que não está ainda suficientemente explicado. Tendo esses fenômenos uma causa material, e não sobrenatural, poderia acontecer, como em certas operações químicas, que a luz difusa fosse mais favorável à ação dos fluidos de que se serve o Espírito14. A física espiritual ainda está na infância.
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Mês Junho
Ano 1864