IV
Mais longe se desenvolve o imenso oceano estelar, pélago de luz e de harmonia, cujas vagas melodiosas por toda parte envolvem, a embalá-lo, nosso universo solar, esse universo para nós tão vasto e tão mesquinho em relação ao Além. É a região do desconhecido, do mistério, que atrai sem cessar o nosso pensamento, sendo este impotente para medir, para definir seus milhões de sóis de todas as grandezas, de todas as potências, seus astros múltiplos, coloridos, focos terríficos que iluminam as profundezas, vertendo em ondas a luz, o calor, a energia, transportados na imensidão com velocidades formidáveis, com seus cortejos de mundos, terras do céu, invisíveis, mas suspeitadas, e as famílias humanas que os habitam, os povos e as cidades, as civilizações grandiosas de que são teatro. Por toda parte as maravilhas sucedem às maravilhas: grupos de sóis animados de colorações estranhas, arquipélagos de astros, cometas desgrenhados, errando na noite de seu afélio, focos moribundos que se acendem de repente e fulgem no fundo do abismo, pálidas nebulosas de forma fantástica, fantasmas luminosos cujas irradiações – diz Herschel – levam 20.000 séculos para chegar até nossa Terra, formidáveis gêneses de universos, berços e túmulos da vida universal, vozes do passado, promessas do futuro, esplendores do Infinito! E todos esses mundos unem suas vibrações em uma poderosa melodia... A alma livre dos raios terrestres, chegada a essas alturas, ouve a voz profunda dos céus eternos! As relações harmônicas que regem a situação dos planetas no Espaço representam, como o estabeleceu Azbel,(19) a extensão do nosso teclado sonoro e se acham conforme a lei das distâncias e dos movimentos. Nosso sistema solar representa uma espécie de edifício de oito andares, isto é, oito oitavas, com uma escadaria formada de 320 degraus ou ondas harmônicas, sobre a qual os planetas estão colocados, ocupando “patamares indicados pela harmonia de um acorde perfeito e múltiplo”. As dissonâncias são apenas aparentes ou transitórias. O acorde encontra-se no fundo de tudo. As regras da nossa harmonia musical parecem ser apenas conseqüência, aplicação muito imperfeita da lei da harmonia soberana que preside à marcha dos mundos. Podemos, pois, crer, logicamente, que a melodia das esferas seria inteligível para o nosso Espírito, se nossos sentidos pudessem perceber as ondas sonoras que enchem o Espaço.(20) A regra geral, embora absoluta, não é, entretanto, estreita e rígida. Em certos casos, no de Netuno, a harmonia relativa parece afastar-se do princípio; nunca, entretanto, de maneira a sair dele. O estudo dos movimentos planetários fornece a demonstração evidente desse fato. Nessa ordem de estudos, mais do que em qualquer outra, vemos manifestar-se, em sua imponente grandeza, a lei do Belo que rege o Universo. Mal nossa atenção é dirigida para as imensidades siderais, a sensação estética torna-se intensa. Essa sensação vai engrandecer-se agora e crescer, à medida que se precisarem as regras da harmonia universal, à proporção que se levantar para nós o véu que nos oculta os esplendores celestes. Por toda parte encontraremos essa concordância que encanta e comove; nesse domínio, nenhuma dessas discordâncias, dessas decepções, tão freqüentes no seio da Humanidade. Por toda parte se desdobra essa potência de beleza que leva ao infinito suas combinações, abrangendo em igual unidade todas as leis, em todos os sentidos: aritmética, geométrica, estética. O Universo é um poema sublime do qual começamos a soletrar o primeiro canto. Apenas discernimos algumas notas, alguns murmúrios longínquos e enfraquecidos! Já essas primeiras letras do maravilhoso alfabeto musical nos enchem de entusiasmo. Que será quando, tornados mais dignos de interpretar a divina linguagem, percebermos, compreendermos as grandes harmonias do Espaço, o acorde infinito na variedade infinita, o canto modulado por esses milhões de astros que, na diversidade prodigiosa de seus volumes e de seus movimentos, afinam suas vibrações por uma simpatia eterna? Perguntar-se-á, porém: Que diz essa música celeste, essa voz dos céus profundos? Essa linguagem ritmada é o Verbo por excelência, aquele pelo qual todos os mundos e todos os seres superiores se comunicam entre si, chamam-se através das distâncias; pelo qual nos comunicaremos um dia com as outras famílias humanas que povoam o Espaço estrelado. É o princípio mesmo das vibrações que servem para traduzir o pensamento, a telegrafia universal, veículo da idéia em todas as regiões do Universo, linguagem das almas elevadas, entretendo-se de um astro a outro com suas obras comuns, com o fim a atingir, com os progressos a realizar. É ainda um hino que os mundos cantam a Deus, ora cântico de alegria, de adoração, ora de lamentações e de prece; é a grande voz da coisas, o grito de amor que sobe eternamente para a Inteligência ordenadora dos universos. Quando, pois, saberemos destacar nossos pensamentos e elevá-los para os cimos? Quando saberemos penetrar esses mistérios do céu e compreender que cada descobrimento realizado, cada conquista prosseguida nessa senda da luz e de beleza, contribui para enobrecer nosso espírito e para engrandecer nossa vida moral e nos proporciona alegrias superiores a toda as da matéria? Quando, pois, compreenderemos que é lá, nesse esplêndido Universo, que nosso próprio destino se desenvolve, e estudá-lo é estudar o próprio meio onde somos chamados a reviver, a evolver sem cessar, penetrando-nos cada vez mais das harmonias que o enchem? Que em toda parte a vida se expande em florescências de Almas? Que o Espaço é povoado de sociedades sem-número; às quais o ser humano está ligado pelas leis de sua natureza e de seu futuro? Ah! Quanto são de lamentar aqueles que desviam seus olhares desses espetáculos e seu Espírito desses problemas! Não há estudo mais impressionante, mais comovente, revelação mais alta da ciência e da arte, mais sublime lição! Não: o segredo da nossa felicidade, de nosso poder, de nosso futuro, não está nas coisas efêmeras deste mundo; reside nos ensinamentos do Alto, do Além. E os educadores da Humanidade são muito inconscientes ou muito culpados, porque não cuidam de elevar as Almas para os cimos onde resplandece a verdadeira luz. Se a dúvida ou a incerteza nos assediam; se a vida nos parece pesada; se tateamos na noite à procura do fim; se pessimismo e tristeza nos invadem; acusemos a nós próprios, porque o grande livro do Infinito está aberto aos nossos olhos, com suas páginas magníficas, das quais cada palavra é um grupo de astros, cada letra um sol – o grande livro onde devemos aprender a ler o sublime ensinamento. A Verdade ali está escrita em letras de ouro e de fogo; chama solícita nossos olhos – Verdade –, realidade mais bela que todas as lendas e todas as ficções. E ela quem nos conta a vida imperecível da Alma, suas vidas renascentes na espiral dos mundos, as estações inumeráveis no trajeto radioso, o prosseguimento do eterno bem, a conquista da plena consciência, a alegria de sempre viver para sempre amar, sempre subir, sempre adquirir novas potências, virtudes mais altas, percepções mais vastas. E, acima da possessão da eterna Beleza, a felicidade de penetrar as leis, de associar-se mais estreitamente à obra divina e à evolução das Humanidades. Desses magníficos estudos, a idéia de Deus se expande mais majestosa, mais serena. A ciência das harmonias celestes vale um pedestal grandioso sobre o qual se erige a augusta figura – Beleza soberana cujo brilho, muito ofuscante para os nossos fracos olhos, fica ainda velado, mas irradia docemente através da obscuridade que a envolve. Idéia de Deus – centro inefável para onde verguem e se fundem, em síntese sem limites, todas as ciências, todas as artes, todas as verdades superiores –, tu és a primeira e a última palavra das coisas presentes ou passadas, próximas ou longínquas; tu és a própria Lei, a causa única de todas as coisas, a união absoluta, fundamental, do Bem e do Belo, que reclama o pensamento, que exige a consciência e na qual a Alma humana acha a sua razão de ser e a fonte inesgotável de suas forças, de suas luzes, de suas inspirações.
TAG Valor
Título As harmonias do Espaço
Parte Primeira
Título da Parte Deus e o Universo