“Mas essas manifestações, hoje tão bem constatadas, e cuja prova se acha quase em cada página da história da Humanidade, Deus as permite continuamente, a fim de dar a todos a prova da solidariedade que existe entre os Espíritos encarnados e desencarnados; e isto a fim de que uns e outros se auxiliem mutuamente e que o ser espiritual, chamado à vida eterna, possa atingir mais facilmente e, sobretudo, mais seguramente, o objetivo providencial atribuído à Criação.
“Se os fatos dos quais decorrem semelhantes teorias, que são a base da Doutrina Espírita, podem ser tomados por certas pessoas como mistificações, pelo menos elas deveriam indicar as razões e, o que seria ainda melhor, apresentar outras teorias mais racionais e, sobretudo, mais verdadeiras.
“Agora, chamai a verdade feitiçaria, magia, prestidigitação e outros epítetos ainda mais ridículos e não impedireis que esta verdade se propague e estenda os seus raios benfazejos sobre todo o gênero humano.
“Eis por que o Espiritismo espalhou-se tão rapidamente em toda a face da Terra, apesar das críticas do gênero dos citados artigos, os quais não impedirão que os seus adeptos se contem por milhões.”
Os espíritas de Constantinopla Dirigimos aos nossos irmãos espíritas de Constantinopla, tanto em nosso nome pessoal quanto no dos membros da Sociedade de Paris, as sinceras felicitações que merece sua resposta, ao mesmo tempo digna e moderada. A carta seguinte, que a respeito nos escreve o Sr. Repos, advogado, presidente da Sociedade Espírita de Constantinopla, testemunha muito bem o devotamento à causa da doutrina, para que tomemos como um dever e sincero prazer a sua publicação, a fim de que os espíritas de todos os países saibam que na capital do Oriente existem irmãos com cuja fraternidade podem contar. Falando do Oriente, não devemos esquecer os de Esmirna; eles também se fazem merecedores de todas as suas simpatias.
“Constantinopla, 15 de junho de 1864.
“Caro mestre e mui honrado irmão em Espiritismo, “Recebi em tempo vossa estimável carta de 8 de abril último, que me deu o maior prazer, assim como aos nossos irmãos espíritas, aos quais dei conhecimento em sessão.
“Associam-se a mim todos os espíritas de Constantinopla para, em conjunto, assegurarmos os nossos fraternos sentimentos a vós e a todos os espíritas que fazem parte da Sociedade de Paris. E agradecendo o encorajamento que nos dais, para nos ajudar a combater por nossa grande causa, ficai persuadido de que não falharemos na tarefa que empreendemos, e que todos os nossos esforços se concentrarão para a propagação da verdade, do amor do bem e da emancipação intelectual dos outros homens, nossos irmãos em Deus, ainda que tivéssemos de sustentar as mais encarniçadas lutas contra os nossos inimigos. Se há homens bastante servis e bastante covardes para ousarem combater a verdade, também os há suficientemente independentes e corajosos para defendê-la, assim obedecendo aos sentimentos de justiça e de amor fraterno, que fazem do ser humano um verdadeiro filho de Deus.
“Foi com vivíssimo interesse que li os interessantes detalhes contidos em vossa citada carta, em relação ao progresso do Espiritismo na França e alhures. Esperamos que, no futuro, a idéia cresça cada vez mais e o desejamos ardentemente pelos nossos irmãos terrenos de todos os países e de todas as religiões.
“O jacto possante da revelação brota por todos os lados; cego quem não o vê, imprudente quem o nega, insensato quem o combate, buscando reprimi-lo na fonte; sua água pura e límpida não vem do trono eterno para se espalhar em suave e fecundo orvalho sobre a Terra inteira, que deve regenerar?
Nenhuma força humana poderá, então, comprimi-la!... E, com efeito, não vemos que, desde que um jacto surge em qualquer parte, se alguém fizer esforços para o comprimir, logo se vêem milhares de jactos surgindo em todas as direções e em todos os degraus da escala social? Tanto é verdade que a vontade divina é onipotente e que, num dado momento, nenhum obstáculo se lhe pode opor, sob pena de ser derrubado e esmagado pelo carro deslumbrante da justiça e da verdade.
“Caro mestre, tenho grato dever a cumprir: o de vos cumprimentar, tanto em meu nome quanto no de todos os irmãos espíritas do Oriente, pela condenação sofrida por vossas obras pela santíssima inquisição do pensamento, quero dizer, a condenação do Índex. Rejubilai-vos, pois, com todos os nossos irmãos: se vossas obras levantaram grandes cóleras, estas não vos puderam ferir, servindo apenas para tornar ridículos os vossos contraditores e revelar as suas intenções ocultas. Tal julgamento já foi declarado nulo e sem valor pela opinião pública de todos os países.
“Provavelmente já recebestes os jornais de Constantinopla que vos enviei e nos quais se achavam a maioria dos artigos publicados contra o Espiritismo e os espíritas. Vistes as nossas duas pequenas respostas? Que pensais delas? Aqui produziram bom efeito e agora se fala do Espiritismo mais que nunca. Esperamos pacientemente o que direis para nos ajudar a combater a fraude e a mentira, único apanágio dos inimigos de nossa bela doutrina.
“Aqui já começou a perseguição surda que anunciastes.
Um dos nossos irmãos perdeu o emprego devido à sua qualidade de espírita; outros são perseguidos, ameaçados em seus mais caros interesses de família ou nos meios de subsistência, pelas manobras tenebrosas dos eternos inimigos da luz, que ousam dizer que o Espiritismo é obra do anjo-das-trevas! Se é assim que julgam sufocá-lo, enganam-se. Longe de deter, a perseguição faz crescer toda idéia que vem do alto; apressa sua eclosão e sua maturidade, porque é o adubo que a fecunda; prova a ausência de qualquer meio inteligente para combatê-la. O sangue dos mártires sufocou a idéia cristã?
“Até a vista, caro mestre. Crede em minha dedicação muito sincera a vós e aos nossos irmãos espíritas de Paris, aos quais vos peço apresenteis os meus cumprimentos.”
B. Repos Filho, Advogado