2ª Parte - Cap. 5: Lutas pelo Evangelho
Abandonar o gentio à própria sorte seria criar duro cativeiro, ao invés de praticar aquele amor que apaga todos os pecados. É pelo fato de muito compreendermos os judeus e de muito esti marmos os preceitos divinos, que precisamos estabelecer a melhor fraternidade com o gentio, convertendo -o em elemento de frutificação divina. Cremos que Deus nos purif ica o coração pela fé e não pelas ordenanças do mundo. Se hoje rendemos graças pelo triunfo glorioso do Evangelho, que instituiu a nossa liberdade, como impor aos novos discípulos um jugo que, intimamente, não podemos suportar? Suponho, então, que a circuncisão não deva constituir ato obrigatório para quantos se convertam ao amor de Jesus -Cristo, e creio que só nos sal varemos pelo favor divino do Mestre, estendido genero samente a nós e a eles também. A palavra do Apóstolo caíra na fervura das opiniões co mo forte jato de água fria. Paulo estava radiante, ao passo que Tiago não conseguia ocultar o desapontamento. A exortação do ex-pescador dava margem a nume rosas interpretações; se falava no respeito amoroso aos judeus, referia -se também a um jugo que não podia suportar. Ninguém, todavia, ousou negar -lhe a prudência e bom-senso indubitáveis. Terminada a oração, Pedro rogou a Paulo falasse de suas impressões pessoais, a respeito do gentio. Mais esperançado, o ex -rabino tomou a palavra pela primeira vez, no conselho, e convidando Barnabé ao comentário geral, ambos apelaram para que a assembléia concedesse a necessária independência aos pagãos, no que se referia à circuncisão. Havia em tudo, agora, uma nota de satisfação geral. As observações de Pedro calaram fundo em todos os companheiros. Foi então que Tiago tomou a palavra, e, vendo-se quase só no seu ponto de vista, esclareceu que Simão fora muito bem inspirado no seu apelo; mas pediu três emendas para que a situação ficasse bem esclare cida. Os pagãos ficavam isentos da circuncisão, mas deviam assumir o compromisso de fugir da idolatria, evitar a luxúria e abster-se das carnes de animais sufocados. O Apóstolo dos gentios estava satisfeito. Fora remo vido o maior obstáculo. No dia seguinte os trabalhos fo ram encerrados, lavrando-se as resoluções em pergaminho. Pedro provi denciou para que cada irmão levasse consigo uma carta, como prova das deliberações, em virtude da solicitação de Paulo, que desejava exibir o documento como men sagem de emancipação da g entilidade. Interpelado pelo ex-pescador, quando se achavam a sós, sobre as impressões pessoais dos trabalhos, o ex -doutor de Jerusalém esclareceu com um sorriso: — Em suma, estou satisfeito. Ficou resolvido o mais difícil dos problemas. A obrigatoriedade da circuncisão para os gentios representava um crime aos meus olhos. Quanto às emendas de Tiago, não me impressio nam, porqüanto a idolatria e a luxúria são atos detes táveis para a vida particular de cada um; e, quanto às refeições, suponho que todo cris tão poderá comer como melhor lhe pareça, desde que os excessos sejam evitados. Pedro sorriu e explicou ao ex -rabino seus novos planos. Comentou, esperançoso, a idéia da coleta geral em favor da igreja de Jerusalém, e, evidenciando a peculiar prudência, fal ou preocupado: — Teu projeto de excursão e propaganda da Boa Nova, procurando angariar alguns recursos para solução de nossos mais sérios encargos, causa me justa satisfação; entretanto, venho refletindo na situação da igreja antioquena. Pelo que observei de viso, concluo que a instituição necessita de servidores dedicados que se subs tituam nos trabalhos constantes de cada dia. Tua ausência, ao demais com Barnabé, trará dificuldades, caso não tomemos as providências precisas. Eis por que te ofereço a coop eração de dois companheiros devotados, que me têm substituído aqui nos encargos mais pesados. Trata-se de Silas e Barsabás, dois discípulos amigos da gentilidade e dos princípios liberais. De vez em quando, entram em desacordo com Tiago, como é natural, e, segundo creio, serão ótimos auxiliares do teu programa. Paulo viu no alvitre a providência que desejava. Junto de Barnabé, que participava da conversação, agra deceu ao ex-pescador, profundamente sensibilizado. A igreja da Antioquia teria os recursos nece ssários que os trabalhos evangélicos requeriam. A medida proposta era -lhe muito grata, mesmo porque, desde logo tivera por Silas grande simpatia, presumindo nele um companheiro leal, expedito e dedicado. Os missionários de Antioquia ainda se demoraram três dias na cidade, após o encerramento do conselho, tempo esse que Barnabé aproveitou para repousar em casa da irmã. Paulo, contudo, declinou do convite de Maria Marcos e permaneceu na igreja, estudando a si tuação futura, em companhia de Simão Pedro e dos dois novos colaboradores. Em atmosfera de grande harmonia, os trabalhadores do Evangelho versaram todos os requisitos do projeto. Fato digno de nota a reclusão de Paulo, junto aos Apóstolos galileus, jamais saindo à rua, para não entrar em contacto com o ce nário vivo do seu passado tumultuoso. Finalmente, tudo pronto e ajustado, a missão se dispôs a regressar. Havia em todas as fisionomias um sinal de gratidão e de esperança santificada nos dias do porvir. Verificava -se, no entanto, um detalhe curioso, que é indispensável destacar. Solicitado pela irmã, Bar nabé dispusera-se a aceitar a contribuição de João Mar cos, em nova tentativa de adaptação ao serviço do Evangelho. Considerando a boa intenção com que ace dera aos pedidos da irmã, o ex-levita de Chipre achou desnecessário consultar o companheiro de esforços comuns. Paulo, porém, não se magoou. Acolheu a resolu ção de Barnabé, um tanto admirado, abraçou o jovem afetuosamente e esperou que o discípulo de Pedro se pro nunciasse, quanto ao futuro. O grupo, acrescido de Silas, Barsabás e João Mar cos, pôs-se a caminho para Antioquia, nas melhores disposições de harmonia. Revezando-se na tarefa de pregação das verdades eternas, anunciavam o Reino de Deus e faziam curas por onde passavam. Chegados ao destino, c om grandes manifestações de júbilo da gentilidade, organizaram o plano colimado para dar -lhe imediata eficiência. Paulo expôs o propósito de voltar às comunidades cristãs já fundadas, estendendo a excursão evangélica por outras regiões onde o Cristia nismo não fosse conhecido. O plano mereceu aprovação geral. A instituição antioquena ficaria com a cooperação direta de Barsabás e Silas, os dois companheiros devotados que, até ali, haviam constituído duas fortes colunas de trabalho em Jerusalém. Apresentado o relatório verbal dos esforços em pers pectiva, Paulo e Barnabé entraram a cogitar das últimas disposições particulares. — Agora — disse o ex-levita de Chipre —, espero concordes com o que resolvi relativamente a João. — João Marcos? — interrogou Paulo adm irado. — Sim, desejo levá-lo conosco, a fim de afeiçoá -lo à tarefa. O ex-rabino franziu o sobrecenho num gesto muito seu, quando contrariado, e exclamou: — Não concordo; teu sobrinho está ainda muito jovem para o cometimento. — Entretanto, prometi à minha irmã acolhê-lo em nossos labores. — Não pode ser. Estabeleceu-se entre os dois uma contenda de pala vras, na qual Barnabé deixava perceber seu descontentamento. O ex -rabino procurava justificar -se, ao passo que o discípulo de Pedro alegava o compromisso as sumido e impugnava, com tal ou qual amargura, a atitude do companheiro, O ex -doutor, contudo, não se deixou convencer. A readmissão de João Marcos, dizia, não era justa. Poderia falhar novamente, fugir aos compromissos assumidos, desprezar a oportunidade do sacrifício. Lembrava as per seguições de Antioquia de Pisídia, as enfermidades ine vitáveis, as dores morais experimentadas em Icônio, o apedrejamento cruel na praça de Listra. Acaso o rapaz estaria preparado, em tão pouco tempo, para compreen der o alcance de todos esses acontecimentos, em que a alma era compelida a regozijar -se com o testemunho? Barnabé estava magoado, de olhos úmidos. — Afinal, disse em tom comovedor, nenhum desses argumentos me convence e me esclarece, em consciência. Primeiramente, não vejo por que desfazer nossos laços afetivos... O ex-rabino não o deixou terminar e concluiu: — Isso nunca. Nossa amizade está muito acima destas circunstâncias. Nossos elos são sagrados. — Pois bem — acentuou Barnabé —, como interpretar, então, tua recusa? Por que negarmos ao rapaz uma nova experiência de trabalho regenerativo? Não será falta de caridade desprezar um ensejo talvez pro videncial? Paulo fixou demoradamente o amigo e acrescentou: — Minha intuição, neste sentido, é diversa da tua. Quase se mpre, Barnabé, a amizade a Deus é incompatí vel com a amizade ao mundo. Levantando -nos para a execução fiel do dever, as noções do mundo se levantam contra nós. Parecemos maus e ingratos. Mas, ouve -me: ninguém encontrará fechadas as portas da oportunidade, porque é o Todo-Poderoso quem no-las abre. A ocasião é a mesma para todos, mas os campos devem ser dife rentes. No trabalho propriamente humano, as experiên cias podem ser renovadas todos os dias. Isso é justo. Mas considero que, no serviço do Pai, se int errompemos a tarefa começada, é sinal de que ainda não temos todas as experiências indispensáveis ao homem completo. Se a criatura ainda não sabe todas as noções mais nobres, relativas à sua vida e deveres terrestres, como consa grarse com êxito ao serviç o divino? Naturalmente que não podemos ajuizar se este ou aquele já terminou o curso de suas demonstrações humanas e que, de hoje por diante, esteja apto ao serviço do Evangelho, porque, neste particular, cada um se revelará por si. Creio, mes mo, que teu sobrinho atingirá essa posição, com mais algumas lutas. Nós, entretanto, somos forçados a considerar que não vamos tentar uma experiência, mas um testemunho. Compreendes a diferença? Barnabé compreendeu o imenso alcance daquelas razões concisas, irrefutáveis, e calou-se para dizer daí a momentos: — Tens razão. Desta vez não poderei, portanto, ir contigo.
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Capítulo 5
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