Os Aïssaouas – Ou os convulsionários da Rua Le Peletier
Vimos um outro manter na boca carvões de pedra em brasa, grandes como ovos, cuja combustão ativava pelo sopro, passeando ao redor da sala e lançando chispas. Era fogo tão real que vários espectadores com ele acenderam seus charutos. Aqui não se trata, pois, de golpes de mágica, de simulacros, nem de malabarismos, mas de fatos positivos; de um fenômeno fisiológico que confunde as mais vulgares noções da Ciência. Entretanto, por mais estranho que seja, não pode ter senão uma causa natural. O que é mais estranho ainda é que a Ciência parece não lhe haver prestado a menor atenção. Como é que sábios, que passam a vida procurando as leis da vitalidade, ficam indiferentes à vista de semelhantes fatos e não buscam suas causas? Julgam-se dispensados de qualquer explicação, dizendo que “são meros convulsionários, como os havia no século passado.” Seja, estamos de acordo. Mas, então, explicai o que se passava com os convulsionários. Já que os mesmos fenômenos se produzem hoje, aos nossos olhos, diante do público, que qualquer um pode ver e tocar, então não era uma comédia. Esses pobres convulsionários, dos quais tanto zombaram, não eram, então, prestidigitadores e charlatães, como o pretenderam? Os mesmos efeitos, repetindo-se à vontade, por infiéis, em nome de Alá e de Maomé, não são, pois, milagres, como outros pensaram? Dirão que são iluminados; seja, ainda; mas, então, seria preciso explicar o que é ser iluminado. É preciso que a iluminação não seja uma qualidade tão ilusória quanto supõem, desde que seria capaz de produzir efeitos materiais tão singulares; em todo o caso, seria uma razão a mais para o estudar com cuidado. Uma vez que esses efeitos não são milagres, nem jogos de mágica, deve-se concluir que são efeitos naturais, cuja causa é desconhecida, mas que sem dúvida pode ser encontrada. Quem sabe se o Espiritismo, que já nos deu a chave de tantas coisas incompreendidas, não nos dará ainda esta? É o que examinaremos num próximo artigo.
TAG Valor
Mês Janeiro
Ano 1868