Segundo estarão informados, dispomos no recinto de vigoroso operador mediúnico, sem iluminação interior de maior vulto. Assalariou ele algumas dezenas de Espíritos desencarnados, de educação iniciante, que lhe absorvem as emanações e trabalham cegamente sob suas ordens, tanto para o bem quanto para o mal. Sorrindo, acrescentou:
— Nesta casa, o enfermo não é amparado pelo socorrista de que se vem valer e, sim, pela assistência espiritual edificante de que possa desfrutar. E porque eu indagasse, com respeito ao doente, explicou, gentil:
— Este companheiro é austero administrador de serviços públicos. Na condição de mordomo e disciplinador, incapaz de usar o algodão da ternura em feridas alheias, adquiriu ódios gratuitos e silenciosas perseguições que lhe vergastam a mente, sem cessar, desde muitos anos, com perigosos reflexos no sistema circulatório, zona menos resistente do seu cosmos físico. Lutando, desassombrado, por reajustar a concepção de funcionários relapsos, mas sem armas de amor na própria defensiva, apresenta consideráveis prejuízos nas veias coronárias. Semelhantes ataques de forças imponderáveis visaram-lhe igualmente o fígado e o baço, que se revelam em lamentáveis condições. Acontece, porém, que a grande corrente de perseguidores, despertados por sua ação enérgica e educativa, conseguiu insinuar nos médicos, que o assistem, a necessidade de uma intervenção na vesícula biliar, preparando-se-lhe, com isso, um choque operatório, que lhe imporá a morte inesperada do corpo. O plano foi admiravelmente bem delineado. Entretanto, pelo bem que existe no fundo da severidade com que o nosso companheiro tem agido, buscaremos socorrê-lo através do médium que deliberou visitar. Recebi instruções, no sentido de obstar a operação cirúrgica e confio na vitória de minha tarefa. Francamente, eu gostaria de levar a efeito um exame no paciente, para verificar até que ponto havia sofrido os golpes mentais em serviço, mas o olhar de Gúbio se fizera imperativo. Cabia-nos a execução de deveres importantes e precisávamos retornar ao Saldanha. O problema de Margarida era complexo e competia-nos enfrentar-lhe a solução, de ânimo firme. O obsessor da infortunada senhora, sentindo-nos o concurso espontâneo, acolheu-nos sem desconfiança. Assumindo ares de pessoa superinteligente, comunicou ao nosso Instrutor que resolvera solicitar a neutralidade dos servos espirituais do professor operante. Com fina sagacidade asseverou que era necessário evitar a piedade do médium e confundir-lhe as observações, através de todos os recursos possíveis. Em seguida à elucidação que me surpreendeu, rogou a presença de um dos colaboradores mais influentes e apareceu diante de nós a esquisita figura de um anão de semblante enigmático e expressivo. Expedito, Saldanha pediu-lhe cooperação sem rebuços, esclarecendo que o operador da casa não deveria penetrar o problema de Margarida, na intimidade. Prometia-lhe, em troca do favor, não só a ele, mas também a outros auxiliares no assunto excelente remuneração em colônia não distante. E descreveu-lhe, com largas promessas, quanto lhe poderia proporcionar em regalo e prazeres no cortiço de entidades perturbadas e ignorantes, onde conhecêramos Gregório. O serviçal manifestou indisfarçado contentamento e assegurou que o médium não perceberia patavina. Com justificada curiosidade, acompanhei o desenrolar dos acontecimentos. Logo à entrada do gabinete, percebi que a oficina não inspirava segura confiança. O professor pôs-se imediatamente a combinar o preço do trabalho de que se encarregaria, exigindo adiantadamente de Gabriel significativo pagamento. O intercâmbio ali, entre as duas Esferas, se resumia a negócio tão comum quanto outro qualquer. Sem detença, reconheci que o médium, se podia controlar, de algum modo, os Espíritos que se alimentavam de seu esforço, era também facilmente controlado por eles. O recinto jazia repleto de entidades em fase primária de evolução. Saldanha, excessivamente atarefado, anunciou-nos que presidiria, de perto, aos trâmites da ação mediúnica, notificando-nos, prazeroso, que lhe fora hipotecada plena ajuda das entidades ali dominantes. Em razão disso, podíamos analisar os fatos, em companhia de Gúbio, recolhendo preciosa lição. Depois de visivelmente satisfeito no acordo financeiro estabelecido, colocou-se o vidente em profunda concentração e notei o fluxo de energias a emanarem dele, através de todos os poros, mas muito particularmente da boca, das narinas, dos ouvidos e do peito. Aquela força, semelhante a vapor fino e sutil, como que povoava o ambiente acanhado e reparei que as individualidades de ordem primária ou retardadas, que coadjuvavam o médium em suas incursões em nosso Plano, sorviam-na a longos haustos, sustentando-se dela, quanto se nutre o homem comum de proteína, carboidratos e vitaminas. Examinando a paisagem, Gúbio esclareceu-nos em voz imperceptível aos demais:
— Esta força não é patrimônio de privilegiados. É propriedade vulgar de todas as criaturas, mas entendem-na e utilizam-na somente aqueles que a exercitam através de acuradas meditações. É o “spiritus subtilissimus” de Newton, o “fluido magnético” de Mesmer e a “emanação ódica” de Reichenbach. No fundo, é a energia plástica da mente que a acumula em si mesma, tomando-a ao fluido universal em que todas as correntes da vida se banham e se refazem, nos mais diversos reinos da natureza, dentro do Universo. Cada ser vivo é um transformador dessa força, segundo o potencial receptivo e irradiante que lhe diz respeito. Nasce o homem e renasce, centenas de vezes, para aprender a usá-la, desenvolvê-la, enriquecê-la, sublimá-la, engrandecê-la e divinizá-la. Entretanto, na maioria das vezes, a criatura foge à luta que interpreta por sofrimento e aflição, quando é inestimável recurso de autoaprimoramento, adiando a própria santificação, caminho único de nossa aproximação do Criador. Vendo a cena que se desenrolava, ponderei:
— É forçoso convir, porém, que este vidente é vigoroso na instrumentalidade. Permanece em perfeito contato com os Espíritos que o assistem e que encontram nele sólido sustentáculo.
— Sim, — confirmou o orientador, sereno, — mas não vemos aqui qualquer sinal de sublimação na ordem moral. O professor de relações com a nossa Esfera, inabordável, por enquanto, ao homem comum, sintoniza-se com as emissões vibratórias das entidades que o acompanham em posição primitivista, pode ouvir-lhes os pareceres e registar-lhes as considerações. Entretanto, isto não basta. Desfazer-se alguém do veículo de carne não é iniciar-se na divindade. Há bilhões de Espíritos em evolução que rodeiam os homens encarnados, em todos os círculos de luta, muito inferiores, em alguns casos, a eles mesmos e que, facilmente, se convertem em instrumentos passivos dos seus desejos e paixões. Daí, o imperativo de muita capacidade de sublimação para quantos se consagram ao intercâmbio entre os dois mundos, porque, se a virtude é transmissível, os males são epidêmicos. Nesse ínterim, reparamos que o médium, desligado do corpo físico, se punha a ouvir, atencioso, justamente a argumentação do assalariado mais inteligente, cuja cooperação Saldanha requisitara.
— Volte, meu amigo, — asseverava, jactancioso, ao médium desdobrado, — e diga ao esposo de nossa irmã doente que o caso orgânico é simples. Bastar-lhe-á o socorro médico.
— Não é uma obsidiada vulgar?
— Inquiriu o médium, algo hesitante.
— Não, não, isto não! Esclareça o problema. O enigma é de medicina comum. Sistema nervoso em frangalhos. Esta senhora é candidata aos choques da casa de saúde. Nada mais.
— Não seria lícito algo tentar em favor dela?! — Tornou o psiquista, sensibilizado. O interpelado riu-se numa tranquilidade de pasmar e rematou:
— Ora, ora, você deve saber que, individualmente, cada criatura tem o seu próprio destino. Se nosso concurso fosse eficiente, não teria gosto para tergiversações. Não há tempo a perder. A essa altura, Saldanha endereçava-lhe um sorriso de satisfação, aprovando o alvitre e fazendo-nos sentir como é possível enganar a muitos, quando o homem apenas confia na estreiteza da sua própria observação. Perante o quadro que nos era dado apreciar, ousei dirigir-me discretamente a Gúbio, indagando:
— Não nos achamos diante de autêntica manifestação espiritista?
— Sim, — confirmou em tom grave, — à frente de legítimo fenômeno dentro do qual uma individualidade encarnada recebe os pareceres de outra, ausente do envoltório carnal. Entretanto, André, os companheiros de ideal cristão, corporificados na Crosta da Terra, vão compreendendo agora que o fenômeno em si é tão rebelde quanto o rio encachoeirado que rola a esmo, sem comportas, sem disciplina. Jamais endossaremos um Espiritismo dogmático e intolerante. É imprescindível, porém, que o clima da prece, da renúncia edificante, do espírito de serviço e fé renovadora, através de padrões morais nobilitantes, constitua a nota fundamental de nossas atividades no psiquismo transformador, a fim de que nos encontremos, realmente, num serviço de elevação para o Supremo Pai. Temos aqui um médium de possibilidades ricas e extensas, que, pelo simples comércio vulgar a que reduziu a movimentação de suas faculdades, não acorda impressões construtivas naqueles que o buscam. Pode ser um cooperador valioso em certas circunstâncias, mas não é o trabalhador ideal, suscetível de provocar o interesse dos grandes benfeitores da Vida Superior.