Capítulo 5
É provável que o dom das línguas, conferido aos apóstolos, oferecesse analogias com o fenômeno que, sob o nome de xenoglossia, atualmente conhecemos. A luz ódica de Reichenbach e a matéria radiante explicam a auréola dos santos; as chamas ou “línguas de fogo”, que apareceram no dia de Pentecostes, reproduzem-se hoje em dia nos fatos comunicados ao Congresso Espiritualista de 1900 pelo Doutor Bayol, senador pelo Distrito das Bocas do Ródamo,(xxviii) e finalmente as visões dos mártires são fenômenos da mesma ordem que os em nosso tempo observados no momento da morte de certas pessoas.(xxix) Assim, também, o desaparecimento do corpo de Jesus do sepulcro em que fora depositado, pode explicar-se pela desagregação da matéria, observada há alguns anos em sessões de experimentação psíquica.(xxx) Durante muito tempo não viram nisso os homens senão fatos miraculosos, provocados pelo próprio Deus ou por seus anjos, opinião cuidadosamente alimentada pelos padres, a fim de impressionar a imaginação das massas e torná-las mais submissas ao seu poder. Nas Escrituras encontramos freqüentes exemplos dos erros de que foram objeto esses fenômenos. Em Patmos, João vê aparecer um gênio que, a princípio, ele quer adorar, mas que lhe afirma ser o Espírito de um dos profetas seu irmão.(xxxi) Nesse caso, foi dissipado o erro; o Espírito deu a conhecer a sua personalidade; em quantos outros casos, porém, não foi ele mantido? É o mesmo que se dá com a intervenção, tão freqüente, dos anjos da Bíblia. É preciso nos pôr em guarda contra as tendências dos judeus e dos cristãos no sentido de atribuir a Deus e aos seus anjos fenômenos produzidos pelos Espíritos dos mortos, e a cujo respeito competia à nossa época fazer a luz, restabelecendo-os em sua verdadeira categoria. Na época de Jesus, a crença na imortalidade estava enfraquecida. Os judeus achavam-se divididos a respeito da vida futura. Os cépticos saduceus aumentavam em número e influência. Vem Jesus. Torna mais amplas as vias de comunicação entre o mundo terrestre e o mundo espiritual. Aproxima a tal ponto os invisíveis dos humanos, que eles se podem novamente corresponder. Com mão possante levanta o véu da morte e surgem visões do âmago da sombra; no meio do silêncio fazem-se ouvir vozes; e essas visões e essas vozes vêm afirmar ao homem a imortalidade da vida. O Cristianismo primitivo afeta, pois, esse caráter particular de ter aproximado as duas humanidades, terrestre e celeste; tornou mais intensas as relações entre o mundo visível e o mundo invisível. Efetivamente, em cada grupo espírita, as pessoas se entregavam a evocações; havia médiuns falantes, inspirados, de efeitos físicos, como está escrito no capítulo XII da primeira epístola de Paulo aos Coríntios. Então, como hoje, certos sensitivos possuíam o dom da profecia, o dom de curar, o de expelir os maus Espíritos.(xxxii) Na Epístola citada, S. Paulo fala também do corpo espiritual, imponderável, incorruptível: “O homem é colocado na terra como um corpo animal, e ressuscitará como um corpo espiritual; do mesmo modo que há um corpo animal, há um corpo espiritual.” (I Coríntios, XV, 44) Fora um fenômeno espírita, a aparição de Jesus no caminho de Damasco, o que havia feito de S. Paulo um cristão;(xxxiii) Paulo não conhecera o Cristo e, no momento dessa visão, que decidiu do seu destino, bem longe estava de achar-se preparado para a sua ulterior tarefa. “Respirando sempre ameaças de morte contra os discípulos do Senhor”, munido contra eles de ordens de prisão, seguira para Damasco a fim de os perseguir. Nesse caso, não cabe invocar, como a respeito dos apóstolos se poderia fazer, um fenômeno de alucinação, provocado pela constante recordação do Mestre. Essa visão, ao demais, não foi isolada; em todo o subseqüente curso de sua vida, Paulo entreteve assíduas relações com o invisível, particularmente com o Cristo, de quem recebia as instruções indispensáveis à sua missão. Ele mesmo declara que haure inspirações nos colóquios secretos com o filho de Maria. S. Paulo não foi apenas assistido por Espíritos de luz, de que se fazia o porta-voz e o intérprete.(xxxiv) Espíritos inferiores por vezes o atormentavam, e era-lhe necessário resistir à sua influência.(xxxv) É assim que, em todos os meios, para educação do homem e desenvolvimento da sua razão, a luz e a sombra, a verdade e o erro se misturam. O mesmo se dá no domínio do moderno Espiritualismo, em que se encontram todas as ordens de manifestações, desde as comunicações do mais elevado caráter até os grosseiros fenômenos produzidos por Espíritos atrasados. Mas esses também têm a sua utilidade, do ponto de vista dos elementos de observação e dos casos de identidade que fornecem à Ciência. S. Paulo conhecia estas coisas. Lecionado pela experiência, ele advertia os profetas,(xxxvi) seus irmãos, a fim de se conservarem em guarda contra tais ciladas. E acrescentava em conseqüência: “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (1 Coríntios, XIV, 32), isto é, é preciso não aceitar cegamente as instruções dos Espíritos, mas submetê-las ao exame da razão. No mesmo sentido, dizia S. João: “Caríssimos, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus.” (I Epístola, IV, 1) Os “Atos dos Apóstolos” fornecem numerosas indicações acerca das relações dos discípulos de Jesus com o mundo invisível. Aí se vê como, observando as instruções dos Espíritos,(xxxvii) os apóstolos adquirem maior amplitude de visão das coisas; chegaram a não fazer mais distinções entre as carnes, a suprimir a barreira que separava dos gentios os judeus, a substituir a circuncisão pelo batismo.(xxxviii) As comunicações dos cristãos com os Espíritos dos mortos eram tão freqüentes nos primeiros séculos, que instruções positivas circulavam entre eles a esse respeito. Hermas, discípulo dos apóstolos, o mesmo que São Paulo manda saudar de sua parte em sua Epístola aos Romanos (XVI, 14), indica, em seu “Livro do Pastor”,(xxxix) os meios de distinguir os bons dos maus Espíritos. Nas linhas seguintes, escritas há mil e oitocentos anos, julgar-se-ia ter a descrição fiel das sessões de evocações, tais como, em muitos centros, se praticam em nossos dias: “O espírito que vem da parte de Deus é pacífico e humilde; afasta-se de toda malícia e de todo vão desejo deste mundo e paira acima de todos os homens. Não responde a todos os que o interrogam, nem às pessoas em particular, porque o espírito que vem de Deus não fala ao homem quando o homem quer, mas quando Deus o permite. Quando, pois, um homem que tem um espírito de Deus vem à assembléia dos fiéis, desde que se fez à prece, o espírito toma lugar nesse homem, que fala na assembléia como Deus o quer.” (É o médium falante.) “Reconhece-se, ao contrário, os espíritos terrestres, frívolos, sem sabedoria e sem força, no que se agita, se levanta e toma o primeiro lugar. É importuno, tagarela e não profetiza sem remuneração. Um profeta de Deus não procede assim.” Os Espíritos manifestavam, então, sua presença de mil modos, quer tornando-se visíveis,(xl) ou produzindo a desagregação da matéria, como o fizeram para libertar Pedro das cadeias que o prendiam e retirá-lo da prisão,(xli) quer ainda provocando casos de levitação.(xlii) Esses fenômenos eram, às vezes, tão impressionastes que até mágicos sentiam-se abalados, a ponto de se converterem.(xliii) Penetrados desse espírito de caridade e abnegação, que lhes transfundia o Cristo, os primeiros cristãos viviam na mais íntima solidariedade. “Tudo possuíam em comum” e “eram queridos de todo o povo”.(xliv) A revelação dos Espíritos continua muito tempo além do período apostólico. Durante os séculos II e III, os cristãos se dirigiam diretamente às almas dos mortos para decidir pontos de doutrina. S. Gregório, o taumaturgo, bispo de Neo-Cesareia, declara “ter recebido de João Evangelista, em uma visão, o símbolo da fé pregado por ele na sua igreja”.(xlv) Orígenes, esse sábio que S. Jerônimo considerava o grande mestre da Igreja, depois dos apóstolos, fala muitas vezes, em suas obras, da manifestação dos mortos. Em sua controvérsia com Celso, diz ele: “Não duvido de que Celso escarneça de mim; as zombarias, porém, não me impedirão de dizer que muitas pessoas têm abraçado o Cristianismo a seu pesar, tendo sido de tal modo seu coração repentinamente transformado por algum espírito, quer numa aparição, quer em sonho, que, em lugar da aversão que nutriam pela nossa fé, adotaram-na com amor até a ponto de morrer por ela. Tomo Deus por testemunha da verdade do que digo; Ele sabe que eu não pretendo recomendar a doutrina de Jesus-Cristo por meio de histórias fabulosas, mas com a verdade de fatos incontestáveis”.(xlvi) O imperador Constantino era pessoalmente dotado de faculdades mediúnicas e sujeito à influência dos Espíritos. Os principais sucessos de sua vida – sua conversão ao Cristianismo, a fundação de Bizâncio, etc. – assinalam-se por intervenções ocultas, do que se pode ter a prova nos seguintes fatos que vamos buscar à narrativa do Sr. Alberto de Broglie, imparcial e severo historiador, pouco inclinado ao misticismo:(xlvii) “Quando planejava apoderar-se de Roma, um impulso interior o induziu a se recomendar a algum poder sobrenatural e invocar a proteção divina, com apoio das forças humanas. Grande era, porém, o embaraço para um piedoso romano dessa época... A si mesmo ansiosamente perguntava de que Deus iria implorar a assistência. Caiu, então, em absorta meditação das vicissitudes políticas de que fora testemunha.” Reconhece que depositar confiança na multidão dos deuses traz infelicidade, ao passo que seu pai Constancio, secreto adorador do Deus único, terminara seus dias em paz. “Constantino decidiu-se a suplicar ao Deus de seu pai que prestasse mão forte à sua empresa”.
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Título Relações com os Espíritos dos Mortos