Carta de um defunto ao seu amigo
Nosso Senhor aproximou-se dele e um raio de seu espírito caiu nessa luz. Que felicidade para mim poder mergulhar nesta auréola e, retemperado por esta luz, estar em estado de inspirar à sua alma a esperança de um socorro próximo! Pareceu-me ouvir uma voz do fundo de sua alma, dizer-lhe: “Nada temas! Crê! desfrutarás a alegria de poder aliviar aqueles por quem acabas de pedir a Deus.” Levantou-se inundado de alegria depois da prece. No mesmo instante, fui atraído para um outro ser radioso, também em prece... Era a nobre alma de uma virgem, que orava e dizia: “Senhor! ensina-me a fazer o bem segundo a tua vontade.” Pude e ousei inspirar-lhe a seguinte idéia: “Não farei bem mandando a esse homem caridoso, que conheço, um pouco de dinheiro, para que o empregue ainda hoje em benefício de alguma família pobre?” Ela apegou-se a esta idéia com uma alegria infantil; recebeu-a como teria recebido um anjo descido do céu. Essa alma piedosa e caridosa reuniu uma soma considerável; depois escreveu uma cartinha muito afetuosa, dirigida àquele por quem acabava de orar, e que recebeu, assim como o dinheiro, apenas uma hora depois de sua prece, vertendo lágrimas de alegria e cheio de um profundo reconhecimento a Deus! Eu o segui, desfrutando eu mesmo uma felicidade suprema e alegrando-me em sua luz. Ele chegou à porta da pobre família. “Deus terá piedade de nós?” perguntou a piedosa esposa a seu piedoso marido. – “Sim, ele terá piedade de nós, como tivemos piedade dos outros.” – Ouvindo essa resposta do marido, aquele que tinha orado encheu-se de alegria; abriu a porta e, sufocado por sua ternura, mal pôde pronunciar estas palavras: “Sim, ele terá piedade de vós, como vós mesmos tivestes piedade dos pobres; eis uma prova da misericórdia de Deus. O Senhor vê os justos e ouve as suas súplicas.” Com que viva luz brilharam todos os assistentes, quando, depois de ter lido a cartinha, erguêramos os olhos e os braços para o céu! Massas de Espíritos se apressaram a chegar de todos os lados. Como nos alegramos! como nos abraçamos! Como todos louvamos a Deus e o bendissemos! como todos nos tornamos mais perfeitos, mais amantes! Tu, em breve brilharás outra vez; eu pude e ousei chegar junto a ti; tu tinhas feito três coisas que me conferiam o direito de aproximar-me de ti e de te alegrar. Tinhas derramado lágrimas de vergonha por tua cólera; tinhas refletido, ficando seriamente enternecido pelos meios de poder dominar-te; tinhas pedido sincero perdão àquele a quem a tua exaltação havia ofendido, e buscavas de que maneira poderias compensá-lo, proporcionando-lhe alguma satisfação. Essa preocupação restituiu a calma ao teu coração, a alegria aos teus olhos, a luz ao teu corpo. Podes julgar, por este exemplo, se estamos sempre bem instruídos do que fazem os amigos que deixamos na Terra, e quanto nos interessamos por seu estado moral. Agora também deves compreender a solidariedade que existe entre o mundo visível e o mundo invisível, e que depende de vós proporcionar-nos alegrias ou aflições. Oh! meu bem-amado, se te pudesses compenetrar desta grande verdade, que um amor nobre e puro encontra em si mesmo a sua mais bela recompensa; que os gozos mais puros, o gozo de Deus, não são senão o produto de um sentimento mais depurado, apressar-te-ias em te depurar de tudo o que é egoísmo. Doravante, jamais poderei escrever-te sem voltar a este assunto. Nada tem preço sem o amor. Só ele possui o golpe de vista claro, justo, penetrante, para distinguir o que merece ser estudado, o que é eminentemente verdadeiro, divino, imperecível. Em cada ser mortal e imortal, animado de um amor puro, nós vemos, com um inexprimível sentimento de prazer, refletir-se o próprio Deus, como vedes o Sol brilhar em cada gota de água pura. Todos os que amam, na Terra como no Céu, não fazem senão um pelo sentimento. É do grau do amor que depende o grau de nossa perfeição e de nossa felicidade interior e exterior. É o teu amor que regula tuas relações com os Espíritos que deixaram a Terra, tua comunicação com eles, a influência que podem exercer sobre ti e sua ligação íntima com o teu Espírito. Escrevendo-te isto, um sentimento de previsão, que jamais engana, ensina-me que neste momento te achas em excelente disposição moral, pois que meditas uma obra de caridade. Cada uma de tuas ações, de teus pensamentos, traz um cunho particular, instantaneamente compreendido e apreciado por todos os Espíritos desencarnados. Que Deus venha em teu auxílio! Escrevi-te isto em, 16 de dezembro de 1798 Seria supérfluo ressaltar a importância destas cartas de Lavater que, por toda parte, excitaram o mais vivo interesse. Elas atestam, de sua parte, não só o conhecimento dos princípios fundamentais do Espiritismo, mas uma justa apreciação de suas conseqüências morais. Apenas sobre alguns pontos parece ter tido idéias um pouco diferentes do que hoje sabemos, mas a causa dessas divergências que, aliás, prendem-se mais à forma do que ao fundo, é explicada na comunicação seguinte, por ele dada na Sociedade de Paris. Nós não as levantaremos, porque cada um as terá compreendido; o essencial era constatar que, muito antes do aparecimento oficial do Espiritismo, homens, cuja alta inteligência não poderia ser posta em dúvida, dele tiveram a intuição. Se não empregaram a palavra, é que esta não existia. Não obstante, chamaremos a atenção sobre um ponto, que poderia parecer estranho: é a teoria segundo a qual a felicidade dos Espíritos estaria subordinada à pureza dos sentimentos dos encarnados, e se acharia alterada pela mais leve imperfeição destes. Se assim fosse, considerando o que são os homens, não haveria Espíritos realmente felizes, e a felicidade verdadeira não existiria no outro mundo, como não existe na Terra. Os Espíritos devem sofrer tanto menos as imperfeições dos homens, quanto mais o sabem perfectíveis. Para eles os homens imperfeitos são como crianças, cuja educação não está feita, e na qual têm missão de trabalhar, eles que igualmente passaram pela fileira da imperfeição. Mas se se puser de lado o que o princípio desenvolvido nesta carta pode ter de muito absoluto, não se pode deixar de reconhecer um sentido muito profundo, uma admirável penetração das leis que regem as relações do mundo visível e do mundo invisível, e as nuanças que caracterizam o grau de adiantamento dos Espíritos encarnados ou desencarnados.
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Mês Maio
Ano 1868