Com efeito, admitamos por um instante a realidade dos números do autor: não seria o mais enérgico protesto contra as idéias atuais, que ruiriam no mundo inteiro ante a idéia emitida por um só homem, desconhecido até seis anos atrás? Não é reconhecer a força irresistível dessa idéia? Dizeis que ela tende a suplantar a religião e, para o provar, a apresentais adotada brevemente por vinte milhões, depois por quarenta milhões de habitantes, só na França; depois exclamais: “Não, a religião não pode perecer.” Mas se vossas previsões se realizarem, que ficará para a religião?
Façamos também uma pequena estatística das cifras, conforme o autor: na França, 36 milhões de habitantes; espíritas, 40 milhões; resta para os católicos menos 4 milhões, porque, em vossa opinião, não se pode ser católico e espírita. Se a Igreja é tão facilmente derrubada por um indivíduo com a ajuda de uma idéia extravagante, não é reconhecer que repousa sobre uma base muito frágil? Dizer que pode ser comprometida por um absurdo é fazer pouco caso do poder de seus argumentos e confessar o segredo de sua própria fraqueza. Onde, então, sua base inquebrantável?
Desejamos à Igreja um defensor mais forte e, sobretudo, mais lógico que o autor da brochura. Nada é mais perigoso do que um amigo imprudente.
Não se pensa em tudo. O autor não refletiu que, querendo nos denegrir, exalta a nossa importância, embora o meio que emprega vai justo contra seu objetivo. Sendo o dinheiro o deus de nossa época, àquele que o possuir em maior quantidade não faltam cortesãos, atraídos pela esperança do espólio. Os bilhões com que nos gratifica, longe de afastar de nós, poriam até os príncipes aos nossos pés. Que diria o autor se, considerando-se que não temos filhos, o fizéssemos nosso legatário de algumas dezenas de milhões? Acharia a fonte má? Isto seria capaz de fazê-lo dizer que o Espiritismo serve para alguma coisa.
Em sua opinião, uma das fontes de nossas rendas imensas é a Sociedade de Paris, que ele supõe ter ao menos 3.000 membros. Antes de mais, poderíamos perguntar-lhe com que direito vem imiscuir-se nos negócios particulares; mas passamos por cima. Já que se vangloria de tanta exatidão, e esta é necessária quando se quer provar com cifras, se ele se tivesse dado ao trabalho apenas de ler o relatório da Sociedade, publicado na Revista de junho de 1862, poderia ter feito uma idéia mais exata de seus recursos, e do que chama o orçamento do Espiritismo.
Colhendo as informações alhures, e não em sua imaginação, teria sabido que a Sociedade, classificada oficialmente entre as sociedades científicas, não é uma confraria nem uma congregação, mas simples reunião de pessoas que se ocupam do estudo de uma ciência nova, que aprofunda; que, longe de visar o número, mais prejudicial do que útil aos trabalhos, ela o restringe em vez de o aumentar, pela dificuldade de admissões; que, em vez de 3.000 membros, jamais teve cem; que não retribui nenhum de seus funcionários, nem presidentes, vice-presidentes ou secretários; que não emprega nenhum médium pago e sempre se levantou contra a exploração da faculdade mediúnica; que jamais recebeu um centavo dos poucos visitantes que admite e nunca abriu suas portas ao público; que, fora dos sócios contribuintes, nenhum espírita lhe é tributário; que os membros honorários não pagam qualquer quota; que entre ela e as outras sociedades espíritas não existe nenhuma filiação ou solidariedade material; que o produto das cotas jamais passa pelas mãos do presidente; que toda despesa, por menor que seja, não pode ser feita sem a deliberação do comitê; enfim, que seu orçamento de 1862 foi fechado graças a uma reserva de 429 fr. 40 c.
Esse fraco resultado invalida a crescente importância do Espiritismo? Não; ao contrário, prova que a Sociedade de Paris não é uma especulação para ninguém. E quando o autor procura excitar a animosidade contra nós, dizendo aos adeptos que eles se arruínam em nosso proveito, eles simplesmente responderão que é uma calúnia, porque nada se lhes pede e eles nada pagam. Poder-se-ia dizer o mesmo de todo o mundo e não se poderia devolver a outros o argumento do autor, com cifras mais autênticas que as suas? Quanto aos trinta mil assinantes da Revista nós os desejamos.
“Caluniai, caluniai – disse um autor – e sempre ficará alguma coisa.” Sim, certamente; sempre restará algo que, cedo ou tarde, recai sobre o caluniador.
Injúrias, calúnias, invenções manifestas, até a intromissão na vida privada, com vistas a lançar a desconsideração sobre um indivíduo e sobre uma numerosa classe de pessoas, essa brochura, que ultrapassou de muito todas as diatribes publicadas até hoje, tem todas as condições exigidas para ser levada à justiça. Não o fizemos, malgrado as solicitações que a respeito nos foram dirigidas, porque é uma sorte para o Espiritismo e não gostaríamos, à custa de injúrias ainda maiores, que ela não tivesse sido publicada.
Nossos adversários nada poderiam fazer de melhor para seu próprio descrédito, mostrando a que tristes expedientes se reduziram para nos atacar e a que ponto o sucesso das idéias novas os apavora. E, poderíamos dizer, os faz perder a cabeça.
O efeito dessa brochura foi provocar uma enorme gargalhada em todos os que nos conhecem, e estes são numerosos.
Quanto aos que não nos conhecem, ela lhes deve inspirar um vivo desejo de conhecer esse Nababo improvisado, que recolhe milhões mais facilmente do que se recolhem moedas, e a quem basta lançar uma idéia para fazer aderir a população de todo um império. Ora, como, segundo o autor, ele só atrai os tolos, resulta que este império é composto de tolos, de alto a baixo da escala. A história da Humanidade não oferece nenhum exemplo de semelhante fenômeno. Tivesse o autor sido pago para tal resultado e não se teria saído melhor. Assim, não temos de que nos queixar25.