Nosso templo doméstico, por isso, transformou-se num inferno em que não mais nos entendemos… Tudo agora é fracasso, desarmonia e insegurança… Que fazer de semelhante criatura?
— Compadeçamo-nos dela! Terrível ser-lhe-á o despertamento.
— Compaixão?
— E que outra melhor represália senão essa?
— Não seria mais justo situá-la na reparação dos próprios erros? Não seria mais certo relegá-la ao lugar escuro que merece? Áulus, porém, tomou-lhe a destra inquieta e esclareceu:
— Abstenhamo-nos de julgar. () Consoante a lição do Mestre que hoje abraçamos, o amor deve ser nossa única atitude para com os adversários. A vingança, Anésia, é a alma da magia negra. Mal por mal significa o eclipse absoluto da razão. E, sob o império da sombra, que poderemos aguardar senão a cegueira e a morte? Por mais aflitiva lhe seja a lembrança dessa mulher, recorde-a em suas preces e em suas meditações, por irmã necessitada de nossa assistência fraterna. Ainda não readquirimos nossa memória integral do passado e nem sabemos o que nos ocorrerá no futuro… Quem terá sido ela no pretérito? Alguém que ajudamos ou ferimos? Quem será para nós no porvir? Nossa mãe ou nossa filha? Não condene! O ódio é como o incêndio que tudo consome, mas o amor sabe como apagar o fogo e reconstruir. Segundo a Lei, o bem neutraliza o mal, que se transforma, por fim, em servidor do próprio bem. Ainda que tudo pareça conspirar contra a sua felicidade, ame e ajude sempre, porque o tempo se incumbirá de expulsar as trevas que nos visitam, à medida que se nos aumente o mérito moral. Anésia, assemelhando-se a uma criança resignada, pousou no benfeitor os olhos límpidos, como a prometer-lhe obediência, e Áulus, afagando-a, recomendou:
— Volte ao lar e use a humildade e o perdão, o trabalho e a prece, a bondade e o silêncio, na defesa de sua segurança. A mãezinha enferma e as filhinhas reclamam-lhe amor puro, tanto quanto o nosso Jovino, que voltará, mais experiente, ao refúgio de seu coração. Anésia ergueu a cabeça para o firmamento constelado de luz, pronunciando uma oração de louvor e, em seguida, tornou a casa. Vimo-la despertar no corpo carnal, de alma renovada, quase feliz… Enxugou as lágrimas que lhe banhavam o rosto e tentou ansiosamente recordar, ponto a ponto, a entrevista que tivera conosco. Em verdade, não conseguiu alinhar senão fragmentárias reminiscências, mas reconheceu-se reconfortada, sem revolta e sem amargura, como se mãos intangíveis lhe houvessem lavado a mente, conferindo-lhe uma compreensão mais clara da vida. Recordou Jovino e a mulher que o hipnotizava, compadecidamente, como pessoas a lhe exigirem tolerância e piedade. Profundo entendimento brotava-lhe agora do espírito. A compreensão da irmã superara o desequilíbrio da mulher. E pensava: “Que lhe adiantaria a revolta ou o desânimo, quando lhe competia a defesa do lar? Fazendo justiça com as próprias mãos, não prejudicaria aqueles que lhe constituíam a riqueza do coração?! Em qualquer parte, o escândalo é a ruína da felicidade… Não devia render graças a Deus por sentir-se na condição da esposa digna? Sim, decerto a pobre criatura que lhe perturbava o marido não havia acordado ainda para a responsabilidade e para o discernimento. Necessitava, pois, de compaixão e de amparo, ao invés de crítica e azedume…” Consolada e satisfeita, passou à medicação da genitora. Hilário, admirado, exaltou os méritos da oração, ao que Áulus enunciou:
— Em todos os processos de nosso intercâmbio com os encarnados, desde a mediunidade torturada à mediunidade gloriosa, a prece é abençoada luz, assimilando correntes superiores de força mental que nos auxiliam no resgate ou na ascensão. Indicando a dona da casa, agora em serviço no aposento, meu colega observou:
— Vemos, então, em nossa amiga preciosa mediunidade a desenvolver-se… — Como acontece a milhões de pessoas disse o orientador, — ela detém consigo recursos medianímicos apreciáveis, que podem ser inclinados para o bem ou para o mal, competindo-lhe a obrigação de construir dentro de si mesma a fortaleza de conhecimento e vigilância, na qual possa desfrutar, em pensamento, as companhias espirituais que mais lhe convenham à felicidade.
— E pela prece busca solução para os enigmas que lhe flagelam a existência… Áulus sorriu e ajuntou:
— Encontramos aqui precioso ensinamento acerca da oração… Anésia, mobilizando-a, não conseguiu modificar os fatos em si, mas logrou modificar a si mesma. As dificuldades presentes não se alteraram. Jovino continua em perigo, a casa prossegue ameaçada em seus alicerces morais, a velhinha doente aproxima-se da morte, entretanto, nossa irmã recolheu expressivo coeficiente de energias para aceitar as provações que lhe cabem, vencendo-as com paciência e valor. E um espírito transformado, naturalmente transforma as situações. O Assistente, contudo, interrompeu-se e lembrou-nos o horário de volta. Por solicitação de Teonília, examinou a doente e concluiu que a desencarnação de Dona Elisa estava próxima. Externei o desejo de analisar-lhe o campo orgânico; todavia, o instrutor recordou-nos a hora avançada e prometeu voltar conosco, em tarefa de assistência à velhinha na noite próxima.