O romance pode ser uma maneira de exprimir pensamentos espíritas sem se comprometer, porque o autor temeroso pode sempre responder à crítica zombeteira que não pretendeu senão fazer uma obra de fantasia, o que é certo para o grande número. Ora, tudo é permitido à fantasia. Mas, fantasia ou não, não deixa de ser uma das formas a favor da qual a idéia espírita pode penetrar nos meios onde não seria aceita sob uma forma séria.
O Espiritismo ainda é muito pouco, ou melhor, muito mal conhecido pela literatura, para ter fornecido assunto a tantas obras deste gênero. A principal, como se sabe, é a que Théophile Gautier publicou sob o nome de Espírita, e ainda se pode censurar o autor por se ter afastado, em vários pontos, da idéia verdadeira.
Uma outra obra de que igualmente falamos, e que sem ter sido feita especialmente visando o Espiritismo, a ele se liga de certo modo, é a do Sr. Elie Berthet, publicada em folhetim no Siècle, em setembro e outubro de 1865, sob o título de A Dupla Vista.
Aqui o autor dá provas de um conhecimento aprofundado dos fenômenos de que fala, e o seu livro alia a este mérito, o do estilo e de um interesse contínuo. É, ao mesmo tempo, moral e instrutivo.
A Segunda Vista, de X.-B. Saintine, publicada em folhetim no grande Moniteur, em fevereiro de 1864, é uma série de novelas que nem têm o fantástico impossível, nem o caráter lúgubre dos contos de Edgard Poë, mas a suave e graciosa simplicidade das cenas íntimas entre os habitantes deste e do outro mundo, nos quais o Sr. Saintine acreditava firmemente. Embora sejam histórias de fantasia, em geral pouco se afastam dos fenômenos que muitas pessoas puderam testemunhar. Aliás, sabemos que, em vida, o autor, que conhecemos pessoalmente, não era incrédulo nem materialista; as idéias espíritas lhe eram simpáticas, e o que escrevia era reflexo de seu próprio pensamento.
Séraphita, de Balzac, é um romance filosófico, baseado na doutrina de Swedenborg. Em Consuelo e na condessa de Rudofstadt, da Sra. George Sand, o princípio da reencarnação representa papel capital. O Drag, da mesma autora, é uma comédia representada, há alguns anos, no Vaudeville, e cujo enredo é inteiramente espírita. É fundado numa crença popular entre os marinheiros da Provença. Drag é um Espírito manhoso, mais malicioso que mau, que se diverte em pregar peças. É visto sob a figura de um jovem, exercendo sua influência e coagindo um indivíduo a escrever contra sua própria vontade. A imprensa, de ordinário tão benevolente para com essa escritora, mostrou-se severa com esta peça, que mereceria melhor acolhimento.
A França não tem o monopólio exclusivo deste gênero de produções. O Progrès colonial, da ilha Maurício, publicou em 1865, sob o título de Histórias do Outro Mundo, contadas pelos Espíritos, um romance que não ocupava menos de vinte e oito folhetins, cuja trama era toda feita pelo Espiritismo, e no qual o autor, Sr. de Germonville, dá provas de perfeito conhecimento do assunto.
Em alguns outros romances, a idéia espírita simplesmente fornece o tema dos episódios. O Sr. Aurélien Scholl, nos seus Novos Mistérios de Paris, publicados pelo Petit Journal, faz intervir um magnetizador, que interroga uma mesa pela tiptologia, depois uma moça posta em sonambulismo, cujas revelações deixam alguns assistentes em maus lençóis. A cena é bem apresentada e perfeitamente verossímil. (Petit Journal de 23 de outubro de 1866).
A reencarnação é uma das idéias mais fecundas para os romancistas, e que pode fornecer efeitos tanto mais surpreendentes quanto em nada se afastam das possibilidades da vida material. O Sr. Charles Barbara, jovem escritor morto há alguns meses numa casa de saúde, dela fez aplicação das mais felizes em seu romance intitulado Assassinato da Ponte Vermelha, que o Événement ultimamente reproduziu em folhetim.
O assunto principal é um agente de câmbio que fugia para o estrangeiro, levando a fortuna de seus clientes. Atraído por um indivíduo a uma casa miserável, sob o pretexto de favorecer-lhe a fuga, aí é assassinado, despojado e jogado no Sena, ajudado por uma mulher chamada Rosália, que morava na casa desse homem. O assassino agiu com tal prudência e soube tomar tão bem suas precauções, que todo traço do crime desapareceu e toda suspeita de assassinato foi afastada. Casou-se pouco depois com sua cúmplice Rosália e ambos puderam, daí por diante, viver na abastança, sem temer perseguição alguma, a não ser a do remorso, quando uma circunstância fez que suas angústias atingissem o mais alto grau. Eis como ele próprio a conta: “Esta quietude foi perturbada desde os primeiros dias de nosso casamento. A não ser que se exclua a intervenção direta de um poder oculto, forçoso é convir que o acaso aqui se mostrou estranhamente inteligente. Por maravilhoso que pareça o fato, não pensareis em pô-lo em dúvida, porque, também, nele tendes a prova viva em meu filho. Aliás, muitas pessoas não deixarão de aí ver um fato puramente físico e fisiológico e de o explicar racionalmente. Seja como for, de repente notei traços de tristeza no rosto de Rosália. Perguntei a razão. Ela evitou responder.
“Como no dia seguinte e nos outros sua melancolia só fizesse aumentar, supliquei-lhe que me tirasse da inquietação. Ela acabou me confessando uma coisa que não deixou de me comover no mais alto grau. Logo na primeira noite de nossas núpcias, em meu lugar, embora estivéssemos no escuro, ela tinha visto, mas visto mesmo, garantia, o rosto pálido do agente de câmbio.
Inutilmente tinha esgotado suas forças em rechaçar o que tomava a princípio por simples lembrança. O fantasma não saiu de seus olhos senão aos primeiros clarões da aurora. Além disso, o que realmente justificava seu pavor é que a mesma visão a tinha perseguido com uma tenacidade análoga durante várias noites seguidas.
“Afetei profundo desdém e tentei convencê-la de que tinha sido vítima de uma simples alucinação. Compreendi, pela tristeza que dela se apoderou e se transformou insensivelmente neste langor em que a vistes, que não tinha conseguido inculcar-lhe o meu sentimento. Uma gravidez penosa, agitada, equivalente a uma doença longa e dolorosa, piorou mais ainda esse mal-estar de espírito; e se um parto feliz, cumulando-a de alegria, teve influência salutar sobre o seu moral, foi de curta duração. Ainda mais, vi-me forçado a privá-la da felicidade de ter o filho ao seu lado, já que, em relação aos meus recursos oficiais, uma ama-de-leite morando em casa se me teria afigurado uma despesa superior às minhas posses.
“Comovidos pelos sentimentos de figurar dignamente numa pastoral, íamos ver nosso filho de quinze em quinze dias.
Rosália o amava até a paixão, e eu mesmo não estava longe de o amar com frenesi, porque, coisa singular! nas ruínas que se amontoavam em mim, só os instintos da paternidade ainda restavam de pé. Abandonava-me a sonhos inefáveis; prometia-me dar uma educação sólida ao meu filho, preservá-lo, se possível, de meus vícios, de minhas faltas, de minhas torturas. Ele era minha consolação, minha esperança.
“Quando digo eu, falo igualmente da pobre Rosália, que se sentia feliz à idéia de ver o filho crescer ao seu lado. Assim, quais não foram as nossas inquietações, a nossa ansiedade, quando, à medida que a criança se desenvolvia, percebemos em seu rosto as linhas que lembravam o de uma pessoa que desejaríamos esquecer para sempre. A princípio não passou de uma dúvida, sobre a qual guardamos silêncio, mesmo um em frente ao outro. Depois a fisionomia do menino aproximou-se a tal ponto da de Thillard, que Rosália me falou com espanto, que eu mesmo não podia ocultar senão em parte as minhas cruéis apreensões. Enfim, a semelhança se nos mostrou tal, que pareceu realmente que o agente de câmbio tivesse renascido em nosso filho.
“O fenômeno teria transtornado um cérebro menos sólido que o meu. Ainda muito firme para ter medo, pretendi ficar insensível ao golpe desferido em minha afeição paternal e fazer Rosália partilhar de minha indiferença. Sustentei que nisto havia apenas um acaso; acrescentei que nada havia de mais mutável que o rosto das crianças e que, provavelmente, a semelhança desapareceria com a idade. Finalmente, caso acontecesse o pior, sempre nos seria fácil manter a criança afastada. Falhei completamente. Ela se obstinou em ver na identidade dos dois rostos um fato providencial, o germe de um castigo atroz que, mais cedo ou mais tarde, devia esmagar-nos e, sob o império desta convicção, seu repouso foi abolido para sempre.
“Por outro lado, sem falar da criança, que era nossa vida? Vós mesmos pudestes ver a perturbação permanente, as agitações, os abalos, cada dia mais violentos. Quando todo traço de meu crime havia desaparecido, quando eu não tinha absolutamente mais nada a temer dos homens, quando a opinião a meu respeito tinha se tornado unanimemente favorável, em vez de uma segurança fundada na razão, eu sentia crescerem as minhas inquietações, as minhas angústias, os meus terrores. Eu mesmo me inquietava com as fábulas mais absurdas; no gesto, na voz, no olhar do primeiro que chegasse eu via uma alusão ao meu crime.
“As alusões me mantiveram incessantemente no cadafalso do carrasco. Lembrai-vos desta noite em que o Sr.