Carta do Sr. Monico ao Jornal Mahouna, de Guelma, Argélia
carta seguinte, que reproduzimos com prazer, dirigindo ao autor nossas mais sinceras felicitações. “Senhor diretor, “Acabo de ler um artigo no Indépendant, de Constantina, de 20 do corrente, apreciando o papel pouco delicado que teria representado um certo Sr. Home, segundo esse jornal (na Inglaterra), começando por estas linhas: ‘Os espíritas, sucessores dos feiticeiros da Idade Média, não se limitam mais a indicar aos imbecis, seus adeptos, tesouros ocultos: arranjam-se para os descobrir em seu proveito.’ Segue a apreciação, etc. “Permiti-me, senhor redator, servir-me do vosso honrado jornal para protestar energicamente contra o autor dessas linhas tão pouco literárias e tão ofensivas para os adeptos dessas novas idéias, idéias certamente muito desconhecidas, já que são tão falsamente apreciadas. “O Espiritismo sucede aos feiticeiros, como a astronomia sucedeu aos astrólogos. Quer dizer que esta ciência, hoje tão espalhada, que esclareceu o homem, dando-lhe a conhecer as imensidades siderais, que as religiões primitivas tinham conformado ao seu ideal e para servir aos seus interesses, esposou todas as elucubrações fantásticas e grosseiras dos astrólogos de outrora? Por certo não o pensais. “Do mesmo modo, o Espiritismo, tão caluniado pelos que não o conhecem, vem destruir os erros dos feiticeiros e revelar uma ciência nova à Humanidade. Vem explicar esses fenômenos até agora incompreendidos, que a ignorância popular atribuía ao milagre. “Longe de esposar as superstições de uma outra época, que os feiticeiros, os mágicos, etc., toda uma multidão de párias rebeldes à civilização, empregando esses meios a fim de explorar a ignorância e especular com os vícios, ele vem, digo eu, destruí-los e, ao mesmo tempo, trazer ao serviço do homem uma força imensa, muito superior a todas as trazidas pelos filósofos antigos e modernos. “Esta força é: conhecimento do passado e do futuro reservado ao homem, respondendo a estas perguntas: De onde venho? Para onde vou? “Esta dúvida terrível, que pesava sobre a consciência humana, o Espiritismo vem explicar, não só teoricamente e por abstração, mas materialmente, isto é, por provas acessíveis aos nossos sentidos, e fora de todo aforismo e sentença teológica. “As antigas opiniões, muitas vezes nascidas da ignorância e da fantasia, desaparecem pouco a pouco para dar lugar a convicções novas, fundadas na observação, e cuja realidade é das mais manifestas; o traço dos velhos preconceitos se apaga, e o homem mais refletido, estudando com mais atenção esses fenômenos reputados sobrenaturais, neles encontrou o produto de uma vontade, manifestando-se fora dele. “Em razão dessa manifestação, o Universo aparece, para o espírita, como um mecanismo conduzido por um número infinito de inteligências, um imenso governo em que cada ser inteligente tem a sua parte de ação sob o olhar de Deus, quer no estado de homem, quer no de alma ou Espírito. Para ele a morte não é um espantalho, que faz tremer, nem o nada; não é senão o ponto extremo de uma fase do ser e o começo de uma outra, isto é, muito simplesmente uma transformação. “Paro aqui, pois não tenho a pretensão de dar um curso de Espiritismo e, ainda menos, a de convencer o meu adversário. Mas não posso deixar ofenderem uma doutrina que proclama como princípio a liberdade de consciência e as máximas do mais depurado Cristianismo, sem protestar com toda a minha alma. “O Espiritismo tem por inimigos os que não o estudaram, nem na sua parte filosófica, nem na sua parte experimental; é por isso que o primeiro que aparece, sem se dar ao trabalho de esclarecer-se, arroga-se o direito, a priori, de o tratar de absurdo. “Mas, infelizmente para o homem, sempre foi assim, cada vez que surgiu uma nova idéia. Aí está a História para o provar. “Estando o Espiritismo de acordo com as ciências de nossa época (Vide A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo), seus mais autorizados representantes e todos os escritos saídos de seu seio declararam que ele estava pronto para aceitar todas as idéias baseadas nas verdades científicas e rejeitar todas as que fossem reconhecidas como eivadas de erro; numa palavra, ele quer marchar à frente do progresso humano. “Os adeptos desta doutrina, em vez de se ocultarem na sombra e de se reunirem nas catacumbas, procedem de modo inteiramente diverso. É em plena luz e publicamente que emitem suas idéias e se exercitam na prática de seus princípios. Na França a opinião espírita está representada por cinco revistas ou jornais; na Inglaterra, na Alemanha, na Itália e na Rússia, por quinze folhas hebdomadárias; nos Estados Unidos da América, esse país de liberdade e de progresso em todos os gêneros, por numerosos jornais ou revistas, e os adeptos do Espiritismo nesse país já se contam por milhões, adeptos que o autor do artigo do Indépendant, involuntariamente e sem reflexão, trata de imbecis. “Nossa época, tão distanciada dos atos de intolerância religiosa, que se ri das disputas teológicas e dos raios do Vaticano, deveria inspirar melhor o respeito às opiniões contrárias. “Aceitai, etc.” Jules Monico O mesmo jornal, de 17 de julho, contém outro artigo do Sr. Monico, que anuncia dever publicar uma série em resposta a alguns ataques dos antagonistas do Espiritismo. Aí vemos igualmente o anúncio, como estando no prelo, de uma brochura do mesmo autor, intitulada: Liberdade de consciência, e que deve aparecer na primeira quinzena do mês de agosto. Preço: 1 franco.
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Mês Agosto
Ano 1868