Fenômenos Psicofisiológicos das Pessoas que Falam de si Mesmas na Terceira Pessoa
Não poderia encontrar-se nesse fato a causa primeira da idéia fixa de certos alienados que se julgam reis? Se o tiverem sido em outra existência, pode ficar-lhes uma lembrança que lhes dê a ilusão. Isto não passa de uma suposição, mas, para os neófitos no Espiritismo, não é desprovida de verossimilhança. Dir-se-á que se tal causa é possível neste caso, ela não poderia aplicar-se aos que se julgam lobos ou porcos, uma vez que se sabe que o homem jamais foi animal. É verdade; mas o homem pode ter estado numa condição abjeta, que o obrigasse a viver entre os animais imundos ou selvagens. Aí talvez esteja a fonte dessa ilusão, que bem poderia, em alguns, ter-lhes sido imposta como punição dos atos de sua vida atual. Quando fatos da natureza desses de que estamos falando se apresentam; se, em vez de os assimilar sistematicamente às moléstias puramente corporais, seguíssemos atentamente todas as fases, com o auxílio dos dados fornecidos pelas observações espíritas, reconheceríamos sem dificuldade a dupla causa que lhes assinalamos, e compreenderíamos que não é com duchas, cauterizações e sangrias que podem ser remediados. O caso do Dr. Baudelocque encontra ainda sua explicação em causas análogas. Diz o artigo que ele não tinha a menor consciência de sua existência. Isto é um erro, porque não se julgava morto; apenas não tinha consciência de sua existência corpórea. Se se achasse num estado mais ou menos semelhante ao de certos Espíritos que, nos primeiros tempos após a morte, não crêem estar mortos e tomam o seu corpo pelo de um outro, a perturbação em que se encontram não lhes permite se dêem conta da situação. O que se passa com certos desencarnados pode acontecer com certos encarnados. É assim que o Dr. Baudelocque podia fazer abstração de seu corpo e dizer que não tinha mais cabeça, porque, efetivamente, o seu Espírito não mais possuía cabeça carnal. As observações espíritas oferecem numerosos exemplos desse gênero, projetando, assim, uma luz inteiramente nova sobre uma infinita variedade de fenômenos até hoje inexplicados, e inexplicáveis sem as bases fornecidas pelo Espiritismo. Restaria a examinar o caso do zuavo que perdera a memória dos substantivos. Mas este só pode ser explicado por considerações de ordem inteiramente diversa, que pertencem ao domínio da fisiologia orgânica. Os desenvolvimentos que ele comporta nos obrigam a consagrar-lhe um artigo especial, que publicaremos brevemente.
TAG Valor
Mês Agosto
Ano 1861