Capítulo 10
Bem-aventurados os aflitos, desde que não convertam a própria dor em azorrague de recriminações sobre a face alheia. Bem-aventurados os que choram, contudo, desfrutarão a divina bênção se não transformarem as próprias lágrimas em venenosa indução à preguiça. Bem-aventurados os sedentos de justiça, no entanto, para que o título celeste lhes exorne o espírito atormentado, será preciso se abstenham de demandas domésticas ou de querelas nos tribunais com que apenas agravariam os próprios débitos, ante a Lei. Bem-aventurados os humildes de espírito todavia, para que se adornem com o sublime talento, é indispensável não conduzam a própria modéstia ao caminho do orgulho em que se entregarão, desvairados, à crítica desairosa e à condenação sistemática dos companheiros que lhes partilham a senda. Bem-aventurados os misericordiosos, mas para que se ergam felizes, na execução da promessa, é imprescindível não façam da compaixão simples peça verbal, para discurso brilhante. Aflição com revolta chama-se desespero. Pranto com rebeldia é poça de fel. Sede de justiça com reivindicações apressadas é destrutiva exigência. Singela com reproches à alheia conduta é sistema de crueldade. Misericórdia sem esforço de auxílio é simples ornamento na boca. Cogitemos de assimilar as bem-aventuranças divinas, sem nos esquecermos, porém, de que todas elas traduzem atitudes da consciência e gestos do coração, porque só no coração e na consciência é que se fundamentam os alicerces do glorioso Reino de Deus.
TAG Valor
Nome do Capítulo OUVINDO O SERMÃO DO MONTE