Propagação do Espiritismo
Quando uma idéia não tem raízes pode lançar um brilho passageiro, semelhante a essas flores que fazemos desenvolver à força, mas que em breve, por falta de sustento, morrem e delas não mais se fala. Ao contrário, as que têm uma base séria crescem e persistem, terminando por identificar-se de tal modo com os nossos hábitos que mais tarde nos admiramos de um dia havermos passado sem elas Se o Espiritismo não foi secundado pela imprensa européia, dirão que o mesmo não ocorreu na América. Até certo ponto isso é verdade. Na América, como aliás em todos os lugares, existe uma imprensa geral e uma imprensa especial. A primeira, por certo, ocupou-se muito mais do Espiritismo do que entre nós, embora menos do que se pensa; ela também tem os seus órgãos hostis. Somente nos Estados Unidos, conta a imprensa especial com dezoito jornais espíritas, dos quais dez hebdomadários e vários de grande formato. A esse respeito, vê-se que estamos ainda bastante atrasados; mas lá, como aqui, os jornais especiais se destinam a pessoas especiais. É evidente que uma gazeta médica, por exemplo, não deverá ser pesquisada pelos arquitetos nem pelos homens da lei; da mesma forma um jornal espírita, com poucas exceções, não será lido senão pelos partidários do Espiritismo. O grande número de jornais americanos que tratam dessa matéria prova a expressiva quantidade de leitores que têm a alimentar. Muito fizeram, sem dúvida, mas em geral sua influência é puramente local; são, na maioria, desconhecidos do público europeu, e os nossos jornais muito raramente transcrevem alguns artigos seus. Dizendo que o Espiritismo propagou-se sem o apoio da imprensa, queríamos nos referir à imprensa geral, que se dirige a todos, àquela cuja voz impressiona diariamente milhões de ouvidos, que penetra nos mais obscuros recantos; àquela que permite ao anacoreta, na solidão do deserto, estar tão perfeitamente a par do que se passa no mundo quanto os habitantes das cidades; enfim, da que semeia idéias a mancheias. Que jornal espírita pode vangloriar-se de fazer ressoar os ecos do mundo? Fala às pessoas que têm convicção; não atrai a atenção dos indiferentes. Falamos, pois, a verdade, quando dizemos que o Espiritismo foi entregue às próprias forças; se, por si mesmo, já deu tão grandes passos, que será quando dispuser da poderosa alavanca da grande publicidade! Enquanto aguarda esse momento, vai plantando balizas por toda parte; seus ramos acharão pontos de apoio em todos os lugares e, finalmente, em toda parte encontrará vozes cuja autoridade imporá silêncio aos detratores. A qualidade dos adeptos do Espiritismo merece uma atenção particular. São recrutados nas camadas inferiores da sociedade, entre pessoas iletradas? Não; estes, pouco ou nada se preocupam; talvez apenas tenham ouvido falar do Espiritismo. As próprias mesas girantes neles encontraram poucos adeptos. Até o momento, os seus prosélitos pertencem às primeiras fileiras da sociedade, entre pessoas esclarecidas, homens de saber e de raciocínio; e, coisa notável, os médicos, que durante muito tempo promoveram uma guerra encarniçada ao magnetismo, aderem sem dificuldade a essa doutrina; entre nossos assinantes, contamos com um grande número deles, tanto na França quanto no estrangeiro, como os há também em grande maioria entre homens superiores sob todos os aspectos, notabilidades científicas e literárias, altos dignitários, funcionários públicos, oficiais generais, negociantes, eclesiásticos, magistrados, e outros, todos gente bastante séria para tomar como passatempo um jornal que, como o nosso, não prima por ser divertido e, principalmente, se acreditarem nele não encontrar senão fantasias. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas não é uma prova menos evidente dessa verdade, pela escolha das pessoas que reúne; suas sessões são acompanhadas com interesse constante, uma atenção religiosa e, podemos dizer, até mesmo com avidez; entretanto, só se ocupa de estudos graves, sérios, freqüentemente abstratos, e não de experiências destinadas a excitar a curiosidade. Falamos do que se passa sob os nossos olhos, não podendo, sob esse ponto de vista, dizer o mesmo de todos os centros que se ocupam do Espiritismo, porquanto, quase por toda parte, como haviam anunciado os Espíritos, o período de curiosidade alcança o seu declínio. Esses fenômenos nos fazem penetrar numa ordem de coisas tão grande, tão sublime que, ao lado dessas graves questões, um móvel que gira ou que dá pancadas é um brinquedo de criança: é o á-bê-cê da Ciência. Sabemos, aliás, a que nos atermos agora, no que concerne à qualidade dos Espíritos batedores e, em geral, dos que produzem efeitos materiais. Foram muito apropriadamente nomeados de saltimbancos do mundo espírita; eis por que nos ligamos menos a eles do que aos que nos podem esclarecer. Podemos distinguir, na propagação do Espiritismo, quatro fases ou períodos distintos: 1o O da curiosidade, no qual os Espíritos batedores hão desempenhado o papel principal para chamar a atenção e preparar os caminhos. 2o O da observação, no qual entramos, e que podemos chamar também de período filosófico. O Espiritismo é aprofundado e se depura, tendendo à unidade de doutrina e constituindo-se em Ciência. Virão em seguida: 3o O período de admissão, no qual o Espiritismo ocupará uma posição oficial entre as crenças oficialmente reconhecidas. 4 o O período da influência sobre a ordem social. A Humanidade, então sob a influência dessas idéias, entrará num novo caminho moral. Desde hoje essa influência é individual; mais tarde agirá sobre as massas, para a felicidade geral. Assim, de um lado, eis uma crença que, por si mesma, espalha-se pelo mundo inteiro, a pouco e pouco e sem os meios usuais de propaganda forçada; por outro lado, essa mesma crença finca raízes não nos estratos inferiores da sociedade, mas na sua parte mais esclarecida. Não haveria, nesse duplo fato, algo de muito característico e que devia fazer refletir todos quantos ainda consideram o Espiritismo um sonho vazio? Ao contrário de muitas outras idéias que vêm de baixo, informes ou desnaturadas, não penetrando senão com dificuldade nas camadas superiores, onde se depuram, o Espiritismo parte de cima e só chegará às massas desembaraçado das idéias falsas, inseparáveis das coisas novas. É preciso convir, entretanto, que, entre muitos adeptos, existe somente uma crença latente. O temor do ridículo entre uns, e noutros o receio de melindrar certas susceptibilidades os impedem de proclamarem alto e bom som as suas opiniões; isso é sem dúvida pueril; entretanto, nós os compreendemos perfeitamente. Não se pode pedir a certos homens aquilo que a Natureza não lhes deu: a coragem de desafiar o “que dirão disso?” Porém, quando o Espiritismo estiver em todas as bocas – e esse tempo não está longe – tal coragem virá aos mais tímidos. Sob esse aspecto uma mudança notável já vem se operando desde algum tempo; fala-se dele mais abertamente; já se arriscam, e isso faz abrir os olhos dos próprios antagonistas, que se interrogam se é prudente, no interesse de sua própria reputação, combater uma crença que, por bem ou por mal, infiltra-se por toda parte e encontra apoio no ápice da sociedade. Assim, o epíteto de loucos, tão largamente prodigalizado aos adeptos, começa a tornar-se ridículo; é um lugar-comum que se torna trivial, pois em breve os loucos serão mais numerosos que as pessoas sensatas, havendo mais de um crítico que já se colocou do seu lado. Finalmente, é o cumprimento do que anunciaram os Espíritos, ao dizerem: os maiores adversários do Espiritismo tornar-se-ão seus mais ardorosos partidários e propagandistas.
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Mês Setembro
Ano 1858