Resta-me ainda vos dar alguns conselhos – embora os vossos guias muitas vezes já vos tenham dado – mas que minha posição pessoal e a atual circunstância me aconselham a vos lembrar novamente. Meus amigos, aqui me dirijo a todos os espíritas, a todos os grupos, a fim de que nenhuma cisão, nenhuma dissidência, nenhum cisma venha surgir entre vós, mas, ao contrário, que uma crença solidária vos anime e vos reúna a todos, pois isto é necessário ao desenvolvimento de nossa doutrina benfazeja. Sinto uma espécie de vontade que me constrange a vos pregar a concórdia e a união, pois nisto, como em tudo, a união faz a força e tendes necessidade de ser fortaleza e união, a fim de que possais enfrentar as tempestades que se aproximam. E não só tendes necessidade de união entre vós, mas ainda com os vossos irmãos de todos os países. Eis por que vos concito a seguir o exemplo que vos deram os espíritas de Bordeaux, cujos grupos particulares formam, todos, os satélites de um grupo central; foi esse grupo central que pediu para entrar em comunhão com a Sociedade iniciadora de Paris, a primeira a receber os elementos de um corpo de doutrina e lançar as bases sérias para o estudo do Espiritismo, que todos nós, espíritas, professamos no mundo inteiro.
Sei que aquilo que vos digo aqui não será perdido; aliás, estou me referindo inteiramente aos conselhos que já recebestes, e ainda recebereis, dos vossos excelentes guias espirituais, que vos dirigirão nesta via salutar, pois é necessário que a luz se irradie do centro para a periferia e desta para o centro, a fim de que todos aproveitem e se beneficiem dos trabalhos de cada um. Aliás, é incontestável que, submetendo ao crisol da razão e da lógica todos os dados e todas as comunicações dos Espíritos, será fácil repelir o absurdo e o erro. Um médium pode ser fascinado, um grupo enganado; todavia, o controle severo dos outros grupos, a ciência adquirida e a autoridade moral dos chefes de grupos, bem assim as comunicações dos principais médiuns, que recebem um cunho de lógica e de autenticidade de nossos melhores Espíritos, rapidamente farão justiça aos ditados falsificados e astuciosos, emanados de uma turba de Espíritos enganadores, imperfeitos ou maus. Repeli-os impiedosamente, e a todos esses Espíritos que aconselham com exclusividade, pregando a divisão e o isolamento.
Quase sempre são Espíritos vaidosos e medíocres, que tendem a se impor aos homens fracos e crédulos, prodigalizando-lhes louvores exagerados, a fim de os fascinar e os manter sob domínio.
Geralmente são Espíritos sedentos de poder, que, déspotas públicos ou privados quando vivos, ainda querem ter vítimas para tiranizar após a morte. Meus amigos, desconfiai, em geral, das comunicações que trazem um caráter de misticismo ou de estranheza, ou que prescrevem cerimônias e atos bizarros; então há sempre um motivo de legítima suspeita. Por outro lado, ficai certos de que uma verdade, quando deve ser revelada à Humanidade, é, por assim dizer, instantaneamente comunicada em todos os grupos sérios, que possuem médiuns sérios.
Enfim, creio ser bom repetir que ninguém é médium perfeito se estiver obsidiado; a obsessão é um dos maiores escolhos, e há manifesta obsessão quando um médium não está apto a receber comunicações senão de um Espírito especial, por mais alto que este procure colocar-se. Em conseqüência, todo médium, todo grupo que se julguem privilegiados por comunicações que só eles podem receber, ou que estejam sujeitos a práticas que beiram a superstição, encontram-se indubitavelmente sob o império de uma obsessão muito bem caracterizada. Digo tudo isto, meus amigos, porque existem no mundo médiuns fascinados por pérfidos Espíritos. Desmascarai impiedosamente esses Espíritos, se ousarem ainda profanar nomes venerados, dos quais se apoderam como ladrões e se enfeitam orgulhosamente, como fazem os lacaios com as roupas dos patrões; pregai-os no pelourinho sem piedade, caso persistam em desviar do bom caminho os cristãos honestos, os espíritas zelosos, cuja boa-fé iludiram. Numa palavra, deixai-me repetir o que já aconselhei aos espíritas parisienses: é melhor repelir dez verdades por algum tempo, do que admitir uma única mentira, uma só teoria errônea, porque poderíeis, sobre essa teoria e essa mentira, edificar todo um sistema, que desmoronaria ao primeiro sopro da verdade, qual se fora um monumento edificado sobre areia movediça, ao passo que se hoje rejeitardes certas verdades, certos princípios, porque não vos são demonstrados com clareza, logo um fato brutal ou uma demonstração irrefutável virá firmar a sua autenticidade.
A João, a Irineu, a Blandina, bem como a todos os vossos Espíritos protetores incumbe a tarefa de vos prevenir doravante contra os falsos profetas da erraticidade. O grande Espírito emancipador que preside aos nossos trabalhos, sob o olhar do Todo-Poderoso, proverá a isso, podeis crer-me. Quanto a mim, embora esteja mais particularmente ligado aos grupos parisienses, virei algumas vezes entreter-me convosco e acompanharei sempre com interesse os vossos trabalhos particulares.
Esperamos muito da província lionesa, e sabemos que não faltareis, nem uns nem outros, às vossas respectivas missões.
Lembrai-vos de que o Cristianismo, trazido pelas legiões cesaristas, lançou, há quase dois mil anos, as primeiras sementes da renovação cristã em Vienne47 e Lyon, de onde se propagaram rapidamente à Gália do Norte. Hoje o progresso deve realizar-se numa radiação nova, isto é, do Norte ao Sul. À obra, pois, lioneses! É preciso que a verdade triunfe, e não é sem uma legítima impaciência que esperamos a hora em que soará a trombeta de prata, a nos anunciar o vosso primeiro combate e a vossa primeira vitória.
Permiti agora agradecer o recolhimento com que me ouvistes e a simpática acolhida que me concedestes. Que Deus Todo-Poderoso, Senhor de todos nós, vos conceda a sua benevolência, espalhando sobre vós e sobre o seu servo muito humilde os tesouros de sua infinita misericórdia. Adeus! Lioneses, eu vos bendigo!
Erasto