Capítulo 4
Em geral, não se encontram essas faculdades senão em seres de pureza e elevação de sentimento extraordinária; exigem preparo longo e minucioso. Os oráculos referidos por Heródoto, a propósito de Creso e da batalha de Salamina, provam que Delfos possuiu pessoas assim dotadas. Mais tarde, imiscuíram-se abusos nessa prática. A raridade das pessoas assim felizmente dotadas tornou os sacerdotes menos escrupulosos na sua escolha. Corrompeu-se e caiu em desuso a ciência adivinhatória. Segundo Plutarco, a desaparição dessa ciência foi considerada por toda a sociedade antiga como uma grande desgraça. Toda a Grécia acreditava na intervenção dos Espíritos em coisas humanas. Sócrates tinha o seu daimon ou Gênio familiar. Exaltados pela convicção de que potências invisíveis animavam seus esforços, os gregos, em Maratona e Salanitna, repeliram pelas armas a terrível invasão dos persas. Em Maratona, os atenienses acreditaram ver dois guerreiros, brilhantes de luz, combaterem em suas fileiras. Dez anos mais tarde, Pítia, sacerdotisa de Apolo, sob a inspiração dum Espírito, indicou a Temístocles, do alto da sua trípode, os meios de salvar a Grécia. Se Xerxes caísse vencedor, os asiáticos bárbaros apoderar-se-iam de toda a Hélade, abafando o seu gênio criador, fazendo recuar, dois mil anos talvez, o desabrochar da ideal beleza do pensamento. Os gregos, com um punhado de homens, derrotaram o imenso exército asiático e, conscientes do socorro oculto que os assistia, rendiam suas homenagens a Palas-Ateneu, divindade tutelar, símbolo da potência espiritual, nessa sublime rocha da Acrópole, moldurada pelo mar brilhante e pelas linhas grandiosas do Pentélico e do Himeto. Para a difusão dessas idéias muito havia contribuído a participação nos Mistérios, pois desenvolvia nos iniciados o sentimento do invisível, que, então, sob formas diversas, se espalhava entre o povo. Na Grécia, no Egito e na Índia, consistiam os Mistérios em uma mesma coisa: o conhecimento do segredo da morte, a revelação das vidas sucessivas e a comunicação com o mundo oculto. Esse ensino, essas práticas, produziam nas almas impressões profundas; infundiam-lhes uma paz, uma serenidade, uma força moral incomparáveis. Sófocles chama aos Mistérios “esperança da morte”, e Aristófanes diz que passavam uma vida mais santa e pura os que neles tomavam parte. Recusava-se a admitir os conspiradores, os perjuros e os debochados. Porfiro escreveu: “Nossa alma, no momento da morte, deve achar-se como durante os Mistérios, isto é, isenta de paixão, de cólera e de ócio.” Pelos seguintes termos, Plutarco afirma que, nesse mesmo estado, conversava-se com as almas dos defuntos: “Na maior parte das vezes, intervinham nos Mistérios excelentes Espíritos, embora, em algumas outras, procurassem os perversos ali se introduzirem.” Proclo também acrescenta:(xxxii) “Em todos os Mistérios, os deuses (aqui, significa esta palavra todas as ordens de espíritos) mostram-se de muitas maneiras, aparecem sob grande variedade de figuras e revestem a forma humana.” A doutrina esotérica era um laço de união entre o filósofo e o padre. Eis o que explica a sua harmonia em comum e a ação medíocre que o sacerdócio teve na civilização helênica. Essa doutrina ensinava os homens a dominarem as suas paixões e desenvolvia neles a vontade e a intuição. Por um exercício progressivo, os adeptos de grau superior conseguiam penetrar todos os segredos da Natureza, dirigir à vontade as forças em ação no mundo, produzir fenômenos de aparição sobrenatural, mas que, entretanto, eram simplesmente a manifestação natural das leis desconhecidas pelo vulgo. Sócrates e, mais tarde, Platão continuaram na Atica a obra de Pitágoras. Sócrates não quis jamais fazer-se iniciar, porque preferia a liberdade de ensinar a toda gente as verdades que a sua razão lhe havia feito descobrir. Depois da morte deste, Platão transportou-se ao Egito e ali foi admitido nos Mistérios. Voltando a conferenciar com os pitagóricos, fundou, então, a sua academia. Mas, a sua qualidade de iniciado não mais lhe permitia falar livremente e, nas suas obras, a grande doutrina aparece um tanto velada. Não obstante isso, encontram-se no Fedon e no Banquete a teoria das emigrações da alma e suas reencarnações, assim como a das relações entre os vivos e os mortos. Conhece-se, igualmente, a cena alegórica que Platão colocou no fim da sua República. Um gênio tira, de sobre os joelhos das Parcas, os destinos, as diversas condições humanas, e exclama: “Almas divinas! entrai em corpos mortais; ide começar uma nova carreira. Eis aqui todos os destinos da vida. Escolhei livremente; a escolha é irrevogável. Se for má, não acuseis por isso a Deus.” Essas crenças tinham penetrado no mundo romano, pois Cícero a elas se refere, no Sonho de Cipião (capítulo III), bem como Ovídio, nas suas Metamorfoses (capítulo XV). No sexto livro da Eneida, de Virgílio, vê-se que Enéias encontra nos Campos Elíseos seu pai Anquises, e aprende deste a lei dos renascimentos. Todos os grandes autores latinos dizem que Gênios familiares assistem e inspiram os homens de talento.(xxxiii) Lucano, Tácito, Apuleio, e bem assim Filóstrato, o grego, em suas obras falam freqüentemente de sonhos, aparições e evocações de mortos. Em resumo, a doutrina secreta, mãe das religiões e das filosofias, reveste aparências diversas no correr das idades, mas sua base permanece imutável em toda parte. Nascida simultaneamente na Índia e no Egito, passa daí para o Ocidente com a onda das migrações. Encontramo-la em todos os países ocupados pelos celtas. Oculta na Grécia pelos Mistérios, ela se revela no ensino de mestres tais como Pitágoras e Platão, debaixo de formas cheias de sedução e poesia. Os mitos pagãos são como um véu de ouro que esconde em suas dobras as linhas puras da sabedoria délfica. A escola de Alexandria recolhe os seus princípios e infunde-os no sangue jovem e impetuoso do Cristianismo. Já o Evangelho, como a abóbada das florestas sob um sol brilhante, era iluminado pela ciência esotérica dos essênios, outro ramo dos iniciados. A palavra do Cristo havia bebido nessa fonte de água viva e inesgotável as suas imagens variadas e os seus encantos poderosos.(xxxiv) Assim é que, por toda parte, através da sucessão dos tempos e do rasto dos povos, se afirmam a existência e a perpetuidade de um ensino secreto que se encontra idêntico no fundo de todas as grandes concepções religiosas ou filosóficas. Os sábios, os pensadores, os profetas dos templos e dos países mais diversos, nele acharam a inspiração e a energia que fazem empreender grandes coisas e transformar almas e sociedades, impelindo-as para frente na estrada evolutiva do progresso. Há aí como que uma grande corrente espiritual que se desenrola misteriosamente nas profundezas da História, e parece sair desse mundo invisível que nos domina, nos envolve, e onde vivem e atuam ainda os grandes Espíritos que têm servido de guias à Humanidade, e que jamais cessaram de com ela comunicar-se.
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Título A Grécia
Parte Primeira
Título da Parte Crenças e Negações