Capítulo 4
“Os demônios são Espíritos puros, e os condenados, presentemente no inferno, podem também ser considerados Espíritos puros, visto que só a alma aí desce, já que os restos mortais, entregues à terra, se transformam em ervas, plantas, frutos, minerais, líquidos, sofrendo inconscientemente as metamorfoses constantes da matéria. Mas os condenados, assim como os santos, devem ressuscitar no dia do juízo final, retomando, para não mais deixá-los, os mesmos corpos carnais que os revestiam e sob os quais eram conhecidos quando viviam na Terra. Os eleitos ressuscitarão, porém, em corpos depurados e radiosos, e os condenados em corpos maculados e desfigurados pelo pecado. Isto os distinguirá. Portanto, não haverá no inferno somente Espíritos puros, mas homens como nós. Conseguintemente, o inferno é um lugar físico, geográfico, material, visto que será povoado por criaturas terrenas, dotadas de pés, mãos, boca, língua, dentes, ouvidos, olhos semelhantes aos nossos, sangue nas veias e nervos sensíveis à dor. Onde estará situado esse inferno? Alguns doutores o têm colocado nas próprias entranhas do nosso globo; outros, não sabemos em que planeta; a questão, contudo, ainda não foi resolvida por nenhum concílio. Estamos, pois, quanto a este ponto, reduzidos a meras hipóteses; a única coisa positiva é que esse inferno, onde quer que se encontre, é um mundo composto de elementos materiais, embora sem Sol, sem Lua, sem estrelas, mais triste e inóspito do que a Terra, desprovido de todo germe e das aparências benéficas que porventura se encontram ainda nas regiões mais áridas deste mundo em que pecamos. Os teólogos mais reservados não se atrevem, à semelhança dos egípcios, dos hindus e dos gregos, a descrever todos os horrores dessa morada, limitando-se a no-la apresentar como amostra do pouco que dela fala a Escritura, o lago de fogo e enxofre do Apocalipse e os vermes de Isaías, esses vermes que formigam eternamente sobre os cadáveres do Tofel, e os demônios atormentando os homens aos quais eles perderam, e os homens a chorarem, rangendo os dentes, segundo a expressão dos evangelistas. Santo Agostinho não concorda que esses sofrimentos físicos sejam apenas reflexos de sofrimentos morais e vê, num verdadeiro lago de enxofre, vermes e verdadeiras serpentes saciando-se em todas as partes do corpo dos condenados, associando suas picadas às do fogo. Ele pretende mais, segundo um versículo de Marcos, que esse fogo estranho, embora material como o nosso e atuando sobre corpos materiais, os conservará como o sal conserva a carne das vítimas. Os condenados sentirão a tortura desse fogo que queima sem consumir, penetrando-lhes a pele; serão embebidos dele e saturados em todos os seus membros, na medula dos ossos, na pupila dos olhos e nas fibras mais ocultas e sensíveis do seu ser. A cratera de um vulcão, se aí pudessem submergir, ser-lhes-ia lugar de refrigério e repouso. Assim falam com toda a segurança os teólogos mais tímidos, discretos e comedidos; não negam que haja no inferno outros suplícios corporais, mas dizem que para afirmá-lo lhes falta suficiente conhecimento, pelo menos tão positivo como o que lhes foi dado sobre o terrível suplício do fogo e dos vermes. Há, contudo, teólogos mais ousados ou mais esclarecidos que dão do inferno descrições mais detalhadas, variadas e completas. E embora não se saiba em que lugar do Espaço está situado esse inferno, há santos que o viram. Eles não foram lá com a lira na mão, como Orfeu,⁴¹ ou de espada em punho, como Ulisses,⁴² mas transportados em Espírito. Santa Teresa⁴³ é desse número. De acordo com a narrativa da santa, haveria cidades no inferno; ela aí viu, pelo menos, uma espécie de viela longa e estreita como essas que existem em velhas cidades; percorreu-a horrorizada, caminhando sobre terreno lodoso e fétido, no qual pululavam monstruosos répteis. Foi, porém, detida em sua marcha por uma muralha que interceptava a viela; abrigou-se num nicho da muralha, sem saber explicar a ocorrência. Era, diz ela, o lugar que lhe destinavam se abusasse, em vida, das graças concedidas por Deus em sua cela de Ávila. Apesar da facilidade maravilhosa que tivera em penetrar esse nicho de pedra, não podia sentar-se, ou deitar-se, nem se manter de pé. Tampouco podia sair. Essas paredes horríveis, abaixando-se sobre ela, envolviam-na, apertavam-na como se fossem animadas de movimento próprio. Parecia-lhe que a afogavam, estrangulando-a, ao mesmo tempo que a esfolavam viva e a retalhavam em pedaços. Ao sentir queimar-se, experimentou, igualmente, toda sorte de angústias. Sem esperança de socorro, tudo era trevas à sua volta, embora percebesse não sem pavor, através dessas trevas, a hedionda viela em que se achava, com a sua imunda vizinhança. Este espetáculo era-lhe tão intolerável quanto os apertos da prisão.⁴⁴ Esse não passava, certamente, de um pequeno recanto do inferno. Outros viajantes espirituais foram mais favorecidos. Viram grandes cidades no inferno completamente tomadas pelo fogo: Babilônia e Nínive, a própria Roma, com seus palácios e templos incendiados e seus habitantes acorrentados. Viram também traficantes em suas bancas, sacerdotes reunidos com cortesãos em salas de festim, chumbados às suas cadeiras e levando aos lábios, em gritos desesperados, rubras taças chamejantes; criados genuflexos em cloacas⁴⁵ ferventes, braços distendidos, e príncipes de cujas mãos escorria em lava devoradora o ouro derretido. Outros viram no inferno planícies sem-fim, cultivadas por camponeses famintos, que, nada colhendo desses campos fumegantes, dessas sementes estéreis, se entredevoravam, dispersando-se em seguida, tão numerosos como antes, magros, vorazes e em bando, indo procurar ao longe, em vão, terras mais felizes, sendo logo substituídos por outras colônias errantes de condenados. Há também os que viram no inferno montanhas repletas de precipícios, florestas que gemiam, poços secos, fontes alimentadas de lágrimas, rios de sangue, turbilhões de neve em desertos de gelo, barcas tripuladas por desesperados, singrando mares onde a terra nunca surgia. Em suma, viram tudo o que viam os pagãos: um lúgubre reflexo da Terra, com suas misérias grandemente aumentadas, seus sofrimentos naturais eternizados, e até calabouços, patíbulos e instrumentos de tortura forjados por nossas próprias mãos. Há, realmente, demônios que, para melhor atormentarem os homens em seus corpos, também tomam corpos. Uns têm asas de morcegos, chifres, couraças de escama, patas armadas de garras, dentes pontiagudos, a manejarem espadas, tenazes, pinças, grelhas, serras, foles, tudo ardente, não exercendo outro ofício por toda a eternidade, em relação à carne humana, senão o de carniceiros e cozinheiros; outros, transformados em leões ou víboras enormes, arrastam suas presas para cavernas isoladas; alguns se transformam em corvos para arrancar os olhos de certos culpados, enquanto outros se convertem em dragões volantes, prontos a se lançarem sobre o dorso das vítimas, arrebatando-as assustadiças, ensanguentadas, aos gritos, através de espaços tenebrosos, para arremessá-las por fim em tanques de enxofre. Aqui, nuvens de gafanhotos, de escorpiões gigantescos, cuja vista produz náuseas e calafrios e cujo contato provoca convulsões; além, monstros policéfalos, escancarando goelas vorazes, a sacudirem sobre suas cabeças disformes as suas crinas de serpentes venenosas, triturando os condenados com sangrentas mandíbulas para vomitá-los mastigados, porém vivos, porque são imortais. Estes demônios em forma humana, que lembram tão visivelmente os deuses do Amenti⁴⁶ e do Tártaro, bem como os ídolos adorados pelos fenícios, moabitas e outros gentios vizinhos da Judeia, não agem ao acaso, tendo cada um a sua função, o seu papel. O mal que fizeram no inferno guarda estreita relação com o mal que inspiraram e levaram os homens a praticar na Terra.⁴⁷ Os condenados são punidos em todos os seus órgãos e sentidos, porque também ofenderam a Deus por todos os órgãos e sentidos. Os delinquentes da gula são castigados pelos demônios da glutonaria, os preguiçosos pelos da preguiça, os luxuriosos pelos da devassidão, e assim por diante, numa variedade tão grande como a dos pecados. Mesmo queimando sentirão frio; mesmo congelados sentirão calor, sempre ávidos de movimento e de repouso, sempre sedentos e famintos, mil vezes mais fatigados que escravo ao fim da jornada, mais doentes que os moribundos, mais alquebrados e cobertos de chagas que os mártires, e isso para todo o sempre! Nenhum demônio se esquiva, nem se esquivará jamais ao desempenho sinistro da sua tarefa, perfeitamente disciplinados e fiéis quanto à execução das vingativas ordens que receberam. Sem isso, aliás, que seria o inferno? Os condenados repousariam se os algozes discutissem, polemizassem ou se enfadassem. Mas nada de repouso para uns, nada de disputas para outros. Por piores que sejam e por maior a sua quantidade, eles se entendem de um extremo a outro do abismo e jamais se viu sobre a Terra súditos mais dóceis aos seus príncipes, exércitos mais obedientes aos chefes, comunidades monásticas mais humildes e submissas aos seus superiores.⁴⁸ Quase nada se conhece da ralé de demônios, desses vis Espíritos que compõem as legiões de vampiros, sapos, escorpiões, corvos, hidras, salamandras e outros animais imundos que constituem a fauna das regiões infernais. Conhecem-se, porém, os nomes de muitos dos príncipes que comandam tais legiões, entre os quais Belfegor, o demônio da luxúria; Abadon ou Apolion, do homicídio; Belzebu, dos desejos impuros, ou senhor das moscas responsáveis pela corrupção; Mamon, o da avareza; Moloc, Belial, Baalgad, Astarot e muitos outros, sem falar do seu chefe supremo, o sombrio arcanjo que no céu se chamava Lúcifer e no inferno se chama Satanás.”
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo O inferno
Tema Descrição do inferno cristão
Item 12