Temem a separação, pelos hábitos cristalizados em que se associam, segundo os princípios da afinidade, e daí surgem os impedimentos para a dupla recuperação que lhes desejamos. O doente fizera-se mais angustiado, mais pálido. Parecia registar uma tempestade interior, pavorosa e incoercível.
— Tudo indica a vizinhança da irmã que se lhe apoderou da mente. Nosso companheiro se revela mais dominado, mais aflito… Mal acabara o orientador de formular o seu prognóstico e a pobre mulher, desligada do corpo físico pela atuação do sono, apareceu à nossa frente, reclamando feroz:
— Libório! Libório! Por que te ausentaste? Não me abandones! Regressemos para nossa casa! Atende, atende!… — Que vemos? — Exclamou Hilário, intrigado.
— Não será esta a criatura que o serviço desta noite pretende isolar das más influências? E porque o orientador respondesse de modo afirmativo, meu colega continuou:
— Deus de bondade! Mas não está ela interessada no reajustamento da própria saúde? Não roga socorro à instituição que frequenta?
— Isso é o que ela julga querer, — explicou Áulus, cuidadoso, — entretanto, no íntimo, alimenta-se com os fluidos enfermiços do companheiro desencarnado e apega-se a ele, instintivamente. Milhares de pessoas são assim. Registram doenças de variados matizes e com elas se adaptam para mais segura acomodação com o menor esforço. Dizem-se prejudicadas e inquietas, todavia, quando se lhes subtrai a moléstia de que se fazem portadoras, sentem-se vazias e padecentes, provocando sintomas e impressões com que evocam as enfermidades a se exprimirem, de novo, em diferentes manifestações, auxiliando-as a cultivar a posição de vítimas, na qual se comprazem. Isso acontece na maioria dos fenômenos de obsessão. Encarnados e desencarnados se prendem uns aos outros, sob vigorosa fascinação mútua, até que o centro de vida mental se lhes altere. É por esse motivo que, em muitas ocasiões, as dores maiores são chamadas a funcionar sobre as dores menores, com o objetivo de acordar as almas viciadas nesse gênero de trocas inferiores. A esse tempo, a recém-chegada conseguira abeirar-se mais intimamente de Libório, que passou a demonstrar visível satisfação. Sorria ele agora à maneira de uma criança contente. Identificando, porém, a presença de Dona Celina, a infeliz bradou, colérica:
— Quem é esta mulher? Dize! Dize!… Nossa abnegada amiga avançou para ela com simplicidade e implorou:
— Minha irmã, acalme-se! Libório está fatigado, enfermo! Ajudemo-lo a repousar!… A interlocutora não lhe suportou o olhar doce e benigno e, longe de reconhecer a prestimosa médium do grupo a que se associara, enceguecida de ciúme, gritou para o enfermo palavras amargas, que não seria lícito reproduzir, e abandonou o recinto, em desabalada carreira. Libório mostrou evidente contrariedade. Áulus, contudo, aplicou-lhe passes, restituindo-lhe a calma. Em seguida, o Assistente nos disse, amorável:
— Como vemos, a Bondade Divina é tão grande que até os nossos sentimentos menos dignos são aproveitados em nossa própria defesa. O despeito da visitante, encontrando Celina junto do enfermo, dar-nos-á tréguas valiosas, de vez que teremos algum tempo para auxiliá-lo nas reflexões necessárias. Quando acordar no corpo carnal, pela manhã, nossa pobre amiga lembrar-se-á vagamente de haver sonhado com Libório, ao lado de uma companheira, pintando um quadro de impressões a seu bel-prazer, porquanto cada mente vê nos outros aquilo que traz em si mesma. Abelardo estava satisfeito. Acariciava o doente, antevendo-lhe as melhoras. Hilário, semi-espantado, considerou:
— O que me assombra é reconhecer o serviço incessante por toda a parte. Na vigília e no sono, na vida e na morte… Respondeu Áulus, sorrindo:
— Sim, a inércia é simplesmente ilusão e a preguiça é fuga que a Lei pune com as aflições da retaguarda. Mas, nossa tarefa estava agora cumprida. E, por isso, afastamo-nos. Daí a minutos, despedindo-nos, prometeu o Assistente reecontrar-nos, para a continuidade de nossas observações, na noite seguinte.