Um novo elemento vem juntar-se à legião dos espíritas: o das classes laboriosas. Notai nisto a sabedoria da Providência. O Espiritismo propagou-se primeiro nas classes esclarecidas, nas sumidades sociais. Tal era necessário: a princípio, para lhe dar mais crédito; depois, para que fosse elaborado e expurgado das idéias supersticiosas que a falta de instrução nele poderia introduzir, e com as quais o teriam confundido. Apenas constituído, se assim se pode falar de uma ciência tão nova, sensibilizou as classes operárias e entre elas se propaga com rapidez. Ah! é que nele há tantas consolações a dar, tanta coragem moral a levantar, tantas lágrimas a enxugar, tanta resignação a inspirar que foi acolhido como uma âncora de salvação, como um escudo contra as terríveis tentações da necessidade. Por toda parte onde o vi penetrar nas casas de trabalho, nelas percebi que ele havia produzido seus efeitos benfazejos e moralizadores. Regozijai-vos, pois, operários lioneses que me ouvis, porque tendes em outras cidades, como Sens, Lille, Bordeaux, irmãos espíritas que, como vós, abjuraram as censuráveis esperanças da desordem e os criminosos desejos da vingança. Continuai, pelo exemplo, a provar os benéficos resultados desta doutrina. Aos que perguntarem para que pode ela servir, respondei: Em meu desespero eu queria me matar; o Espiritismo me deteve, porque agora sei o que custa abreviar voluntariamente as provas que Deus houve por bem mandar aos homens. Para me atordoar, embriagava-me; compreendi o quanto era desprezível por me tirar voluntariamente a razão, privando-me assim de ganhar o pão e o de meus filhos. Havia-me divorciado de todos os sentimentos religiosos: hoje rogo a Deus e deponho as esperanças na sua misericórdia. Só acreditava no nada, como supremo remédio para as minhas misérias; meu pai comunicou-se comigo e me disse: Filho, coragem! Deus te vê; mais um esforço e estarás salvo! Ajoelhei-me perante Deus e lhe pedi perdão. Vendo ricos e pobres, gente que tem tudo e outros que nada têm, acusava a Providência; hoje sei que Deus tudo pesa na balança da justiça e espero o seu julgamento; se estiver em seus decretos que eu deva sucumbir no sofrimento, então sucumbirei, mas com a consciência pura e sem levar o remorso de haver roubado um óbolo a quem me podia salvar a vida. Dizei-lhes: Eis para que serve o Espiritismo, esta loucura, esta quimera, como o chamais. Sim, meus amigos, continuai a pregar pelo exemplo; fazei com que entendam o Espiritismo com suas conseqüências salutares, pois quando for compreendido não mais se aterrorizarão; muito mais: será acolhido como garantia da ordem social, e os próprios incrédulos serão forçados a falar dele com mais respeito.
Falei dos progressos do Espiritismo. É que, com efeito, não há exemplo de uma doutrina, seja qual for, que tenha marchado com tanta rapidez, sem excetuar o próprio Cristianismo. Isto significa que lhe seja superior, que o deva suplantar? Não; mas é aqui o lugar de fixar o seu verdadeiro caráter, a fim de destruir uma prevenção por demais espalhada entre os que não o conhecem.
Em sua origem, o Cristianismo teve de lutar contra uma potência perigosa: o paganismo, então universalmente disseminado.
Entre eles não havia nenhuma aliança possível, como não há entre a luz e as trevas; numa palavra, não poderia propagar-se senão destruindo o que havia. Assim, a luta foi longa e terrível, de que as perseguições são a prova. O Espiritismo, ao contrário, nada vem destruir, porque assenta suas bases no próprio Cristianismo; sobre o Evangelho, do qual não é mais que a aplicação. Concebeis a vantagem, não de sua superioridade, mas de sua posição. Não é, pois, como o pretendem alguns, quase sempre porque não o conhecem, uma religião nova, uma seita que se forma à custa das mais antigas; é uma doutrina puramente moral, que absolutamente não se ocupa dos dogmas e deixa a cada um inteira liberdade de suas crenças, pois não impõe nenhuma. E a prova disto é que tem aderentes em todas, entre os mais fervorosos católicos, como entre os protestantes, os judeus e os muçulmanos. O Espiritismo repousa sobre a possibilidade de comunicação com o mundo invisível, isto é, com as almas. Ora, como os judeus, os protestantes e os muçulmanos têm almas como nós, o que significa que podem comunicar-se tanto com eles quanto conosco, e que, conseguintemente, eles podem ser espíritas como nós.
Não é uma seita política, como não se trata de uma seita religiosa; é a constatação de um fato que não pertence mais a um partido do que a eletricidade e as estradas de ferro; é, insisto, uma doutrina moral, e a moral está em todas as religiões, em todos os partidos.
É boa ou má a moral que ensina? É subversiva? Eis toda a questão. Que o estudem e saberão em que ela se baseia.
Ora, desde que é a moral do Evangelho desenvolvida e aplicada, condená-la seria condenar o Evangelho.
O Espiritismo tem feito o bem ou o mal? Estudai-o ainda, e vereis. Que tem feito? Tem impedido inumeráveis suicídios; restaurou a paz e a concórdia num grande número de famílias; tornou mansos e pacientes homens violentos e coléricos; deu resignação aos que não a tinham e consolações aos aflitos; reconduziu a Deus os que não O conheciam, destruindo-lhes as idéias materialistas, verdadeira chaga social que aniquila a responsabilidade moral do homem. Eis o que tem feito e faz todos os dias, o que fará cada vez mais, à medida que se espalhar. Será isto o resultado de uma doutrina má? Não sei de ninguém que tenha atacado a moral do Espiritismo; apenas dizem que a religião pode produzir tudo isso. Concordo perfeitamente; mas, então, porque não o produz sempre? É porque nem todos a compreendem. Ora, ao tornar claro e inteligível para todos aquilo que não o é, e evidente o que é duvidoso, o Espiritismo conduz à aplicação, ao passo que jamais se sente necessidade daquilo que se não compreende. O Espiritismo, portanto, longe de ser o antagonista da religião, é o seu auxiliar; e a prova é que conduz às idéias religiosas os que as haviam repelido. Em resumo, jamais o Espiritismo aconselhou a mudança de religião, nem o sacrifício de suas crenças; não pertence particularmente a nenhuma religião, ou, melhor dizendo, está em todas elas.
Por favor, senhores, algumas palavras ainda, sobre uma questão muito prática. O crescente número de espíritas em Lyon mostra a utilidade do conselho que vos dei o ano passado, relativamente à formação dos grupos. Reunir todos os adeptos numa única sociedade, hoje, já seria uma coisa materialmente impossível, e o será mais ainda dentro de algum tempo. Além do número, as distâncias a percorrer em vista da extensão da cidade, e as diferenças de hábitos, conforme as posições sociais, aumentam essa impossibilidade. Por esses motivos e por muitos outros, que seria longo aqui desenvolver, uma sociedade única é uma quimera impraticável. Multiplicai os grupos o mais possível; que haja dez, que haja cem, se preciso for, e ficai certos de que chegareis mais depressa e com mais segurança.
Haveria aqui coisas muito importantes a dizer, sobre a questão da unidade de princípios e sobre a divergência que poderia existir entre eles quanto a alguns pontos. Mas me detenho, para não abusar de vossa paciência em me ouvir, paciência que já pus a uma prova muito longa. Se desejardes, farei disto objeto de uma instrução especial, que vos enviarei brevemente.
Termino esta alocução, senhores, a que me deixei arrastar pela própria raridade das ocasiões que tenho a felicidade de estar em vosso meio. Ficai certos de que levarei da vossa benévola acolhida uma lembrança que jamais se apagará.
Ainda uma vez, meus amigos, obrigado do fundo do coração pelas demonstrações de simpatia com que me distinguis; obrigado pelas bondosas palavras que me dirigistes por vossos intérpretes, das quais só aceito o dever que elas me impõem quanto ao que me resta fazer, e não os elogios. Possa esta solenidade ser o penhor da união que deve existir entre todos os verdadeiros espíritas!
Levanto um brinde aos espíritas lioneses e a todos os que se distinguem por seu zelo, seu devotamento, sua abnegação e que vós mesmos nomeais, sem que eu precise fazê-lo.
Aos espíritas lioneses, sem distinção de opinião, estejam ou não presentes!
Senhores, os Espíritos também querem participar desta festa de família e dizer algumas palavras. Erasto, que conheceis pelas notáveis dissertações publicadas na Revista, ditou espontaneamente, antes da minha partida e em vossa intenção, a epístola seguinte, que me encarregou de ler em seu nome. É com prazer que me desobrigo desse encargo. Tereis assim a prova de que os Espíritos comunicantes não são os únicos a se ocuparem convosco e daquilo que vos diz respeito. Esta certeza não pode senão reforçar vossa fé e vossa confiança, vendo que o olhar vigilante dos Espíritos superiores se estende sobre todos e que, seguramente, também sois objeto de sua solicitude.