Eram árvores frondosas q ue se velavam nas sombras, derradeiros passarinhos errantes que voejavam céleres e as brisas cariciosas que chegavam de longe, agitando as grandes ramarias e acentuando os doces murmúrios do vento. Saulo, inebriado de indefinível alegria, contemplou as pr imeiras estrelas que sorriam no céu recamado de luz. A Natureza é sempre o espelho fiel das emoções mais íntimas, e aquelas vagas de perfume, que as vira ções traziam de longe, encontravam eco de misterioso júbilo no seu coração. — Abigail disse retendo-lhe a mãozinha entre as suas —, a Natureza canta sempre com as almas esperan çosas e crentes. Com que ansiedade esperei -te no caminho da vida!... Meu pai falou -me do lar e das suas doçuras e eu aguardava a mulher que me compreendesse inteiramente. — Deus é bom — replicou ela com enlevo — e somente agora reconheço que, depois de tantos sofri mentos, Ele me reservava, na sua misericórdia infinita, o tesouro maior da minha vida, o teu amor, na terra de meus pais. Teu afeto, Saulo, concentra todos os meus ideais. O Céu nos fará felizes. Todas as manhãs, quando estivermos casados, pedirei, em preces fervoro sas, aos anjos de Deus que me ensinem a tecer a rede das tuas alegrias; à noite, quando a bênção do repouso envolver o mundo, dar -te-ei um carinho sempre novo, do meu afeto. Tomarei tua cabeça atormentada pelos problemas da vida e ungirei tua fronte com a carícia de minhas mãos. Viverei com Deus e contigo, somente. Ser-te-ei fiel por toda a vida e amarei os próprios sofri mentos que acaso o mundo possa aca rretar-me, por amor à tua vida e ao teu nome. Saulo apertou-lhe as mãos com mais enlevo, redargüindo deslumbrado: — Dar-te-ei, por minha vez, meu coração dedicado e sincero. Abigail, meu espírito estava possuído somente do amor à Lei e a meus pais. Minha mocidade tem sido muito inquieta, mas pura. Não te oferecerei uma flor sem perfume. Desde os primeiros dias da juventude, conheci companheiros que me incitaram a lhes seguir os passos incertos na embriaguez dos sentidos, precursora da morte de nossas preocu pações mais nobres neste mundo, mas nunca traí o ideal divino que me vibraria alma sincera. Depois dos estudos iniciais da minha carreira, encontrei mulheres que me acenavam, levadas por uma concepção perigosa e errônea do amor. Em Tarso, nos dias suntuoso s dos jogos juvenis, após a conquista das melhores láureas, recebia, de jovens inquietas, declarações de amor e propostas de núpcias, mas, a verdade é que permanecia insensível, a esperar -te como heroína ignota do meu sonho, nas assembléias ostentosas de púrpuras e flores. Quando Deus aqui me con duziu ao teu encontro, teus olhos me falaram, num lampejo, de sublimes revelações. És o coração do meu cérebro, a essência do meu raciocínio e serás a mão guiadora das minhas edificações, em toda a vida. Enquanto a moça, sensibilizada e venturosa, tinha os olhos mareados de pranto, o fogoso mancebo con tinuava: — Viveremos um para o outro e teremos filhos fiéis a Deus. Serei a ordenação da nossa vida, serás a obe diência em nossa paz. Nossa casa será um templo. O amor a Deus será sua maior coluna e, quando o trabalho exigir minha ausência do altar doméstico, ficarás velando no tabernáculo da nossa ventura. — Sim, querido. Que não faria por ti? mandarás e obedecerei. Serás a ordem de minha vida e eu rogarei ao Senho r que me auxilie a ser teu bálsamo de ternura. Quando estiveres fatigado, lembrar -me-ei de minha mãe e adormecerei tua alma generosa com as mais formosas orações de David!... Interpretarás para mim a palavra de Deus. Serás a lei, serei tua serva. Saulo enternecia-se ouvindo aquelas expressões blan diciosas. Eram as mais belas que já havia recolhido de um coração feminino. Mulher alguma, que não Abigail, jamais assim lhe falara ao espírito impetuoso. Habituado aos longos e difíceis raciocínios, escaldando o cérebro nos silogismos dos doutores, em busca de futuro brilhante, sentia a alma ressecada, sedenta de verdadeiro idealismo. Desde criança, com a sadia educação doméstica, guardava puros os primeiros impulsos do coração, sem jamais con taminá-los na esteira dos prazeres fáceis ou do fogo das paixões violentas, que soem deixar na alma o carvão das dores sem esperanças. Acostumado ao esporte, aos jogos da época, seguido sempre de muitos companheiros em desvario, tivera o heroísmo sagrado de sobrepor as dispos ições da Lei às próprias tendências naturais. Sua concepção de serviço a Deus não admitia concessões a si mesmo. A seu ver, todo homem devia conservar -se indene de contactos inferiores com o mundo, até que atingisse o tálamo nupcial. O lar constituído haveria de ser um tabernáculo das bênçãos eternas; os filhos, as primícias do altar do Maior Amor, consagrado ao Senhor Supremo. Não que a sua juventude estivesse isenta de desejos. Saulo de Tarso experimentava todos os anseios da mocidade impetuosa do seu te mpo. Imaginava situações de anelos satisfeitos, e, no entanto, sujeito aos carinhos ma ternos, prometera a si mesmo jamais tergiversar. A vida do lar é a vida de Deus. E Saulo guardava -se para emoções mais sublimadas. De esperança em esperança, via passar os anos, esperando que a inspiração divina deter minasse a rota dos seus ideais. Esperava e confiava. Seus pais presumiam encontrar, ali ou acolá, aquela a quem devesse ele eleger; entretanto, Saulo, enérgico e resoluto, removia a intervenção dos entes ca ros, no concernente à escolha que afetava a decisão do seu destino. Abigail enchera -lhe o coração. Era a flor mística do seu ideal, a alma que lhe entenderia as aspirações em per feita ressonância de pensamentos. De olhos fixos nas suas feições delicadas, que o luar pálido iluminava, teve ânsias de guardá -la para sempre nos braços fortes. Ao mesmo tempo, doce enternecimento lhe vibrava na alma. Desejava atraí -la a si, como se o fizesse a uma criança meiga e afagar -lhe os cabelos sedosos com todo o cabedal do seu carinho. Inebriados de gozo espiritual, falaram longo tempo do amor que os identificava na mesma aspiração de ventura. Todos os comentários mais íntimos faziam de Deus o sagrado partícipe de suas esperanças no futuro que se lhes auspiciava, santific ado em júbilos infinitos. De mãos dadas extasiaram -Se com o plenilúnio ma ravilhoso, Os eloendros pareciam sorrir-lhes. As rosas orientais, aureoladas pelos raios da lua, eram lhes qual mensagem de beleza e perfume. Ao despedir-se, Saulo acrescentou, ventu roso: — Dentro de dois dias voltarei a ver -te. Ficamos combinados. Quando Dalila partir, levará notícias nossas a meus pais e, precisamente de hoje a seis meses, quero ter-te comigo para sempre. — Seis meses? — revidou ela meio ruborizada e surpreendida. — Nada haverá, penso, que possa embargar esta resolução, de vez que já temos o indispensável. — E se ainda não tivermos, até lá, notícias de Jeziel? Por mim, desejaria casar-me convicta do seu contentamento e aprovação. Saulo esboçando leve sorriso, em que havia muito de contrariedade mal dissimulada, esclareceu: — Quanto a isso, fica tranqüila. Cuidaremos pri meiramente da atitude dos meus, que se encontram em plano mais imediato; e tão logo resolvamos o problema, se preciso for, irei pessoalmente a Acaia. É impossível que Zacarias não receba novas notícias de Corinto, nas próximas semanas. Então, providenciaremos com mais segurança. Abigail teve um gesto de satisfação e reconheci mento. Irmanados, agora, na mesma vibração de júbilo, antes que reentrassem em casa, onde os donos os aguardavam entretidos com a leitura das Profecias, Saulo levou a mão da jovem aos lábios e murmurou a despedida habitual: — Fiel para sempre!... Daí a minutos, depois de ligeira palestra com os amigos, ouvia -se o trotear dos animais estrada em fora, de regresso a Jerusalém. O carro minúsculo rodava, celeremente, ao luar, sob uma nuvem de pó.