(Sociedade Espírita de Paris) Na sessão da Sociedade, de 19 de julho do corrente ano, o Espírito Lamennais deu espontaneamente a dissertação que se segue, sobre o aforismo de Buffon: O estilo é o homem, por intermédio do Sr. Didier, médium. Julgando-se atacado, Buffon replicou alguns dias mais tarde, servindo-se do Sr. d’Ambel.
Depois, sucessivamente, o Visconde de Launay (Sra. Delphine de Girardin), Bernardin de Saint-Pierre e outros entraram na liça. É esta polêmica, tão curiosa quanto instrutiva, que reproduzimos integralmente. Notar-se-á que não foi provocada, nem premeditada e que cada Espírito veio espontaneamente nela tomar parte.
Lamennais abriu a discussão; os outros o seguiram.
DISSERTAÇÃO DE LAMENNAIS (Médium – Sr. A. Didier) Há no homem um fenômeno muito estranho, a que chamo de fenômeno dos contrastes. Refiro-me, antes de tudo, às naturezas de escol. De fato as encontrareis no mundo dos Espíritos, cujas obras poderosas divergem estranhamente da vida privada e dos hábitos de seus autores. Disse o Sr. Buffon: O estilo é o homem. Infelizmente, esse grão-senhor da elegância e do estilo encarava os demais autores exclusivamente do seu ponto de vista.
Aquilo que podia perfeitamente aplicar-se a ele está longe de ser aplicado a todos os outros escritores. Tomamos aqui o vocábulo estilo em sentido mais amplo e na sua mais larga acepção. Em nossa opinião, o estilo será a maneira grandiosa, a forma mais pura pela qual o homem apresentará suas idéias. Todo o gênio humano está aqui, diante de nós e, com uma vista d’olhos, contemplamos todas as obras da inteligência humana: poesia na arte, na literatura e na Ciência. Longe de dizer como Buffon: O estilo é o homem, talvez diremos, de maneira menos concisa, menos significativa, que o homem, por sua natureza mutável, difusa, contestadora e revoltada, muitas vezes escreve contrariamente à sua natureza original, às suas primitivas inspirações. Direi mesmo mais: em oposição às suas crenças.
Muitas vezes, lendo as obras de alguns dos grandes gênios de um ou de outro século, nós nos dizemos: Que pureza!
Que sensibilidade! Que crença profunda no progresso! Que grandeza! Depois se sabe que o autor, longe de ser o autor moral de suas obras, não é senão o autor material, imbuído de prejuízos e idéias preconcebidas. Aí está um grande fenômeno, não apenas humano, mas espírita.
Muito freqüentemente, pois, o homem não se reflete em suas obras. Diremos, também, quantos poetas debilitados, embrutecidos, e quantos artistas desiludidos sentem, de repente, uma centelha divina a iluminar-lhes a inteligência! Ah! é que então o homem escuta algo que não vem dele mesmo; ouve o que o profeta Isaías chamava o pequeno sopro, e que nós chamamos os Espíritos. Sim, eles sentem em si essa voz sagrada, mas, esquecendo Deus e a sua luz, a atribuem a si mesmos; recebem a graça na arte como outros a recebem na fé, e algumas vezes ela toca os que pretendem negá-la.
Lamennais RÉPLICA DE BUFFON (Médium – Sr. d’Ambel) Disseram que fui um gentil-homem das letras e que meu estilo, muito apuradinho, cheirava a pó-de-arroz e a tabaco da Espanha. Não é a consagração mais certa dessa verdade: O estilo é o homem? Embora tenham exagerado um pouco, representando-me com a espada ao lado e a pena à mão, confesso que gostava das belas coisas, das roupas adornadas com lantejoulas, das rendas e dos casacos vistosos, em suma, de tudo quanto fosse elegante e delicado. É, pois, muito natural que sempre me vestisse com elegância, razão por que meu estilo traz o sinete do bom-tom, esse perfume de boa companhia que se encontra igualmente em nossa grande Sévigné. Que quereis? Sempre preferi os saraus e os pequenos salões das damas elegantes aos cabarés e às assembléias tumultuosas de baixa categoria. Permitir-me-eis, pois, apesar da opinião emitida por vosso contemporâneo Lamennais, manter meu judicioso aforismo, apoiando-o com alguns exemplos tomados entre vossos autores e filósofos modernos.
Uma das desgraças de vosso tempo é que muitos fizeram da pena uma profissão. Mas deixemos esses artistas da pena que, semelhantes aos artistas das palavras, escrevem indiferentemente pró ou contra tal idéia, conforme são pagos, e gritando segundo o tempo: Viva o rei! Viva a Liga! 39 Deixemo-los.
Esses não são, para mim, autores sérios. Vejamos, abade: não vos ofendais se tomo a vós mesmo como exemplo. Vossa vida, bem ou mal fundamentada, não se reflete sempre em vossas obras? E da indiferença em matéria de religião às palavras de um crente, que contraste, como dizeis! Todavia, vosso tom doutoral é tão categórico, tão absoluto, numa como noutra dessas obras. Haveis de concordar que sois bilioso, padre, e destilais vossa bile em amargos lamentos, em todas as belas páginas que deixastes. Em sobrecasaca abotoada, como em sotaina, ficastes desclassificado, meu pobre Lamennais.
Ora, vamos, não vos zangueis, mas convinde comigo que o estilo é o homem.
Se passo de Lamennais a Scribe, o homem feliz se reflete nas tranqüilas e pacíficas comédias de costumes. Ele é alegre, feliz e sensível: semeia a sensibilidade, a alegria e a felicidade em suas obras. Nele, jamais o drama, jamais o sangue; apenas alguns duelos sem perigo, para punir o traidor e o culpado.
Vede em seguida Eugène Sue, o autor dos Mistérios de Paris. É forte como seu príncipe Rodolfo; como ele, aperta em sua luva amarela a mão calejada do operário e, também como ele, é o advogado das causas populares.
Vede o vosso Dumas vagabundo, malbaratando a vida e a inteligência; indo do pólo sul ao pólo norte tão facilmente quanto seus famosos mosqueteiros; fazendo-se conquistador com Garibaldi e indo da intimidade do Duque de Orléans aos pedintes napolitanos; fazendo romances com a história e pondo a história em romances.
Vede as obras orgulhosas de Victor Hugo, esse protótipo do orgulho encarnado. Eu, eu, diz Hugo poeta; eu, eu, diz Hugo em seu rochedo de Jersey.
Vede Murger, esse poeta lírico dos costumes fáceis, representando conscientemente seu papel nessa boemia que cantou. Vede Nerval, de cores estranhas, de estilo espalhafatoso e incoerente, fazendo fantasia com sua vida, como o fez com sua pena. Quantos deixo, e dos melhores, como Soulié e Balzac, cujas vidas e obras seguem caminhos paralelos! Mas creio que estes exemplos serão suficientes para não mais repelirdes, de modo tão absoluto, o meu aforismo: O estilo é o homem.
Não teríeis, caro abade, confundido a forma e o fundo, o estilo e o pensamento? Mas, ainda aí, tudo se acomoda.
Buffon PERGUNTAS DIRIGIDAS A BUFFON A PROPÓSITO DE SUA COMUNICAÇÃO P. – Agradecemos a espirituosa comunicação que houvestes por bem nos dar. Contudo, há algo que nos surpreende: é que estais a par dos mínimos detalhes da nossa literatura, apreciando obras e autores com notável precisão. Então ainda vos ocupais com o que se passa na Terra, desde que conheceis tudo isso? Ledes, pois, tudo quanto se publica? Tende a bondade de dar uma explicação, que será muito útil à nossa instrução.
Resp. – Não precisamos de muito tempo para ler e apreciar; num único golpe de vista apanhamos o conjunto das obras que nos atraem a atenção. Todos nós nos ocupamos com muito interesse do vosso caro grupinho; daqueles a quem chamais homens eminentes, não acreditaríeis quantos acompanham, com benevolência, os progressos do Espiritismo. Assim, podeis pensar quanto me senti feliz por ver meu nome pronunciado por Lamennais, um de vossos fiéis Espíritos, e com que agilidade aproveitei a ocasião para me comunicar convosco. Com efeito, quando fui posto em causa em vossa última sessão, recebi, por assim dizer, o contragolpe do vosso pensamento e, não querendo que a verdade que eu havia proclamado em meus escritos fosse derrubada sem ser defendida, roguei a Erasto que me emprestasse seu médium para responder às asserções de Lamennais. Por outro lado, deveis compreender que cada um de nós permanece fiel às suas preferências terrenas, razão por que nós outros, escritores, estamos atentos ao progresso realizado pelos autores vivos, ou que eles pensam realizar na literatura. Assim como os Jouffroy, os Laroque, os la Romiguière se preocupam com a filosofia, e os Lavoisier, os Berzélius, os Thénard com a química, cada um cultiva a sua mania e se recorda com amor de seus trabalhos, acompanhando com olhar inquieto o que fazem seus sucessores.
P. – Em poucas palavras apreciastes vários escritores contemporâneos, mortos ou vivos. Seríamos muito reconhecidos se nos désseis, sobre alguns deles, uma apreciação um pouco mais desenvolvida e mais metódica; seria muito útil para nós. Para começar, pediríamos que falásseis de Bernardin de Saint-Pierre, principalmente de seu Paulo e Virgínia, cuja leitura havíeis condenado e que, no entanto, se tornou uma das obras mais populares.
Resp. – Não posso aqui empreender o desenvolvimento crítico das obras de Bernardin de Saint-Pierre. Quanto à apreciação que fiz naquela época, posso confessá-lo hoje: eu era, como o Sr.
Josse, um tanto perfeccionista; numa palavra, fiel ao espírito de camaradagem literária, desancava o quanto podia um importuno e importante concorrente. Mais tarde vos darei a minha verdadeira apreciação sobre esse eminente escritor, caso um Espírito realmente crítico, como Merle ou Geoffroy, não se encarregue de o fazer.