União da Filosofia e do Espiritismo
A filosofia, ao contrário, tem tudo a ganhar ao considerar seriamente os fatos do Espiritismo. Primeiro, porque estes são a sanção solene de seu ensinamento moral; e depois porque tais fatos provarão, aos mais endurecidos, o alcance fatal de seu mau comportamento. Mas, por mais importante que seja esta justificação positiva de suas máximas, o estudo aprofundado das conseqüências, que se deduzem da constatação da existência sensível da alma no estado não encarnado, servir-lhe-á em seguida para determinar os elementos constitutivos da alma, sua origem, seus destinos, e para estabelecer a lei moral e a do progresso anímico sobre bases certas e inabaláveis. Além disso, o conhecimento da essência da alma conduzirá a filosofia ao conhecimento da essência das coisas e, mesmo, da de Deus, e lhe permitirá unir todas as doutrinas que a dividem num só e mesmo sistema geral, verdadeiramente completo. Enfim, esses diversos desenvolvimentos da filosofia, provocados por esta preciosa determinação da essência anímica, conduzi-la-ão infalivelmente sobre os traços dos princípios fundamentais da antiga cabala e da antiga ciência oculta dos hierofantes, de que a trindade cristã é o último raio luminoso que chegou até nós. É assim que, pela simples aparição das almas errantes, chegar-se-á, como temos todo direito de esperar, a constituir uma cadeia ininterrupta das tradições morais, religiosas e matafísicas da Humanidade antiga e moderna. Este futuro considerável, que concebemos para a filosofia aliada ao Espiritismo, não parecerá impossível aos que tiverem alguma noção desta ciência, se considerarem a vacuidade dos princípios sobre os quais se fundam as diversas escolas e a impotência para elas disso resultante, de explicar a realidade concreta e viva da alma e de Deus. É assim que o materialismo imagina que os seres não passam de fenômenos materiais, semelhantes aos produzidos pelas combinações químicas, e que o princípio que os anima faz parte de um suposto princípio vital universal. De acordo com este sistema a alma individual não existiria e Deus seria um ser completamente inútil. Por seu lado, os discípulos de Hegel imaginam que a idéia, esse fenômeno indisciplinado de nossa alma, seja um elemento em si, independente de nós; um princípio universal que se manifesta pela Humanidade e sua atividade intelectual, como também pela Natureza e suas maravilhosas transformações. Esta escola nega, por conseguinte, a individualidade eterna de nossa alma, e a confunde num só todo, com a Natureza. Ela supõe que exista uma identidade perfeita entre o universo visível e o mundo moral e intelectual; que um e outro sejam o resultado da evolução progressiva e fatal da idéia primitiva, universal, numa palavra, do absoluto. Deus também não tem, neste sistema, nenhuma individualidade, nenhuma liberdade, e não se conhece pessoalmente. Ele só se percebeu a si mesmo, pela primeira vez, em 1810, por intermédio de Hegel, quando este o reconheceu na idéia absoluta e universal. (Histórico). Enfim, nossa escola espiritualista, vulgarmente chamada eclética, considera a alma como sendo apenas uma força sem extensão e sem solidez, uma inteligência imperceptível no corpo humano e que, uma vez desembaraçada de seu envoltório, conservando sua individualidade e sua imortalidade, não existiria mais, nem no tempo, nem no espaço. Nossa alma, pois, seria um não sei quê, sem ligação com o que existe, e não ocuparia nenhum lugar determinado. Segundo este mesmo sistema, Deus não é mais perceptível. É o pensamento perfeito e não tem, igualmente, nem solidez, nem estabilidade, nem forma, nem realidade sensível; é um ser vazio. Sem a razão nós não poderíamos ter nenhuma intuição. Entretanto, quem são os que inventaram o ateísmo, o cepticismo, o panteísmo, o idealismo, etc.? São os homens de raciocínio, os inteligentes, os sábios! Os povos ignorantes, cujas sensações são os principais guias, jamais duvidaram de Deus, da alma e de sua imortalidade. Parece que só a razão é má conselheira! Em conseqüência, fácil é nos convencermos de que falta a essas doutrinas um princípio real, estável, vivo, da noção do ser real. Elas se movem num mundo inteligível, que não toca na realidade concreta. O vazio de seus princípios relaciona-se com o conjunto de seus sistemas e os torna tão sutis quanto vagos e estranhos à realidade das coisas. O próprio senso comum é ultrajado, não obstante o talento e a prodigiosa erudição de seus aderentes. Mas o Espiritismo é ainda mais brutal em relação a eles, porque derruba todos os sistemas abstratos, opondo-lhes um fato único: a realidade substancial, viva e atual da alma não encarnada. Ele lha mostra como um ser pessoal, existindo no tempo e no espaço, embora invisível para nós; como um ser tendo o seu elemento sólido, substancial e sua força ativa e pensante. Ele nos mostra mesmo as almas errantes, comunicando-se conosco por sua própria iniciativa. É evidente que semelhante acontecimento deve derrubar todos os castelos de cartas e, de uma assentada, eliminar essas soberbas estruturas fantasiosas. Mas, para aumentar a confusão, pode provar-se aos partidários dessas doutrinas complicadas que todo homem traz na própria consciência os elementos suficientes para demonstrar a existência da alma, tal como o Espiritismo o estabeleceu pelos fatos, de modo que seus sistemas não só são errados no seu ponto de chegada, mas, também, em seu ponto de partida. Assim, o mais sábio partido que resta a tomar por esses honrados sábios, é refazer completamente sua filosofia e consagrar seu profundo saber à fundação de uma ciência original, mais precisa e mais conforme à realidade. É que, efetivamente, carregamos conosco quatro noções irredutíveis, que nos autorizam a afirmar a existência de nossa alma, tal qual o Espiritismo no-la apresenta. Primeiramente, temos em nós o sentimento de nossa existência. Tal pensamento não pode revelar-se senão por uma impressão que recebemos de nós mesmos. Ora, nenhuma impressão se faz sobre um objeto privado de solidez e de extensão, de sorte que por um só fato de nossas sensações devemos inferir que temos em nós um elemento sensível, sutil, extenso e resistente, isto é, uma substância. Em segundo lugar, temos em nós a consciência de um elemento ativo, causal, que se manifesta em nossa vontade, em nosso pensamento e em nossos atos. Em conseqüência, é ainda evidente que possuímos em nós um segundo elemento: uma força. Portanto, pelo simples fato de que sentimos e sabemos, devemos concluir que encerramos dois elementos constitutivos, força e substância, isto é, uma dualidade essencial, anímica. Mas essas duas noções primitivas não são as únicas que levamos conosco. Ainda nos concebemos, em terceiro lugar, uma unidade pessoal, original, sempre idêntica a si mesma; e, em quarto lugar, um destino igualmente pessoal, porque todos nós procuramos a felicidade e as nossas próprias conveniências em todas as circunstâncias da vida. De maneira que, juntando essas duas novas noções, que constituem nosso duplo aspecto, às duas precedentes, reconhecemos que nosso ser encerra quatro princípios bem distintos: sua dualidade de essência e sua dualidade de aspecto. Ora, como esses quatro elementos do conhecimento do nosso eu, que nos levam a nos afirmar pessoalmente, são noções independentes do corpo e não têm qualquer relação com o nosso envoltório material, é evidente e peremptório para todo espírito justo e não prevenido, que nosso ser depende de um princípio invisível, chamado Alma; e que esta alma existe como tal, desde que tem uma substância e uma força, uma unidade e um destino próprios e pessoais. Tais são os quatro elementos primordiais de nossa individualidade anímica, dos quais cada um de nós traz em seu seio a noção e que nenhum homem poderia recusar. Em conseqüência, como dissemos, em todos os tempos a filosofia possuiu os elementos suficientes para o conhecimento da alma, tal como o Espiritismo no-la dá a conhecer. Se, pois, até o presente, a razão humana não conseguiu construir uma metafísica verdadeira e útil, que lhe tenha feito compreender que a alma deve ser considerada como um ser real, independente do corpo e capaz de existir por si mesma, substancial e virtualmente, no corpo e no espaço, é que ela desdenhou a observação direta dos fatos de consciência e que, em seu orgulho e em sua presunção, a razão foi posta em lugar e no lugar da realidade. Conforme estas observações, pode compreender-se quanto importa à filosofia unir-se ao Espiritismo, pois deste tirará a vantagem de criar-se uma ciência original, séria e completa, fundada sobre o conhecimento da essência da alma e das quatro condições de sua realidade. Mas não é menos necessário ao Espiritismo aliar-se com a filosofia, porque só por ela poderá estabelecer a certeza científica dos fatos espíritas, que formam a base fundamental de sua crença, e daí tirar as importantes conseqüências que eles contêm. Sem dúvida, basta que o bom senso veja um fenômeno para crer em sua realidade, e muitos se contentam com isto; mas a Ciência muitas vezes teve motivos para duvidar do protesto do senso comum, para não se confiar nas impressões dos nossos sentidos e nas ilusões de nossa imaginação.
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Mês Setembro
Ano 1863