(À 15a edição de Obras póstumas, da FEB, em 1975)
Entre os “Extratos, in extenso, do Livro das previsões concernentes ao espiritismo — manuscrito composto com especial cuidado por Allan K ardec e do qual nenhum capítulo fora ainda publicado”, incluídos em Obras póstumas — coletânea de escritos do Codificador da Doutrina dos Espíritos, elaborada e editada em Paris, no ano de 1890, por P.-G. L eymarie — não figura o documento de 20 de outubro de 1863, estampado em Reformador de 1975, páginas 219 e 220.
O mestre Allan Kardec, se houvesse decidido inseri-lo no Livro das previsões concernentes ao espiritismo, tê-lo-ia, por certo, localizado logo após a Observação à Nota, de 14 de setembro de 1863, colocada em seguimento às perguntas e respostas subordinadas à epígrafe Imitação do evangelho (ver páginas xx a xx). Pierre-Gaétan Leymarie, por sua vez, na dupla qualidade de organizador e editor da mencionada coletânea, cremos, não deixaria de juntá-lo às obras póstumas, em vinculação direta com o tema aludido, caso houvera dele tomado conhecimento antes de 1890, hipótese esta altamente improvável.
Mas a forma adequada de anexar a Obras póstumas, depois de tanto tempo, aquele documento, é a que ora adotamos, por meio de apêndice ao livro, com nota remissiva no lugar próprio.
Um caso de segunda vista
Página inédita de Allan Kardec
Nota da redação – Empreendendo pesquisas em velhos documentos que pertenceram à Sociedade Espírita fundada por Allan Kardec, encontramos esta página, alusiva a um caso de segunda vista, página essa escrita, de fio a pavio, pelas mãos do mestre. Apressamo-nos, assim, em reproduzi-la.
Imitação do Evangelho
Fenômeno de Clarividência
Paris, 20 de outubro de 1863.
A senhorita V..., natural de Lyon, é dotada de uma notável segunda vista, conseguindo não só ver os Espíritos no estado normal, sem que esteja sonambulizada, como também observar, com grande precisão, os fatos que se desenrolam a distância.
Uma vez em Paris, onde veio passar alguns dias, deliberou visitar-me, na Rua Sainte-Anne, tendo encontrado minha esposa, vez que — desde meu retorno de Sainte-Adresse — me havia eu retirado para Ségur, a fim de, com mais tranquilidade, trabalhar em minha obra sobre o Evangelho. Nosso encontro foi impossível, em vista de ter a senhorita empreendido viagem de regresso ainda naquela tarde. Mas durante a conversa com minha esposa diz-lhe esta:
— Uma vez que não podereis avistar-vos com meu marido, o que ele muito lamentará, não poderíeis transportar-vos em Espírito até onde se encontra, e vê-lo?
Por um instante, recolheu-se a senhorita, e disse:
— Sim, vejo-o; acha-se num aposento muito iluminado, no pavimento térreo; há ali três janelas... Oh!... e como tudo é alegre! A casa é circundada por jardins... por toda parte árvores e flores... Tudo respira a calma e tranquilidade... Ele está sentado, próximo a uma janela, trabalhando... Está cercado por uma multidão de Espíritos que lhe conservam a boa saúde... alguns há que parecem muito elevados, e o inspiram; um deles especialmente parece ser superior a todos os demais, sendo-lhes objeto de deferências.
Pergunta – Acaso percebeis a natureza do trabalho de que meu marido se ocupa?
Resposta – Um momento... Vejo um Espírito que segura um livro de grandes proporções... abre-o e mostra-me o que se acha escrito... leio-o: Evangelho.
Observação – Com efeito, trabalhava eu em meu livro sobre os Evangelhos, e cujo
título constitui-se ainda em segredo para todos. A senhorita V... não poderia conhecê-lo. Quanto à minha esposa, ignorava ela se, naquele momento, me ocupava
disso ou de outro qualquer assunto. Nada, consequentemente, podia influenciar
o pensamento da clarividente. A descrição dos recantos é, além do mais, precisa,
sendo de ressaltar que ela jamais viu esses lugares. A peça onde me instalara está
provida de exatamente três janelas, o que não é comum, e, de todos os lados,
confina com os jardins. Minha esposa ignorava estivesse eu nesse cômodo, que é o
salão. Poderia, com muito maior probabilidade, supor-me no escritório. Todas as
circunstâncias comungam na prova de que, em realidade, a senhorita V... a tudo
presenciava, não sendo joguete da própria imaginação. Tal fato constitui-se, para
mim, numa prova do interesse que os Espíritos tinham por esse trabalho, bem
como da assistência que a mim dispensam e a minhas atividades.
Allan Kardec
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Em seguida à transcrição do documento, em língua portuguesa, a Federação Espírita Brasileira, por seu Departamento Editorial, entrega aos espíritas, mediante reprodução fotomecânica, as páginas 661 e 662 da Revue Spirite de 1904, contendo, na íntegra, o texto original francês de Un Fait de Seconde Vue (Page inédite d’Allan Kardec):