Antes de mais, não era o médium que se fazia passar por Jesus, mas um Espírito, o que é muito diferente. A citação é feita precisamente para mostrar a velhacaria de certos Espíritos e prevenir os médiuns contra seus subterfúgios. Pretendeis que o Espiritismo negue a divindade do Cristo ou vistes tal proposição formulada em princípio? É, dizeis vós, a conseqüência de toda a doutrina. Ah! se entrarmos no terreno das interpretações, poderemos ir mais longe do que quereis. Se disséssemos, por exemplo, que o Cristo não tinha chegado à perfeição, que teve necessidade das provas da vida corpórea para progredir; que a sua paixão lhe tinha sido necessária para subir em glória, teríeis razão, porque dele não faríamos sequer um Espírito puro, enviado à Terra com missão divina, mas um simples mortal, a quem o sofrimento era necessário, a fim de progredir. Onde encontrais que tenhamos dito isto? Pois bem! aquilo que nunca dissemos, que jamais diremos, sois vós que dizeis.
Ultimamente temos visto, no parlatório de uma casa religiosa de Paris, a seguinte inscrição, impressa em letras grandes e afixada para a instrução de todos: “Foi preciso que o Cristo sofresse para entrar na sua glória, e não foi senão depois de ter bebido a longos sorvos na torrente da tribulação e do sofrimento que foi elevado ao mais alto dos céus.” (Salmo 109, v. 8.) É o comentário deste versículo, cujo texto é: “Ele beberá no caminho a água da torrente e é por ali que erguerá a cabeça (De torrente in via bibet: propterea exultabit caput)” 23.
Se, pois, “foi preciso que o Cristo sofresse para entrar na sua glória; se não pôde ser elevado ao mais alto dos céus senão pelas tribulações e pelo sofrimento”, é que antes nem estava na glória nem no mais alto dos céus; por conseguinte não era Deus. Seus sofrimentos, pois, não aproveitavam somente à Humanidade, desde que necessários ao seu próprio adiantamento. Dizer que o Cristo tinha necessidade de sofrer para elevar-se é dizer que não era perfeito antes de sua vinda.
Não conhecemos protesto mais enérgico contra a sua divindade. Se tal é o sentido do versículo do salmo que se canta nas vésperas24, todos os domingos cantam a não divindade do Cristo.
Com o sistema de interpretação vai-se muito longe, dizíamos nós. Se quiséssemos citar a de alguns concílios sobre este outro versículo: “O Senhor está a vossa direita; ele destruirá os reis no dia de sua cólera”, seria fácil provar que daí foi tirada a justificação do regicídio.
Diz ainda o Pe. Nampon: “A vida muda inteiramente de aspecto (com o Espiritismo). A imortalidade da alma reduz-se a uma permanência material, sem identidade moral, sem consciência do passado.”
É um erro. O Espiritismo jamais disse que a alma ficasse sem consciência do passado. Ela perde momentaneamente a sua lembrança durante a vida corpórea, mas “quando o Espírito volta à vida anterior (a vida espírita), diante dos olhos se lhe estende toda a sua vida pretérita. Vê as faltas que cometeu e que deram causa ao seu sofrer, assim como de que modo as teria evitado.
Reconhece justa a situação em que se acha e busca então uma existência capaz de reparar a que acaba de transcorrer.” (O Livro dos Espíritos, no 393). Uma vez que há lembrança do passado, consciência do ser, há, então, identidade moral; desde que a vida espiritual é a vida normal do Espírito, que as existências corpóreas não passam de pontos na vida espírita, a imortalidade não se reduz a uma permanência material. Como se vê, o Espiritismo diz exatamente o contrário. Desnaturando-o assim, o Pe. Nampon não tem a desculpa da ignorância, porque suas citações provam que leu, mas se equivoca ao truncar citações e ao fazê-lo dizer o contrário do que diz.
O Espiritismo é acusado por alguns de estribar-se no mais grosseiro materialismo, porque admite o perispírito, que tem propriedades materiais. É ainda uma falsa conseqüência, tirada de um princípio referido incompletamente. O Espiritismo jamais confundiu a alma com o perispírito, que não passa de um envoltório, como o corpo é um outro. Tivesse ela dez envoltórios e isto nada tiraria à sua essência imaterial. Já o mesmo não se dá com a doutrina adotada pelo concílio de Viena, no Dauphiné, na sua segunda sessão, em 3 de abril de 1312. Segundo essa doutrina, “a autoridade da Igreja ordena crer que a alma não passa da forma substancial do corpo; que não há idéias inatas e declara heréticos os que negarem a materialidade da alma.” Raul Fornier, professor de Direito ensina positivamente a mesma coisa em seus discursos acadêmicos, impressos em Paris em 1619, com aprovação e elogios de vários doutores em teologia.
É provável que o concílio, baseando-se nos fatos de numerosas manifestações espíritas visíveis e tangíveis, referidas nas Escrituras, manifestações que não deixam de ser materiais, pois ferem os sentidos, tenha confundido a alma com o envoltório fluídico ou perispírito, cuja distinção o Espiritismo demonstra. Sua doutrina é, pois, menos materialista que a do concílio.
“Mas abordemos sem hesitar o homem da França, que é o mais adiantado nesses estudos. Para constatar a identidade do Espírito que fala, é preciso, diz o Sr. Allan Kardec, estudar sua linguagem. Pois bem! Que seja! Conhecemos por seus escritos autênticos o pensamento certo e, conseguintemente, a linguagem de São João, São Paulo, Santo Agostinho, Fénelon, etc. Como, pois, em vossos livros, ousais atribuir a esses grandes gênios pensamentos e sentimentos inteiramente contrários aos que ficaram para sempre consignados em suas obras?”
Assim, admitis que essas personagens em nada se enganaram; que tudo quanto escreveram é a expressão da verdade; que se hoje voltassem corporalmente deveriam ensinar tudo o que ensinaram outrora; que, vindo como Espírito, não devem renegar nenhuma de suas palavras. Entretanto, Santo Agostinho olhava como heresia a crença na redondeza da Terra e nos antípodas.
Sustentava a existência dos íncubos e súcubos e acreditava na procriação pelo comércio dos homens com os Espíritos. Credes que a tal respeito e como Espírito não possa pensar de modo diverso do que pensava como homem e que hoje professasse essas doutrinas? Se suas idéias houveram de modificar-se em certos pontos, podem perfeitamente ter sido mudadas em outros. Se se enganou, logo ele, gênio incontestavelmente superior, por que vós mesmos não vos enganaríeis? Para respeitar a ortodoxia será preciso negar a Agostinho o direito, melhor dizendo, o mérito de retratar-se de seus erros?
“Atribuís a São Luís esta sentença ridícula, sobretudo em sua boca, contra a eternidade das penas: Supor Espíritos incuráveis é negar a lei do progresso.” (O Livro dos Espíritos, no 1007).
Não é assim que ela é formulada. À pergunta: Haverá Espíritos que nunca se arrependam? respondeu São Luís: “Há os de arrependimento muito tardio; porém, pretender-se que nunca se melhorarão fora negar a lei do progresso e dizer que a criança não pode tornar-se homem.” A primeira forma poderia parecer ridícula.
Por que, então, sempre truncar e desnaturar as frases? A quem pensam enganar? aos que apenas lerem esses comentários inexatos?
Mas seu número é muito pequeno, perto dos que querem conhecer o fundo das coisas sobre as quais vós mesmos chamais a atenção.
Ora, a comparação não pode senão favorecer o Espiritismo.
Nota – Para a edificação de todos, recomendamos a leitura da brochura intitulada: Do Espiritismo, pelo Rev. Pe. Nampon, da Companhia de Jesus, Livraria Girard et Josserand, Lyon, place Bellecour, no 30; Paris, rue Cassette, no 5. Rogamos também ler em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns os textos completos, citados resumidamente ou deturpados na brochura acima referida.