Deschamps? Porque num a visão espiritual estava desenvolvida; no outro, não. Segue-se que ele pudesse ver tudo, ler nos espelhos espirituais, por exemplo, ou ver a distância, à maneira dos sonâmbulos? Não, porque sua faculdade podia estar desenvolvida apenas num sentido especial, e parcialmente. Podia ler com a mesma facilidade o pensamento de todo o mundo? Não o diz, mas é provável que não, pois pode existir, de indivíduo a indivíduo, relações fluídicas que facilitam essa transmissão e não existir do mesmo indivíduo para uma outra pessoa. Ainda não conhecemos senão imperfeitamente as propriedades desse fluido universal, agente tão poderoso e que desempenha tão grande papel nos fenômenos da Natureza. Conhecemos o princípio, e já é muito para nos darmos conta de muitas coisas; os detalhes virão a seu tempo.
Tendo sido o fato acima comunicado à Sociedade de Paris, um Espírito deu a respeito a seguinte instrução: (Sociedade Espírita de Paris, 8 de julho de 1864 – Médium: Sr. A. Didier) Os ignorantes – e como os há! – ficam cheios de dúvidas e de inquietação quando ouvem falar de fenômenos espíritas. Segundo eles, a face do mundo está transtornada; a intimidade do coração, dos sentimentos e a virgindade do pensamento são lançadas através do mundo e entregues à mercê do primeiro que vier. Com efeito, o mundo estaria mudado singularmente e a vida privada não estaria protegida atrás da personalidade de cada um, se todos os homens pudessem ler no espírito uns dos outros.
Um ignorante nos diz com muita ingenuidade: Mas a justiça, as perseguições da polícia, as operações comerciais, governamentais, poderiam ser consideravelmente revistas, corrigidas, esclarecidas, etc., com o auxílio desses processos. Os erros estão muito espalhados. A ignorância tem isto de particular: faz esquecer completamente o objetivo das coisas, para lançar o espírito inculto numa série de incoerências.
Razão tinha Jesus ao dizer: “Meu reino não é deste mundo”, o que também significava que neste mundo as coisas não se passam como no seu reino. O Espiritismo, que em tudo e por tudo é o espiritualismo do Cristianismo, pode igualmente dizer aos ambiciosos e aos terroristas ignorantes, que o seu grande objetivo não é dar pilhas de ouro a um e deixar a consciência de um ser fraco à mercê de um ser mais forte, e de aliar a força e a fraqueza num duelo eternamente inevitável, prestes a acontecer; não. Se o Espiritismo proporciona satisfações, são as da calma, da esperança e da fé; se às vezes adverte por pressentimentos, ou pela visão adormecida ou desperta, é que os Espíritos sabem perfeitamente que uma ação caridosa particular não transtornará a superfície do globo. Aliás, se se observar a marcha dos fenômenos, o mal aí tem uma parte mínima. A ciência funesta parece relegada nos alfarrábios dos velhos alquimistas, e se Cagliostro voltasse, certamente não viria armado da varinha mágica ou do frasco encantado com que se apresentava, mas com sua força elétrica, comunicativa, espiritualista e sonambúlica, força que todo ser superior possui em si e que, ao mesmo tempo, toca o coração e o cérebro.
Como eu dizia ultimamente (o Espírito faz alusão a outra comunicação), a adivinhação era o maior dom de Jesus.
Destinados a se tornarem superiores, como Espíritos, pedimos a Deus uma parte dos raios que concedeu a certos seres privilegiados, que facultou a mim mesmo e que eu poderia ter espalhado mais judiciosamente.
Mesmer Observação – Não há uma só das faculdades concedidas ao homem da qual este não possa abusar, em virtude de seu livre-arbítrio. Não é a faculdade que é má em si, mas o uso que dela se faz. Se os homens fossem bons, nenhuma seria de temer, porque ninguém as usaria para o mal. No estado de inferioridade em que ainda se acham os homens na Terra, a penetração do pensamento, se fosse geral, seria, talvez, uma das mais perigosas, porque se tem muito a esconder, e muitos podem abusar. Mas, sejam quais forem os inconvenientes, se ela existe é um fato que se deve aceitar, por bem ou por mal, pois não se pode suprimir um efeito natural. Deus, porém, que é soberanamente bom, mede a extensão dessa faculdade pela nossa fraqueza. Ele no-la mostra de vez em quando, para fazer-nos compreender melhor a nossa essência espiritual e nos advertir de trabalhar a nossa depuração, para não termos de temê-la.