Intervenção da Ciência no Espiritismo
É um erro pensar que a fé seja necessária; mas a boa-fé é outra coisa. Há cépticos que negam até a evidência, e os próprios milagres não os convenceriam. Há mesmo os que ficariam muito aborrecidos de serem forçados a crer, pois o seu amor-próprio sofreria ao reconhecerem que se enganaram. O que responder a certas pessoas que, em toda parte, não enxergam senão charlatanismo e ilusão? Nada. É preciso deixá-las em paz e dizerem, enquanto quiserem, que nada viram e, até mesmo, que nada lhes pudemos fazer ver. A par desses cépticos endurecidos, há os que querem ver a seu modo; aqueles que, formada uma opinião, a ela tudo querem submeter, por não compreenderem a existência de fenômenos que não lhes obedecem à vontade. Ou não sabem, ou não querem dobrar-se às condições necessárias. Se os Espíritos não demonstram tanto zelo em conquistá-los por meio de prodígios é porque, no momento, pelo menos aparentemente, pouco interesse têm em convencer certas pessoas, cuja importância não medem como elas próprias o fazem. Precisamos convir que é pouco lisonjeiro, mas não lhes governamos a opinião. Os Espíritos têm uma maneira de julgar as coisas que nem sempre é a nossa; vêem, pensam e agem de acordo com outros elementos. Enquanto nossa vista é circunscrita pela matéria, limitada pelo estreito círculo em meio ao qual nos achamos, eles tudo abarcam; o tempo, que nos parece tão longo, para eles é um instante, e a distância, nada mais que um passo; certos detalhes, que nos parecem de extrema importância, a seus olhos não passam de infantilidades, ao passo que julgam essenciais certas coisas cujo alcance não apreendemos. Para os compreender é preciso nos elevemos, pelo pensamento, acima do nosso horizonte material e moral e nos coloquemos sob o seu ponto de vista. Não lhes compete descer até nós: nós é que devemos subir até eles, conduzidos pelo estudo e pela observação. Os Espíritos apreciam os observadores assíduos e conscienciosos, para os quais multiplicam as fontes de luz; o que os afasta não é a dúvida originada da ignorância, mas a fatuidade desses pretensos observadores que nada observam, que aspiram a pô-los em xeque e a manobrá-los como marionetes. É sobretudo o sentimento de hostilidade e de descrédito que trazem, sentimentos que estão na mente, quando não nas palavras, malgrado os protestos em contrário. Para estes nada fazem os Espíritos, muito pouco se importando com o que possam dizer ou pensar, porque chegará a sua vez. Eis por que dissemos não ser a fé necessária, mas a boa-fé. Ora, perguntamos se os nossos sábios adversários estarão sempre nessas condições. Querem os fenômenos às suas ordens, mas os Espíritos não lhes obedecem o comando: destes é necessário esperar a boa vontade. Não basta dizer: mostrai-me tal fato e acreditarei; é preciso ter vontade e perseverança, deixar que os fatos se produzam espontaneamente, sem querer forçá-los ou dirigi-los. Aquilo que desejardes será precisamente o que não havereis de obter, mas outros se apresentarão, e aquilo que desejais virá provavelmente no momento em que menos esperais. Aos olhos do observador atento e assíduo surge uma multidão de fenômenos, que se corroboram reciprocamente. Mas aquele que imagina ser suficiente girar a manivela para movimentar a máquina, engana-se redondamente. Que faz o naturalista que deseja estudar os costumes de um animal? Ordena-lhe fazer tal ou qual coisa para se dar ao prazer de o observar à vontade, e de acordo com a sua conveniência? Não, pois sabe perfeitamente que não será obedecido. Em vez disso, espreita as manifestações espontâneas de seu instinto; espera-as e as surpreende de passagem. O simples bom-senso nos mostra, com mais forte razão, que assim deve acontecer com os Espíritos, que são inteligências muito mais independentes que a dos animais. Conversas Familiares de Além-Túmulo
TAG Valor
Mês Junho
Ano 1859