O que pode parecer mais extraordinário, e se explica menos facilmente é o fato das portas abertas, depois de cuidadosamente fechadas a chave. As manifestações modernas disto oferecem vários exemplos. Um fato análogo passou-se em Limoges, há alguns anos (Revista de agosto de 1860). Mesmo que o estado de nossos conhecimentos ainda não nos permita dar-lhe uma explicação concludente, isto nada prejulga, porque estamos longe de conhecer todas as leis que regem o mundo invisível, todas as forças que encerra este mundo, nem todas as aplicações das leis que conhecemos. O Espiritismo ainda não disse a última palavra; longe disso: nem sobre as coisas físicas, nem sobre as coisas espirituais. Muitas das descobertas serão fruto de observações ulteriores. De certo modo o Espiritismo não fez, até agora, senão fincar as primeiras balizas de uma ciência cujo alcance é desconhecido. Com o auxílio do que já descobriu, abre aos que vierem depois de nós, o caminho das investigações numa ordem especial de idéias. Só procede por observações e deduções, e jamais por suposição. Se um fato é constatado, diz-se que deve ter uma causa e que esta causa só pode ser natural; então ele a procura. Em falta de uma demonstração categórica, pode dar uma hipótese, mas até que seja confirmada, não a dá senão como hipótese, e não como verdade absoluta. Em relação ao fenômeno das portas abertas, como ao dos transportes através de corpos rígidos, ainda está reduzido a uma hipótese, baseada nas propriedades fluídicas da matéria, muito imperfeitamente conhecidas, ou, melhor dizendo, apenas suspeitadas. Se o fato em questão for confirmado pela experiência, deve ter, como dissemos, uma causa natural; se se repetir, não é uma exceção, mas a conseqüência de uma lei. A possibilidade da libertação de São Pedro de sua prisão, referida nos Atos dos Apóstolos, capítulo 12, seria assim demonstrada sem que houvesse necessidade de recorrer ao milagre.
De todos os efeitos mediúnicos, as manifestações físicas são as mais fáceis de simular. Por isso, deve-se evitar aceitar muito levianamente, como autênticos, os fatos deste gênero, sejam espontâneos, como os do moinho de Vicq-sur-Nahon, sejam conscientemente provocados pelo médium. A imitação, é verdade, só poderia ser grosseira e imperfeita, mas com habilidade pode-se enganar facilmente, como outrora fizeram com a dupla vista, aos que não conheciam as condições nas quais os fenômenos reais podem produzir-se. Vimos supostos médiuns de rara habilidade simulando transportes, escrita direta e outros gêneros de manifestações. Assim, só se deve admitir com conhecimento de causa a intervenção dos Espíritos nessas espécies de coisas.
No caso de que se trata não afirmamos esta intervenção; limitamo-nos a dizer que ela é possível. Apenas os dois princípios de incêndio poderiam fazer suspeitar um ato humano, suscitado pela malevolência, que sem dúvida o futuro levará a descobrir. Todavia, é bom notar que, graças à clarividência da jovem, suas conseqüências puderam ser evitadas. Com exceção deste último fato, os demais não passaram de travessuras sem maior importância. Se são obra dos Espíritos, só podem provir dos Espíritos levianos, divertindo-se com os terrores e as impaciências que causam. Sabe-se que os há de todos os caracteres, como na Terra. O melhor meio de se desembaraçar deles é não se inquietar com eles e esgotar a sua paciência, que jamais é tão longa quando vêem que ninguém se preocupa com eles, o que se lhes prova rindo de suas malícias e os desafiando a fazer mais. O meio mais seguro de os excitar a perseverar é atormentar-se e encolerizar-se contra eles. Pode-se ainda livrar-se deles evocando-os com o auxílio de um bom médium e orando por eles; então, entretendo-se com eles, pode saber-se o que são e o que querem, e os fazer escutar a razão.
Aliás, estes tipos de manifestações têm um resultado mais sério: o de propagar a idéia do mundo invisível que nos rodeia, e afirmar a sua ação sobre o mundo material. É por isto que elas se produzem de preferência entre pessoas estranhas ao Espiritismo, antes que nos espíritas, que delas não necessitam para se convencerem.
A fraude, em semelhante caso, por vezes pode ser apenas inocente brincadeira, ou um meio de se dar importância, fazendo crer numa faculdade que não se possui, ou se a possui imperfeitamente. Mas na maioria dos casos ela tem por móvel um interesse patente ou dissimulado, e por objetivo explorar a confiança das pessoas demasiado crédulas ou inexperientes. É então uma verdadeira fraude. Seria supérfluo insistir em dizer que os que se tornam culpados de quaisquer enganos deste gênero, mesmo que fossem solicitados apenas pelo amor-próprio, não são espíritas, ainda que se dêem como tais. Os fenômenos reais têm um caráter sui generis, e se produzem em circunstâncias que desafiam toda suspeição. Um conhecimento completo desses caracteres e dessas circunstâncias pode facilmente levar a descobrir a trapaça.
Se essas explicações chegarem ao conhecimento do Sr.
Garnier, ele aí encontrará a resposta ao pedido que faz em sua carta.
Um de nossos correspondentes nos transmite o relato, escrito por uma testemunha ocular, de manifestações análogas ocorridas em janeiro último, no burgo da Basse-Indre (Loire- Inférieure). Consistiam em batidas com obstinação, durante várias semanas e que puseram em polvorosa todos os habitantes de uma casa. As pesquisas e investigações feitas pela autoridade para lhes descobrir a causa não conduziram a nada. Aliás, este fato não apresenta nenhuma particularidade mais notável, a não ser, como todas as manifestações espontâneas, chamar a atenção para os fenômenos espíritas.
Como fato de manifestações físicas, as que se produzem assim espontaneamente exercem sobre a opinião pública uma influência infinitamente maior que os efeitos provocados diretamente por um médium, seja porque têm maior repercussão e notoriedade, seja porque dão menos ensejo às suspeitas de charlatanismo e de prestidigitação.
Isto nos lembra um fato que se passou em Paris, no mês de maio do ano passado. Ei-lo, tal como foi referido na ocasião, pelo Petit Journal.