Todas as grandes idéias, todas as idéias renovadoras, assim na ordem científica como na ordem moral, receberam o batismo da perseguição, e isto era inevitável, porque elas ferem os interesses dos que viviam velhas idéias, preconceitos e abusos. Mas, desde que essas idéias constituem verdades, já se viu alguma vez a perseguição deter o seu curso? Não está aí a história de todos os tempos para provar que, ao contrário, elas cresceram, consolidaram-se, propagadas pelo efeito mesmo da perseguição? A perseguição foi o estimulante, o aguilhão que as impeliu para frente e fez avançar mais depressa, superexcitando os espíritos, de sorte que os perseguidores trabalharam contra si mesmos e não ganharam senão ser estigmatizados pela posteridade. Só se perseguiram as idéias nas quais se via o futuro; as que julgaram sem conseqüência deixaram que morressem de morte natural.
O Espiritismo, ele também, é uma grande idéia; devia, pois, receber seu batismo como seus precursores, porque o espírito dos homens não mudou, e lhe acontecerá o que aconteceu aos outros: um acréscimo de importância aos olhos da multidão e, por conseguinte, maior popularidade. Quanto mais em evidência estiverem as vítimas por sua posição, maior repercussão haverá em razão da extensão de suas relações.
A curiosidade é tanto mais superexcitada quanto mais a pessoa é cercada de mais estima e consideração; cada um quer saber o porquê e o como; conhecer o fundo dessas opiniões, que despertam tanta cólera; interrogam, lêem, e eis como uma porção de gente, que talvez jamais se teria ocupado de Espiritismo, é levada a conhecê-lo, a julgá-lo, a apreciá-lo e a adotá-lo. Tal foi, como se sabe, o resultado das declamações furibundas, das interdições pastorais, das diatribes de toda sorte. Tal será o das perseguições.
Estas fazem mais: elevam o Espiritismo ao nível das crenças sérias, porque diz o bom-senso que não se combatem quimeras.
A perseguição contra as idéias falsas, errôneas, é inútil, porque estas se desacreditam e caem por si mesmas. Tem como efeito criar partidários e defensores, e retardar a sua queda, porque muitos as consideram como boas, precisamente porque são perseguidas. Quando a perseguição se ataca a idéias verdadeiras, vai diretamente contra o seu objetivo, porque lhe favorece o desenvolvimento; é, pois, em todos os casos, uma inabilidade que se volta contra os que a cometem.
Um escritor moderno lamentava que não tivessem queimado Lutero, a fim de destruir o protestantismo em sua raiz; mas como não poderiam tê-lo queimado senão após a emissão de suas idéias, se o tivessem feito o protestantismo talvez estivesse duas vezes mais espalhado do que está. Queimaram João Huss; que ganhou com isso o concílio de Constança? cobrir-se com uma nódoa indelével. Mas as idéias do mártir não foram queimadas com ele: foram um dos fundamentos da Reforma. A posteridade conferiu a glória a João Huss e a vergonha ao concílio. (Revista Espírita, agosto de 1866). Hoje já não queimam, mas perseguem de outras maneiras.
Sem dúvida, quando desaba uma tempestade, muitos se põem ao abrigo. As perseguições podem, pois, impedir momentaneamente a livre manifestação do pensamento; os perseguidores, crendo tê-la abafado, adormecem numa segurança enganadora; mas o seu pensamento não subiste menos, e as idéias reprimidas são como as plantas em estufa: crescem mais depressa.