Argumentos teológicos de milênios obstruem os canais da inteligência humana, quanto às realidades divinas. Mas a criatura prosseguirá na tarefa de autodescobrimento. A força mental, na luta comum, permanece restrita ao círculo acanhado da personalidade egoística, copiando o molusco algemado à concha, e sabemos que semelhante energia, patrimônio eterno com que nos sublimamos ou viciamos, emite raios criadores sobre a matéria passiva que nos cerca, dependendo de nós a direção que venha a tomar. Se milhões de raios luminosos formam um astro brilhante, é natural que milhões de pequeninos desesperos integrem um inferno perfeito. Herdeiros do Poder Criador, geraremos forças afins conosco, onde estivermos. Não será tudo isto perfeitamente inteligível? É por esta razão que o Senhor mandou constar no Livro Divino o seu aviso celestial:
— “Eis que estou à porta e bato.” () Se alguém abre a porta viva da alma, haverá realmente o colóquio redentor, entre o Mestre e o discípulo. O coração é tabernáculo e a sublimação das potências que o integram é a única via de acesso às Esferas superiores. O devotado orientador fixou o gesto de quem dava término oportuno às explicações, sorriu, benévolo, e interrogou:
— Qual de nós cometeria o absurdo de exigir voo ao balão cativo? A mente humana, enraizada nos interesses mais fortes da Terra, não detém outro símbolo. Calamo-nos, atendidos em nossa fome de elucidações. Colhêramos ali, na conversação de alguns minutos, precioso material de observação para longo tempo. Prosseguíamos, agora, em silêncio, extáticos ante a beleza imponente da noite, maravilhosamente constelada. Vento brando sussurrava cânticos sem palavras na folhagem leve e grupos de amigos, que nos defrontavam de instante a instante, mostravam no olhar a mesma doce felicidade que transbordava do arvoredo florido. E assim, banhados em comoções inesquecíveis, buscamos o santuário em que receberíamos instruções para serviço próximo, inundados de confiança e alegria, na posição de trabalhadores jubilosos que caminhassem contentes para a luta, como se avançassem, felizes, para uma festa de luz.