Precursores do Espiritismo – Dupont de Nemours
Elas podem assistir às nossas mais secretas ações; podem ser instruídas dos nossos solilóquios e mesmo dos nossos pensamentos não formulados. Ignoramos de quantas maneiras dispõem para ler no nosso coração; nós, cuja miséria, grosseria e inépcia limitam nossos meios de conhecer pelo toque, de ver, ouvir e por vezes analisar, conjecturar. Esta casa, que um célebre romano queria construir, aberta à vista de todos os cidadãos, existe e nela habitamos. Nossos vizinhos são os chefes e os magistrados da grande república, investidos do direito e do poder de recompensar e punir, o que para eles não é um mistério. E os que lhe penetram mais completamente as mínimas variações, as inflexões mais delicadas, são os mais poderosos e os mais sábios. “Eles jamais nos abandonam; nós os encontramos sobretudo quando estamos sós. Acompanham-nos em viagem, no exílio, na prisão, no calabouço. Adejam em torno de nossa cabeça pensativa e tranqüila. Podemos interrogá-los; e toda vez que o tentamos dir-se-ia que eles nos respondem. Por que não o fariam? Bem que os nossos amigos nos prestam semelhante serviço, mas só aqueles que nos inspiram um grande respeito.” Página 161 e seguintes: Pluralidade das existências. “Se o verdadeiro nós não encerra senão a nossa inteligência, a nossa faculdade de sentir, de raciocinar; se o nosso corpo e os órgãos que o compõem não passam de uma máquina ao nosso serviço, isto é, a da inteligência que seria o nós; se os limites do poder presente desta inteligência não se devem à sua natureza inteligente, mas apenas ao maior ou menor grau de perfeição da máquina que lhe foi dada para reagir; se pode aperfeiçoar essa máquina e o partido que dela tira, a tese muda e todas as conseqüências devem mudar. “Confesso que essa suposição me parece verdadeira e espero vos mostrar antes de terminar este escrito que é a que melhor se harmoniza com as leis gerais, com a ordem eqüitativa e cheia de razão que impera no Universo. Parece-me que o eu não é meu braço, nem minha cabeça, nem uma mistura de membros e de espírito, mas o princípio inteligente que caminha por minhas pernas, fere ou trabalha pelos meus braços, combina por minha cabeça, goza ou padece por todos os meus órgãos. Não vejo nestes senão condutores adequados para conduzir as sensações e servidores para meu uso. Nunca me convencerei de que o eu não seja outra coisa senão o que sente, pensa ou raciocina em mim. “Se não me engano, e se não há outro Dupont além daquele que vos ama, onde está a dificuldade, senão quando sua casa for destruída? Ele procurará uma nova para a inteligência que lhe restar; ele a solicitará e a receberá, quer dos seres inteligentes que lhe são superiores, quer do Deus remunerador, quer mesmo de alguma lei da Natureza que nos seja desconhecida e que, para animar os corpos dos seres inteligentes superiores, daria prioridade aos princípios inteligentes que tivessem tido a melhor conduta num corpo de ordem inferior; àquele que fosse o mais elevado, acima do alcance comum dos outros seres inteligentes, atados de pés e mãos como ele, sob os órgãos de um animal da mesma espécie...” Página 166 e seguintes: Origens animais. “Talvez haja alguma indução a tirar da admirável semelhança encontrada entre certos homens e certos animais. Quando vejo meus olhos, minha fronte, meu nariz, meu queixo, o pescoço, o lombo, a marcha, as paixões, o caráter, os defeitos, as virtudes, a probidade, o orgulho, a doçura, a cólera, a preguiça, a vigilância e a teimosia de um cão de raça, não tenho qualquer repugnância em acreditar que outrora eu fui um cão leal, singularmente fiel e obediente ao meu dono, caçando maravilhosamente, acariciando os filhos à sua maneira, defendendo as colheitas, guardando o rebanho de dia e a porta à noite, levantando a pata contra os cães fraldiqueiros, valente a ponto de ousar atacar o tigre, com risco de ser por este comido, afrontando o javali e não tendo nenhum medo do lobo. Para essas boas qualidades, turvadas por alguns resmungos, algumas querelas descabidas e algumas carícias inoportunas, a gente se torna o animal que eu sou: em geral muito estimado, amado por algumas pessoas e as amando mais ainda; afinal de contas, muito feliz; inquieto algumas vezes por seus amigos, sensível a esses incidentes como um pobre cão que se chicoteia injustamente. Esquecimento das existências anteriores “A lembrança da vida precedente seria um poderoso recurso para a que a segue; alguns seres superiores ao homem, quando estão em marcha gradual de perfeição e de adiantamento ininterrupto, talvez têm essa vantagem como recompensa por sua virtude passada; sem dúvida não pode ser concedida senão aos que ainda são provados e que devem subir a Deus, começando ou recomeçando novamente esta carreira, iniciativa de alta moralidade.” Variedades
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Mês Outubro
Ano 1869