Exéquias do Sr. Sanson
“Eu vos ouvi falar hoje. Vossas preces me sensibilizaram profundamente. Acompanhastes um bom e digno Espírito e tudo quanto dissestes e fizestes me comoveu. Eu estava em numerosa companhia e, em comum, oramos por todos vós, pelo futuro de vossas santas crenças. Orai por nós, que necessitamos de socorro. O Espírito Sansão, que nos acompanhava, prometeu que pensaríeis em nós. Desejo reencarcerar 28, a fim de que minha prova seja útil e conveniente ao meu futuro no mundo dos Espíritos. Adeus meus amigos; falo assim porque amais os que sofrem. Para vós: bons pensamentos, futuro feliz.” Como esse episódio se liga à evocação do Sr. Sanson, julgamos por bem mencioná-lo, porque encerra eminente assunto de instrução. Cremos cumprir um dever recomendando esse Espírito às preces de todos os verdadeiros espíritas; elas não poderão senão fortalecê-lo em suas boas resoluções. A conversa com o Sr. Sanson foi retomada na sessão da Sociedade, na sexta-feira seguinte ao dia 25 de abril e deve ser continuada. Aproveitamos a sua boa vontade e as suas luzes para obter novos esclarecimentos, tão precisos quanto possível, sobre o mundo invisível, comparado com o visível, principalmente sobre a transição de um ao outro, o que interessa a todo o mundo, considerando-se que todas as criaturas, sem exceção, haverão de passar por isso. O Sr. Sanson prestou-se com a sua benevolência habitual. Aliás, como se viu, era seu desejo antes de morrer. Suas respostas formam um conjunto muito instrutivo e de um interesse tanto maior quanto emanam de uma testemunha ocular, que analisa ela mesma suas próprias sensações, exprimindo-se ao mesmo tempo com elegância, clareza e profundidade. Publicaremos a continuação em nosso próximo número. Um fato importante a ser destacado é que o Sr. Leymarie, médium que serviu de intermediário no dia do enterro e nos dias subseqüentes, jamais tinha visto o Sr. Sanson e não conhecia o seu caráter, nem a sua posição, nem os seus hábitos. Não sabia se tinha filhos e, menos ainda, se estes partilhavam ou não de suas idéias sobre o Espiritismo. É, pois, de modo inteiramente espontâneo que o Sr. Leymarie fala do assunto, revelando-se o caráter do morto pelo lápis do médium, sem que a imaginação deste último pudesse influenciar no que quer que fosse. Um fato não menos curioso, e que prova não serem as comunicações o reflexo do pensamento, é a de Bernardo, em quem nenhum dos assistentes poderia pensar, porque, desde que o médium tomou o lápis, supôs-se que provavelmente seria um desses Espíritos habituais, Baluze ou Sonnet. Neste caso, dever-se-ia perguntar: do pensamento de quem aquela comunicação seria o reflexo? DISCURSO DO SR. ALLAN KARDEC NO ENTERRO DO SR. SANSON Senhores e caros colegas da Sociedade Espírita de Paris, É a primeira vez que conduzimos um de nossos colegas à sua última morada. Este a quem vimos dizer adeus vós o conhecestes e soubestes apreciar as suas eminentes qualidades. Lembrando-as aqui eu não diria senão o que todos já sabeis: coração eminentemente reto, de uma lealdade a toda prova, sua vida foi a de um homem de bem em toda a acepção do termo; penso que ninguém protestará contra este testemunho. Essas qualidades ainda eram realçadas por grande bondade e extrema benevolência. Haverá necessidade de ter praticado ações brilhantes e de deixar um nome à posteridade? Por certo isto não lhe daria um lugar melhor no mundo onde agora se encontra. Se, pois, sobre a sua tumba não vamos deitar uma coroa de louros, todos quantos o conheceram aqui depositam, na sinceridade de sua alma, coroas mais preciosas ainda: as da estima e da afeição. Como sabeis, senhores, o Sr. Sanson era dotado de uma inteligência pouco comum e de uma grande justeza de apreciação, ainda mais desenvolvida por uma instrução, ao mesmo tempo variada e profunda. De uma simplicidade patriarcal na maneira de viver ele hauria, dos recursos de seu próprio espírito, os elementos de uma incessante atividade intelectual que aplicava em pesquisas, em invenções, sem dúvida muito engenhosas, mas que, infelizmente, não lhe trouxeram nenhum resultado. Era um desses homens que jamais se aborrecem, porque estão sempre a pensar em algo sério. Embora sua posição o tivesse privado daquilo que faz as delícias da vida, seu bom humor jamais se alterava. Creio não exagerar dizendo que ele era o tipo do verdadeiro filósofo, não do filósofo cínico, mas daquele que está sempre contente com o que tem, sem jamais se atormentar pelo que não possui. Esses sentimentos por certo constituíam o fundo de seu caráter, mas, nos últimos anos, foram singularmente fortalecidos por suas crenças espíritas; elas o auxiliaram a suportar longos e cruéis sofrimentos com uma paciência e uma resignação verdadeiramente cristãs. Não há um só dentre nós que, o tendo visto em seu leito de dor, não se tenha edificado com a sua calma e com a sua inalterável serenidade. Desde muito tempo ele previa o seu fim, mas, longe de se assustar, o esperava como a hora da libertação. Ah! é que a fé espírita proporciona, nesses momentos supremos, uma força da qual só se dá conta aquele que a possui, e essa força o Sr. Sanson a possuía em grau supremo. O que é, então, a fé espírita? talvez perguntem alguns dos que me ouvem. – A fé espírita consiste na convicção íntima de que temos uma alma; que esta alma, ou Espírito, o que é a mesma coisa, sobrevive ao corpo; que é feliz ou infeliz, conforme o bem ou o mal que fez durante a vida. Dirão que isso é do conhecimento de todos. Sim, exceto dos que crêem que tudo se acaba quando morremos, e estes são mais numerosos do que se pensa neste século. Assim, segundo estes últimos, os despojos mortais que temos sob os nossos olhos e que estarão, dentro de alguns dias, reduzidos a pó, será tudo quando restaria daquele a quem pranteamos. Assim, viemos prestar homenagem a quem? a um cadáver; porque de sua inteligência, de seu pensamento, das qualidades que o faziam amar, nada restará, tudo será aniquilado, como sucederá conosco, quando morrermos! Esta idéia do nada que nos aguarda não tem algo de pungente, de glacial? Quem é que, em presença desse túmulo entreaberto, não sente correr um arrepio nas veias, só de pensar que amanhã, talvez, o mesmo lhe acontecerá e que, depois de umas padejadas de terra, lançadas sobre o seu corpo, tudo estará terminado para sempre? Depois de tudo isto, quem não pensará mais, não sentirá e não amará de modo mais intenso? Mas ao lado dos que negam, há o número maior ainda dos que duvidam, por não terem uma certeza positiva, e para os quais a dúvida é uma tortura. Todos vós que credes firmemente que o Sr. Sanson tinha uma alma, que pensais em que se tenha ela tornado? onde está? o que faz? Direis: Ah! se pudéssemos saber! jamais a dúvida teria entrado em nosso coração. Sondai bem o fundo dos vossos pensamentos e convencei-vos de que já aconteceu, a vários dentre vós, falando da vida futura, dizer: “E se não fosse assim?” E dizíeis isso porque não a compreendíeis, porque dela fazíeis uma idéia que não podia conciliar-se com a vossa razão. Pois bem! o Espiritismo vem fazê-la compreendida; vem, por assim dizer, tocá-la com o dedo e fazer com que seja vista; vem torná-la tão palpável, tão evidente, que negá-la seria negar a própria luz. Em que se tornou, então, a alma do nosso amigo? Está aqui, ao nosso lado, ouvindo-nos e penetrando o nosso pensamento, julgando o sentimento que cada um alberga nesta triste cerimônia. Esta alma não é o que vulgarmente pensam: uma chama, uma centelha, algo vago e indefinido. Não a vereis, conforme as idéias supersticiosas, correr à noite pela terra como um fogo-fátuo. Não; ela tem uma forma, um corpo como em vida; mas um corpo fluídico, vaporoso, invisível aos nossos sentidos grosseiros e que, no entanto, sob determinadas condições, pode tornar-se visível. Quando este envoltório está gasto e não mais pode funcionar, cai, como a casca de um fruto maduro e a alma o abandona como se deixasse uma roupa velha, que já não serve para nada. É este envoltório da alma do Sr. Sanson, é esta velha roupa que o fazia sofrer, que está no fundo da cova: é tudo o que há dele; mas conservou o envoltório etéreo, indestrutível, radioso, que não está sujeito nem às doenças, nem às enfermidades. É assim que está entre nós. Mas não penseis que esteja só; aqui se acham milhares deles no mesmo caso, que assistem às despedidas que fazemos àquele que parte, e que vêm felicitar o recém-chegado por ter-se libertado das misérias terrestres. De sorte que, se neste momento, o véu que os oculta à nossa vista pudesse ser levantado, veríamos toda uma multidão a nos acotovelar, circulando entre nós, e nesse número veríamos o Sr. Sanson, não mais impotente e deitado no seu leito de sofrimento, mas alerta, lépido, locomovendo-se sem esforço, de um local a outro, com a rapidez do pensamento, sem ser detido por nenhum obstáculo. Estas almas, ou Espíritos, constituem o mundo invisível, em meio ao qual vivemos sem o perceber, de modo que os parentes e amigos que perdemos estão mais perto de nós depois da morte do que se, em vida, estivessem num país estrangeiro.
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Mês Maio
Ano 1862