Aliás, este fenômeno serve muito mais de complemento à instrução dos Espíritos do que para a convicção dos incrédulos, que nele veriam apenas uma comédia. Só os espíritas esclarecidos o podem compreender e nele descobrir as provas da sinceridade ou da hipocrisia, como em todos os outros gêneros da mediunidade; só eles podem destacar o que é útil, deduzindo suas conseqüências para o progresso da ciência, na qual os faz penetrar mais cedo. É por isso que esses fenômenos geralmente só se produzem na intimidade, onde os médiuns não teriam nenhum interesse em simular uma faculdade inexistente e onde o embuste logo seria desmascarado.
As nuanças de observação aqui são tão delicadas e sutis que requerem uma atenção contínua. Nesse estado de emancipação, a sensibilidade e a impressionabilidade são tão grandes, que a faculdade não pode desenvolver-se em todo o seu esplendor senão sob uma influência fluídica inteiramente simpática; basta uma corrente contrária para a alterar, como o sopro que embacia o gelo.
A sensação penosa que, por isso, sente o médium, o faz dobrar-se sobre si mesmo, como a sensitiva à aproximação da mão. Sua atenção se volta, então, na direção dessa corrente desagradável; penetra o pensamento que é a sua fonte, a vê e a lê e, quanto mais a sente antipática, tanto mais ela o paralisa. Por aí se julgue do efeito que deve produzir um concurso de pensamentos hostis! Essas espécies de fenômenos também não se prestam absolutamente a exibições públicas, nas quais a curiosidade é o sentimento dominante, quando não o da malevolência. Além disso, requerem das testemunhas uma excessiva prudência, porque não se deve perder de vista que, nesses momentos, a alma só se prende ao corpo por um frágil laço, e que um abalo pode causar, no mínimo, graves desordens na economia. Uma curiosidade indiscreta e brutal pode acarretar as mais funestas conseqüências. Eis por que nunca se agiria com excessiva precaução.
Quando, ao começar, o Sr. V... diz que “toda vontade, toda ação magnética é e deve ficar estranha a esse fenômeno”, dá a compreender que só a ação dos Espíritos é a sua causa e que ninguém poderia provocá-la. A recomendação de não falar nem a um, nem a outro, tinha por objetivo deixá-los inteiramente no êxtase. As perguntas teriam tido por efeito deter o impulso de seus Espíritos, trazendo-os ao terra-a-terra e lhes desviando o pensamento do objetivo principal. A exaltação da sensibilidade tornava igualmente necessária a recomendação de não os tocar. O contato teria produzido uma comoção penosa e prejudicial ao desenvolvimento da faculdade.
De acordo com isto, compreende-se por que a maior parte dos homens de ciência, chamados a constatar fenômenos desse gênero, ficam decepcionados. Não é por causa de sua falta de fé, como o pretendem, que o efeito é recusado pelos Espíritos: são eles mesmos que, por suas disposições morais, produzem uma reação contrária; em vez de se colocarem nas condições do fenômeno, querem colocar o fenômeno em sua própria condição.
Gostariam de aí encontrar a confirmação de suas teorias antiespiritualistas, porquanto, para eles, somente aí está a verdade, e se sentem vexados e humilhados por receberem um desmentido pelos fatos. Então nada obtêm, ou só obtêm coisas que contradizem sua maneira de ver; em vez de rever suas opiniões, preferem negar, ou dizer que é uma ilusão. E como poderia ser de outro modo entre pessoas que não admitem a espiritualidade? O princípio espiritual é a causa de fenômenos de uma ordem particular; buscar a sua causa fora desse princípio é buscar a causa do raio fora da eletricidade. Não compreendendo as condições especiais do fenômeno, fazem experiências sobre o paciente como se este fosse um tubo de ensaio, cheio de produtos químicos; torturam-no como se se tratasse de uma intervenção cirúrgica, com risco de comprometer sua vida ou sua saúde.
O êxtase, que é o mais alto grau de emancipação, exige tanto mais precauções quanto, nesse estado, inebriado pelo sublime espetáculo que tem sob os olhos, o Espírito geralmente não pede senão para ficar onde está e deixar a Terra completamente; muitas vezes, até, faz esforços para romper o último laço que o prende ao corpo e, se sua razão não fosse bastante forte para resistir à tentação, deixar-se-ia ir de boa vontade. É então que se faz necessário vir em seu auxílio por uma vontade forte, tirando-o desse estado. Compreende-se que aqui não há uma regra absoluta e que é preciso conduzir-se conforme as circunstâncias.
A propósito, um de nossos amigos nos oferece interessante tema de estudo.
Outrora tinham procurado magnetizá-lo, mas inutilmente. Desde algum tempo ele cai espontaneamente em sono magnético sob a influência da mais leve causa; basta que escreva algumas linhas mediunicamente e, por vezes, uma simples conversação. Em seu sono, tem percepções e ordem mais elevada; fala com eloqüência e aprofunda com lógica notável as mais sérias questões. Vê os Espíritos perfeitamente, mas sua lucidez apresenta graus diversos, pelos quais passa sucessivamente; o mais ordinário é o de um semi-êxtase. Em certos momentos exalta-se e, se experimentar uma viva emoção, o que é freqüente, exclama com uma espécie de terror, e isto muitas vezes em meio à mais interessante conversa: Despertai-me imediatamente, o que seria imprudente não o fazer. Felizmente, indicou-nos o meio de o despertar instantaneamente, e que consiste em soprar fortemente em sua fronte, pois os passes magnéticos produzem um efeito muito lento, ou nulo.
Eis a explicação que nos foi dada sobre sua faculdade por um de nossos guias, com o concurso de outro médium: “O Espírito T... é entravado em seu impulso pela prova material que escolheu. O instrumento que ele faz mover, o seu corpo, no estado atual em que se encontra, não é bastante maleável para lhe permitir assimilar os conhecimentos necessários, ou utilizar os que possui, de moto próprio, e no estado de vigília.
Quando está adormecido o corpo, deixando de ser um entrave, apenas se torna o porta-voz de seu próprio Espírito, ou daqueles com os quais está em relação. A fadiga material, inerente às suas ocupações, a relativa ignorância em que sofre esta encarnação, uma vez que não sabe, em questões de ciência, senão o que a si próprio se revelou, tudo isto desaparece para dar lugar a uma lucidez de pensamento, a um alargamento do raciocínio e a uma eloqüência excepcional, que são o fato do desenvolvimento anterior do Espírito. A freqüência de seus êxtases tem por objetivo tão-só habituar seu corpo a um estado que, durante certo período e para uma meta especial ulterior, poder tornar-se, de certo modo, normal. Quando ele pede para ser despertado prontamente, é que deseja realizar sua missão sem falhar. Sob o encanto dos quadros sublimes que se lhe apresentam, e do meio em que se encontra, gostaria de libertar-se dos laços terrenos e ficar definitivamente entre os Espíritos. Sua razão e seu dever, que o retêm na Terra, combatem este desejo; e de medo de se deixar dominar e de sucumbir à tentação, ele vos grita para que o desperteis.”
Devendo multiplicar-se estes fenômenos de sonambulismo mediúnico espontâneo, as instruções que precedem têm por objetivo guiar os grupos onde eles poderiam produzir-se, na observação dos fatos e de os fazer compreender a necessidade de usar da mais extrema prudência em semelhante caso. É preciso abster-se de maneira absoluta de os transformar em objeto de experimentação e de curiosidade. Os espíritas poderão aí colher grandes ensinamentos, próprios a esclarecer e a fortificar a sua fé, mas, repetimos, seriam sem proveito para os incrédulos. Os fenômenos destinados a convencer estes últimos e que se podem produzir em plena luz, são de outra ordem e, no número, alguns terão lugar, e já se produzem, pelo menos em aparência, fora do Espiritismo; a palavra Espiritismo os horroriza. Não sendo pronunciada, será uma razão a mais para dele se ocuparem. Os Espíritos são, pois, prudentes, quando, por vezes, trocam a etiqueta.
Quanto à utilidade especial desta mediunidade, ela está na prova, de certo modo palpável, que fornece da independência do Espírito por seu isolamento da matéria. Como dissemos, as manifestações deste gênero esclarecem e fortificam a fé; põe-nos em contato mais direto com a vida espiritual. Qual é o espírita apático ou indeciso que ficaria indiferente em presença de fatos que lhe fazem, por assim dizer, tocar com o dedo a vida futura? Qual o que poderia ainda duvidar da presença e da intervenção dos Espíritos? Qual o coração bastante endurecido para não ficar comovido com o aspecto do futuro que se desdobra à sua frente, e que Deus, em sua bondade, lhe permite entrever?