Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas – Discurso do Sr. Allan Kardec na abertura do ano social, em 1o de abril de 1862
A maior parte dos membros da Sociedade reside em Paris; entretanto, conta alguns que residem na província ou no estrangeiro e, embora só compareçam excepcionalmente, alguns jamais vieram a Paris desde a sua fundação, mas têm a honra de pertencer aos seus quadros. Além dos membros propriamente ditos, ela tem correspondentes, mas suas relações, puramente científicas, apenas objetivam mantê-la ao corrente do movimento espírita nas diversas localidades e me fornecem documentos para a história do estabelecimento do Espiritismo, cujos materiais estou a recolher. Entre os adeptos, alguns há que se distinguem pelo zelo, pela abnegação e pelo devotamento à causa do Espiritismo; que pagam pessoalmente, não em palavras, mas em ações. A Sociedade sente-se feliz por lhes dar um testemunho particular de simpatia, conferindo-lhes o título de membros honorários. Nos últimos dois anos a Sociedade tem crescido em reputação e em importância; mas os seus progressos são assinalados pela natureza das comunicações que recebe dos Espíritos. Com efeito, de algum tempo a esta parte, suas comunicações adquiriram proporções e desenvolvimentos que superaram de muito a nossa expectativa; já não são, como outrora, breves fragmentos de moral banal, mas dissertações, nas quais as mais altas questões de filosofia são tratadas com uma amplidão e uma profundidade que delas fazem verdadeiros discursos. Foi o que observou a maioria dos leitores da Revista. Sinto-me feliz em noticiar um outro progresso, no que respeita aos médiuns. Jamais, em nenhuma outra época, os vimos tantos, participando dos nossos trabalhos, pois chegamos a ter quatorze comunicações na mesma sessão. Contudo, mais precioso que a quantidade, é a qualidade, cuja importância pode ser julgada pelas instruções que nos são dadas. Nem todos apreciam a mediunidade do mesmo ponto de vista. Uns a avaliam pelo efeito; para estes, os médiuns velozes são os mais notáveis e os melhores. Para nós, que, antes de tudo, buscamos a instrução, damos mais valor àquilo que satisfaz ao pensamento do que ao que contenta os olhos. Assim, preferimos um médium útil, com o qual aprendemos alguma coisa, a um médium admirável, com quem nada aprendemos. Sob este ponto de vista não temos por que nos lastimar e devemos agradecer aos Espíritos por terem cumprido a promessa que fizeram, de não nos deixarem desprevenidos. Querendo ampliar o círculo de seus ensinos, deviam multiplicar também os instrumentos. Há, porém, um ponto ainda mais importante, sem o qual tal ensino só teria produzido alguns frutos, ou nenhum. Sabemos que os Espíritos estão longe de possuir a soberana ciência e que se podem enganar; que, muitas vezes, emitem as próprias idéias, justas ou falsas; que os Espíritos superiores querem que o nosso julgamento se aperfeiçoe em discernir o verdadeiro do falso, o que é racional daquilo que é ilógico. Eis por que jamais aceitamos, seja o que for, de olhos fechados. Logo, não poderia haver ensino proveitoso sem discussão. Mas, como discutir comunicações com médiuns que não admitem a menor controvérsia, que se ofendem com uma observação crítica, com um simples comentário, e ficam contrariados quando não são aplaudidos pelas coisas que recebem, mesmo aquelas eivadas das mais grosseiras heresias científicas? Essa pretensão não teria cabimento se aquilo que escrevem fosse produto de sua inteligência; é ridícula, desde que não passam de instrumentos passivos, pois se assemelham a um ator que se sentiria melindrado caso achássemos maus os versos que deve recitar. Não sendo seu próprio Espírito passível de magoar-se com uma crítica que não o atinge, é, por conseguinte, o Espírito comunicante que se sente ofendido e transmite ao médium a sua impressão. Por isto mesmo o Espírito trai a sua influência, porque quer impor suas idéias pela fé cega, e não pelo raciocínio; ou, o que vem a dar no mesmo, porque só ele quer raciocinar. Disso resulta que o médium, que se acha em tais disposições, está sob o império de um Espírito que merece pouca confiança, desde que exibe mais orgulho que saber. Sabemos, também, que os Espíritos dessa categoria geralmente afastam os médiuns dos centros onde não são aceitos sem reservas. Essa imperfeição, em médiuns assim atingidos, é um enorme obstáculo ao estudo. Se não buscássemos senão o efeito, isto não teria importância para nós; mas como buscamos a instrução, não podemos nos eximir de discutir, mesmo com o risco de desagradar aos médiuns. Como sabeis, outrora alguns se retiravam por este motivo, embora não confessado, e porque não conseguiram impor-se perante a Sociedade como médiuns exclusivos e como intérpretes infalíveis das potências celestes. Aos seus olhos, os obsedados são aqueles que não se inclinam diante de suas comunicações. Alguns levam a sua susceptibilidade a ponto de se escandalizarem com a prioridade dada à leitura das comunicações recebidas por outros médiuns. Quando é que uma comunicação é preferida à sua? Compreende-se o mal-estar imposto por tal situação. Felizmente, no interesse da ciência espírita, nem todos são assim e me apresso em aproveitar a ocasião para, em nome da Sociedade, agradecer aos que hoje nos prestam o seu concurso com tanto zelo e devotamento, sem calcular esforço nem tempo e que, não tomando partido por suas comunicações, são os primeiros a não fugirem da controvérsia que podem provocar. Em resumo, senhores, só nos podemos congratular pelo estado da Sociedade, do ponto de vista moral; ninguém há que não tenha observado uma notável diferença no espírito dominante, em comparação ao que era no princípio, e cada um sente instintivamente a impressão, traduzida em muitas circunstâncias por fatos positivos. É incontestável que aí reina menos mal-estar e constrangimento, enquanto se faz sentir um sentimento de mútua benevolência. Parece que os Espíritos trapalhões, vendo a sua impotência para semear a desconfiança, tomaram o sábio partido de retirar-se. Também só podemos aplaudir a feliz idéia de vários membros, de organizarem reuniões particulares em suas casas. Elas têm a vantagem de estabelecer relações mais íntimas; além disso, são centros para uma porção de pessoas que não podem vir à Sociedade. Aí podem ter uma primeira iniciação; podem fazer numerosas observações que, depois, convergem para o centro comum. Enfim, são laboratórios para a formação de médiuns. Agradeço muito sinceramente às pessoas que me honraram oferecendo a sua direção, mas isso me era materialmente impossível. Lamento mesmo muito não poder estar aí tanto quanto desejaria. Conheceis minha opinião a respeito dos grupos particulares; assim, faço votos por sua multiplicação, na Sociedade ou fora dela, em Paris ou alhures, porque são os agentes mais ativos da propaganda. Do ponto de vista material, nosso tesoureiro vos explicou a situação da Sociedade. Sabeis perfeitamente, senhores, que o nosso orçamento é muito simples; como não procuramos capitalizar, basta que haja equilíbrio entre o ativo e o passivo. Peçamos, pois, aos Espíritos bons e, em particular, ao nosso presidente espiritual, São Luís, que continuem a nos prestar a sua benevolente proteção, concedida tão ostensivamente até hoje e da qual nos esforçaremos cada vez mais por nos tornarmos dignos. Resta-me, senhores, chamar a vossa atenção para uma coisa importante. Quero falar do emprego dos dez mil francos que me foram enviados há cerca de dois anos por um assinante da Revista Espírita, que quis guardar o anonimato. Certamente vos lembrais de que esse donativo, a ser empregado no interesse do Espiritismo, foi-me entregue pessoalmente, sem formalidades especiais, sem recibo e sem que eu devesse prestar contas a quem quer que fosse. Comunicando à Sociedade essa feliz circunstância, declarei, na sessão de 17 de fevereiro de 1860, que não pretendia prevalecer-me daquela prova de confiança e que, para minha própria satisfação, desejava que aquele fundo fosse submetido a um controle. E acrescentei: “Esta soma formará o primeiro fundo de uma caixa especial, sob o nome de Caixa do Espiritismo e que nada terá em comum com os meus negócios pessoais. Será posterior-mente aumentada com as somas que lhe puderem chegar de outras fontes e destinada exclusivamente às necessidades da doutrina e ao desenvolvimento das idéias espíritas. Um de meus primeiros cuidados será suprir o que estiver faltando materialmente à Sociedade para a regularidade de seus trabalhos, e para a criação de uma biblioteca especial. Pedi a vários colegas que aceitassem o controle dessa caixa e verificassem, em datas que serão determinadas posteriormente, o útil emprego desse fundo.” Essa comissão, hoje parcialmente desfeita pelas circunstâncias, será completada quando for necessário; então, todos os documentos lhe serão fornecidos. Enquanto aguardamos, e tendo em vista a absoluta liberdade que me foi concedida, julguei conveniente aplicar essa soma no desenvolvimento da Sociedade. É a vós, senhores, que julgo dever prestar contas da situação, tanto para desobrigar-me pessoalmente, quanto para a vossa edificação. Insisto, sobretudo, para que bem se compreenda a impossibilidade material de usar esse fundo em despesas cuja urgência se faz sentir cada vez mais, em razão da própria extensão dos trabalhos que reclama o Espiritismo.
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Mês Junho
Ano 1862