Reclamação do abade Barricand
Até agora o clero havia pensado que um meio de apavorar, no que respeita ao Espiritismo, fazendo que o repelissem, era exagerar o número de seus adeptos além da medida. Em quantos sermões, pastorais e publicações de todo o gênero estes não foram apresentados como invasores da sociedade e, por seu aumento, pondo a Igreja em perigo? Confirmamos o progresso das idéias espíritas, pois, melhor do que ninguém, estamos em condições de constatar; mas jamais caímos em cálculos hiperbólicos e nunca dissemos, como certo pregador, que só em Bordeaux foram vendidos mais de 170.000 francos de nossos livros. Não fomos nós que dissemos que havia 20 milhões de espíritas na França, nem, como numa obra recente, 600 milhões no mundo inteiro, o que eqüivaleria a mais da metade da população total do globo. O resultado desses quadros foi completamente diverso do que esperavam. Ora, se quiséssemos proceder por indução, suspeitaríamos que o abade Barricand quisesse seguir uma tática contrária, atenuando os progressos do Espiritismo, em vez de os exaltar. Seja como for, a estatística exata dos espíritas é uma coisa impossível, tendo em vista o número imenso de pessoas simpáticas à idéia e que não têm qualquer motivo para se porem em evidência, já que os espíritas não estão arregimentados como numa confraria. Grande seria o equívoco de quem tomasse por base o número de grupos oficialmente conhecidos, considerando-se que nem um milésimo dos adeptos os freqüentam. Conhecemos algumas cidades onde não há nenhuma sociedade regular e nas quais há mais espíritas que em outras, que contam diversas. Aliás, já dissemos que as sociedades não são uma condição necessária à existência do Espiritismo; algumas se formam hoje e encerram suas atividades amanhã, sem que sua marcha seja entravada no que quer que seja. O Espiritismo é uma questão de fé e de crença, e não de associação. Quem quer que partilhe de nossas convicções a respeito da existência e da manifestação dos Espíritos e das conseqüências morais daí decorrentes, é espírita de fato, sem que haja necessidade de estar inscrito num registro ou matrícula, ou de receber um diploma. Basta uma simples conversa para dar a conhecer os que são simpáticos à idéia ou a repelem, e por aí se julga se ela ganha ou perde terreno. A avaliação aproximada do número de adeptos repousa em relatórios íntimos, pois não existe qualquer base para o estabelecimento de uma cifra rigorosa, cifra, aliás, incessantemente variável. Uma carta, por exemplo, vai nos revelar toda uma família espírita e, por vezes, várias famílias, de que não tínhamos nenhum conhecimento. Se o abade Barricand visse a nossa correspondência talvez mudasse de opinião; mas não nos preocupamos com isso. A oposição feita a uma idéia está sempre na razão de sua importância. Se o Espiritismo fosse uma utopia, dele não se teriam ocupado, como de tantas outras teorias. A obstinação da luta é indício certo de que o levam a sério. Mas se há luta entre o Espiritismo e o clero, a História dirá quais foram os agressores. Os ataques e as calúnias de que foi objeto o forçaram a devolver as armas que lhe atiravam e a mostrar o lado vulnerável de seus adversários. Perseguindo-o, detiveram sua marcha? Não, certamente. Se o tivessem deixado em paz, nem o nome do clero teria sido pronunciado e talvez este tivesse vencido. Atacando-o em nome dos dogmas da Igreja, forçaram-no a discutir o valor das objeções e, por isto mesmo, a entrar num terreno que ele não tinha intenção de enveredar. A missão do Espiritismo é combater a incredulidade pela evidência dos fatos, reconduzir a Deus os que o desconheciam, provar o futuro aos que criam no nada. Então, por que hoje a Igreja lança mais anátemas sobre aqueles aos quais dá fé, do que quando em nada criam? Repelindo os que crêem em Deus e na alma pelo Espiritismo, é constrangê-los a buscar refúgio fora da Igreja. Quem primeiro proclamou que o Espiritismo era uma religião nova, com seu culto e seus sacerdotes, senão o clero? Onde se viu, até agora, o culto e os sacerdotes do Espiritismo? Se algum dia tornar-se uma religião, é o clero que o terá provocado.
TAG Valor
Mês Julho
Ano 1864