2ª Parte - Cap. 8: O martírio em Jerusalém
Herodes Agripa, muito pálido, tinha a impressão de haver encon trado uma das mais profundas vozes da revelação divina. Pórcio Festo não ocultava a surpresa que lhe assaltara subitamente o espírito. Não presumia no prisioneiro tamanho cabedal de fé e persuasão. Ouvindo o Apóstolo descrever as cenas mais belas do seu apostolado com os olhos repletos de alegria e de luz, transmitindo ao audi tório atento e comovido idéias imprevistas e singulares, o governador considerou que se trataria de um louco sublime e disse -lhe, em alta voz, na intercorrência de uma pausa mais prolongada: — Paulo, és um desvairado! As muitas letras fazem-te delirar!... O ex-rabino, longe de se atemorizar, respondeu no bremente: — Enganais-vos! Não sou um louco! Diante da vossa autoridade de romano ilustre, eu não me atreveria a falar desta maneira, pois reconheço que não estais devidamente preparado para ouvir -me. Os patrícios de Augusto são também de Jesus-Cristo, mas ainda não conhecem plenamente o Salvador. A cada qual, devemos falar de acordo com sua capacidade espiritual. Aqui, porém, senhor governador, se falo com ousadia é p orque me dirijo a um rei que não ignora o sentido de minhas palavras. Herodes Agripa terá ouvido Moisés, desde a infância. É romano pela cultura, mas alimen tou-se da revelação de Deus aos seus antepassados. Nenhuma de minhas afirmações lhe pode ser desconhecida. De outro modo, ele trairia sua origem sagrada, pois todos os filhos da nação que aceitou o Deus único devem conhecer a revelação de Moisés e dos profetas. Credes assim, rei Agripa? A pergunta causou enorme espanto. O próprio admi nistrador provincial não teria coragem de se dirigir ao rei com tamanha desenvoltura. O ilustre descendente de Ântipas estava altamente surpreendido. Extrema palidez cobria-lhe o semblante. Ninguém, assim, jamais lhe houvera falado em toda a sua vida. Percebendo-lhe a atitude mental, Paulo de Tarso completou a poderosa argumentação, acrescentando: — Sei que credes!... Confuso com o desembaraço do orador, Agripa sa cudiu a fronte como se desejasse expulsar alguma idéia importuna, esboçou um sorriso vago, dando a entender que estava senhor de si, e disse em tom de gracejo: —Ora esta! por pouco me persuades a fazer uma profissão de fé cristã... O Apóstolo não se deu por vencido e revidou: —Oxalá que, por pouco ou muito, vos fizésseis discípulo de Jesus; não somente vós, mas todos quantos nos ouviram hoje. Pórcio Festo compreendeu que o rei estava muito mais impressionado do que se supunha e, desejoso de modificar o ambiente, propôs que as altas personalidades se retirassem para a refeição da tarde, em palácio. O ex -rabino foi reconduzido ao cárcere, deixando nos ouvin tes imorredoura impressão. Berenice, sensibilizada, foi a primeira a manifestar -se, reclamando demência para o prisioneiro. Os demais seguiram a mesma corrente de benévola simpatia. Herodes Agripa tentou uma fórm ula digna para que o Apóstolo fosse restituido à liberdade. O governador, porém, explicou que, conhecendo a fibra moral de Paulo, tomara a sério o seu recurso para César, estando já pergaminhadas as primeiras instruções a res peito. Cioso das leis romanas, pôs embargos ao alvitre, embora pedisse o socorro intelectual do rei para a carta. de justificação, com que o acusado deveria apresentar -se à autoridade competente, na capital do Império. Dese joso de conservar sua tranqüilidade política, o descendente dos Herodes não aventou qualquer nova sugestão, lamentando apenas que o prisioneiro já houvesse recor rido em derradeira instância. Procurou então cooperar na redação do documento, mostrando -se contrário ao pregador do Evangelho tão -só pela circunstância d e haver suscitado muitas lutas religiosas na camada popular, em desacordo com a unidade de fé colimada pelo Sinédrio como baluarte defensivo das tradições do judaísmo. Para isso, o próprio rei assinara como testemunha, empres tando maior importância às ale gações do preposto im perial. Pórcio Festo registrou o auxílio, extremamente satisfeito. Estava resolvido o problema e Paulo de Tarso poderia partir com a primeira leva de sentenciados, para Roma. Escusado dizer que recebeu a notícia com sereni dade. Depois de um entendimento com Lucas, pediu que a igreja de Jerusalém fosse avisada, bem como a de Sídon, onde o navio, certo, haveria de receber carga e passageiros. Todos os amigos de Cesaréia foram mobilizados no serviço das comovedoras mensagens que o ex-rabino dirigiu às amadas igrejas, menos Timóteo, Lucas e Aristarco, que se propunham acompanhá -lo à capital do Império. Os dias correram, céleres, até que chegou o mo mento em que o centurião Júlio com a sua escolta foi buscar os prisioneiros para a viagem to rmentosa. O centurião tinha plenos poderes para determinar todas as providências e, logo, evidenciando simpatia pelo Apóstolo, ordenou fosse ele conduzido à embarcação desalgemado, em contraste com os demais prisioneiros. Otecelão de Tarso, apoiado ao br aço de Lucas, reviu, placidamente, a tela clara e barulhenta das ruas, afagan do a esperança de uma vida mais alta, em que os homens pudessem gozar fraternidade em nome do Senhor Jesus. Seu coração mergulhava em doces reflexões e preces ardentes, quando fo i surpreendido com a compacta mul tidão que se premia e agitava na extensa praça a beira-mar. Filas de velhos, de jovens e crianças, aglomeraram -se junto dele, a poucos metros da praia. À frente, Tiago alquebrado e velhinho, vindo de Jerusalém com grande sacrifício, por trazer-lhe o ósculo fraternal. O ardente defensor da gentilidade não conseguiu dominar a emoção. Bandos de crianças atiraram -lhe flores. O filho de Alfeu, reconhecendo a nobreza daquele Espírito heróico, tomou-lhe a destra e beijou-a com efusão. Ali estava com todos os cristãos de Jerusalém, em condições de fazer a viagem. Ali estavam confrades de Jope, de Lida, de Antipátris, de todos os quadrantes provinciais. As crian ças da gentilidade uniam-se aos pequeninos judeus, que saudavam carinho samente o Apóstolo prisioneiro. Velhos aleijados aproximavam -se respeitosos e exclamavam: — Não deveríeis partir!... Mulheres humildes agradeciam os benefícios rece bidos de suas mãos. Doentes curados comentavam a colônia de trabalho que ele sugerira e aju dara a fundar na igreja de Jerusalém e proclamavam sua gratidão em altas vozes. Os gentios, convertidos ao Evangelho, bei javam-lhe as mãos, murmurando: — Quem nos ensinará doravante, a sermos filhos do Altíssimo? Meninos amorosos apegavam -se-lhe à túnica, sob os olhares de mães consternadas. Todos lhe pediam que ficasse, que não partisse, que voltasse breve para os serviços abençoados de Jesus. Subitamente, recordou a velha cena da prisão de Pedro, quando, ele, Paulo, arvorado em verdugo dos dis cípulos do Evangelho, visitara a igreja de Jerusalém, chefiando uma expedição punitiva. Aqueles carinhos do povo lhe falavam brandamente à alma. Significavam que já não era o algoz implacável que, até então, não pudera compreender a misericórdia divina; traduziam a quitação do seu débito com a alma do povo. De consciência um tanto aliviada, recordou-se de Abigail e começou a cho rar. Sentia-se, ali, como no seio dos “filhos do Calvário” que o abraçavam, reconhecidos. Aqueles mendigos, aque les aleijados, aquelas cri ancinhas eram a sua família. Naquele inesquecível minuto da sua vida, sentia -se plenamente identificado no ritmo da harmonia universal. Brisas suaves de mundos diferentes balsamizavam -lhe a alma, como se houvesse atingido uma região divina, depois de venc er grande batalha. Pela primeira vez, alguns pequeninos chamaram -lhe “pai”. Inclinou-se, com mais ternura, para as criancinhas que o rodeavam. Inter pretava todos os episódios daquela hora inolvidável como uma bênção de Jesus que o ligava a todos os seres. À sua frente, o oceano em calma assemelhava -se a um caminho infinito e promissor de misteriosas e inefáveis belezas. Júlio, o centurião da guarda, aproximou -se comovido e falou com brandura: — Infelizmente, chegou o momento de partir. E, testemunha das m anifestações tributadas ao Após tolo, também ele tinha os olhos úmidos. Muitos réus se lhe haviam já deparado naquelas circunstâncias e eram todos revoltados, desesperados, ou penitentes arrepen didos. Aquele, porém, estava sereno e quase feliz. Júbilo ind izível lhe transbordava dos olhos brilhantes. Além disso, sabia que aquele homem, dedicado ao bem de todas as criaturas, não cometera falta alguma. Por isso mesmo, conservou-se ao seu lado, como querendo compartilhar dos transportes afetuosos do povo, como a demonstrar a consideração que lhe merecia. O Apóstolo dos gentios abraçou os amigos pela últi ma vez. Todos choravam discretamente, à maneira dos sinceros discípulos de Jesus, que não pranteiam sem consolo: as mães ajoelhavam -se com os filhinhos na are ia alva, os velhos, apoiando-se a rudes cajados, com imenso esforço. Todos os que abraçavam o campeão do Evan gelho, punham-se de joelhos, rogando ao Senhor que abençoasse o seu novo roteiro. Concluíndo as despedidas, Paulo acentuava com se renidade heróica: —Choremos de alegria, irmãos! Não há maior gló ria neste mundo que a de estar o homem a caminho de Cristo Jesus!... O Mestre foi ao encontro do Pai, através dos martírios da Cruz! Abençoemos nossa cruz de cada dia. É preciso trazermos as marcas do Senh or Jesus! Não acredito possa voltar aqui, com este alquebrado corpo de minhas lutas materiais. Espero que o Senhor me conceda o derradeiro testemunho em Roma; entre tanto, estarei convosco pelo coração; voltarei às nossas igrejas em Espírito; cooperarei no vosso esforço nos dias mais amargos. A morte não nos separará, tal como não separou o Senhor da comunidade dos discípulos. Nunca estaremos distantes uns dos outros e, por isso mesmo, prometeu Jesus que estaria ao nosso lado até ao fim dos séculos!... Júlio ouviu a exortação, comovidamente. Lucas e Aristarco soluçavam baixinho.
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Capítulo 8
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